Cochichos e Relaxos


06/02/2010


Um reecnontro tardio - parte 2

Paulo retorna à pensão depois do reencontro tardio, mão no bolso da calça encharcada pela chuva, caminhava em frente, sem parar para pensar, como uma animal que simplesmente sobrevive e se defende. A volta surgiu como uma alívio, precisava ganhar as ruas, respirar novamente. A chuva começara há cerca de uma hora, de forte intensidade.

Os irmãos convidaram Paulo a fazer companhia a mãe e a dormir no seu antigo quarto. Paulo então categoricamente recusou o convite-obrigação. Não deu motivos, não deu satisfações.

Ele encarou os irmãos como se fosse uma luta selvagem, pela sobrevivência. Os irmãos exibiram seus rostos de contrariedade. Eles tinham família, um lar, Paulo não. Paulo só tinha agora a mãe. O que custava? custava muito, custava o amor, o afeto que Paulo não mais tinha. Daí em diante as frases estouraram sobre as costas de Paulo, sobre as faces como tapas.

"Ora, então faça o que bem entender. Insensível, foi por isso que a tua mulher sumiu. Quem aguenta um filho ingrato, quem de fato precisa de um traste. Nós não vamos mais estender a nossa mão benevolente Paulo, agora acabou, agora não tem mais advogado, vamos dar um jeito de você não herdar essa casa, vamos dar um jeito para nunca mais veja os seus queridos sobrinhas cresceram."

Então Paulo abriu bruscamente a porta, escancarando a antiga sala de piso de tacos de madeira retangulares. A água da chuva entrou e molhou tacos de madeira, móveis, uma chuva violenta e enviesada, movida pela ventania.

Berraram, insistiram: "feche a porta Paulo.'

"deixe a chuva entrar, deixe tudo aí dentro apodrecer!!! Apodreçam vocês e esses móveis velhos. Mofem vocês e os móveis."

Chovia lá dentro e lá fora, chovia aqui dentro e aqui fora. Não havia guarda-chuva a ser aberto, mesmo porque no meio daquele temporal guardas-chuvas são inúteis.

 

Escrito por Jiló às 12h58
[ ] [ envie esta mensagem ]

02/02/2010


um reencontro tardio

Paulo percorreu um curto caminho, mas tão longo caminho que não se lembrava mais como chegar até a sua antiga casa. Articulado pela irmã, pressionado pelo irmão, implorado pela mãe, o encontro aconteceu no velho sobrado, onde os filhos de Jacira nasceram e passaram infância e adolescência.

Dela participaram apenas o irmão, como já foi dito, próspero comerciante de quinquilharias chinesas e a irmã, prestimosa dona de casa, dedicada mãe e esposa e seus respectivos filhos. Já os respectivos marido e esposa ficaram de fora para reforçarem a imagem de que eles eram desnecessários no idílio familiar.

A mãe, e não a matriarca, sentou-se à cebeceira da mesa, sinal de prestígio. Mas na real, ela ocupava um posição periférica, fragilizada pela saúde, reforçada pelo seu quase mutismo, acompanhada de uma expressão jovial em seu rosto, que parecia sempre débil. Ela está gagá, os netinhos e netinhas repetiam, observação que os prestimosos pais e mães recriminavam, sem no fundo deixar de concordar, com orgulho, a brilhante análise da condição humana feita pelos seus respectivos filhos.    

No início a irmã parecia coordenar as ações: aproximar Paulo da mãe, fazer com que ela fizesse pequenas confissões à Paulo ao pé do ouvido, forjando uma falsa intimidade. Mas Paulo nada entendia das palavras balbuciadas pela mãe, nem das emoções que ela desejava expressar, algo tão sincero quanto repugnante.

Depois a irmã foi se retirando do centro da cena, e a iluminação se voltou para o irmão mais novo que convidou Paulo para uma conversa na velha e carcomida varanda, caindo aos pedaços, necessitando de reformas, envernizada precariamente pela solidão.

"Paulo", solemente, "Paulo", afetando uma falsa coloquialidade, "Paulo, mano Paulo, estou aqui para o que der e vier." E depois ouviu-se mais algumas palavras: solidariedade, união, familía, propriedade. Não a palavra propriedade não foi mencionada, mas ficou subentendida, pois após a morte da mãe teriam de dividir a grana da venda do velho sobrado.

Solidariedade e um resto de generosidade. E o irmão oferecia à Paulo o seu desprendimento, pois não o julgaria. Oferecia à Paulo a assistência de um ótimo advogado que lhe seria de grande valia. Um advogado formal, daqueles engravatados e com a retórica pronta para os flashs da tevê. Afinal o mano tinha grana para contratar advogados desse porte.

A irmã aproximou-se, um pé dentro outro fora, da varanda como se tivesse medo que com o peso dos três e a gravidade da situação e a turbulência das emoções, a varanda fosse despencar.

 "Paulô, você sabe que nós somos uma família. Às vezes fazemos coisas erradas, uma bobagem que terminar em uma grande tragédia."

"Às vezes saímos do sério mano. Lembra de quando brigávamos no futebol? Que grande besteira, coisas pequenas e você implicando com Elton John da vitrola e a gente chegava a sair no tapa? As coisas não devem acontecer, mas acabam acontecendo..."

A única frase que saiu com penúria de Paulo, como se contasse uma novidade: "A minha mulher sumiu."

"Como podwe sumir? Evaporou? Sem sinais? Vamos Paulo, conosco você pode se abrir."

A mulher de Paulo estava mais viva e presente, porque a sua família insistiria nisso até o fim dos tempos, por toda a eternidade, até que eles morressem um a um ainda se perguntando onde a intangível mulher do irmão estava. Mas, óbviamente, eles queriam saber outra coisa além do sumiço da esposa de Paulo.

"Eu não matei a minha mulher." Estranha, muito estranha a frase, pois não era uma pedido de inocência, era antes um fato, um fato que Paulo se recusava a acreditar e repetia como se fosse uma fantasia. Seria diferente de dizer: minha esposa foi embora, cansou-se e foi embora.

"Então mataram ela, mataram ela, foi morta."

Mas que irritante ver o irmão repetindo e decretando a morte da esposa.

Enfim conclui:"Que tragédia Paulo."

Semanas depois do desaparecimento da esposa, início de fevereiro, tempestades tropicais desabam todos os dias sobre são paulo, as pessoas afundando e despencado em bueiros. escoadas como latas de lixo pelas águas da chuva. Pessoas soterradas e asfixiadas dentro de suas próprias casas. Quie tragédia Paulo! e todo dia sua esposa isiste em flutuar sober todas as tragédias.

"Vai cair um pé d'água novamente." Paulo imerso e concentrado no temrporal da tarde.

"A sua mãe precisa de você Paulô. Ela fica muito solitária com a enfermeira, niguém vem visitá-la."

"Vai chover e a varanda vai desabar."

"Mamãe não está bem Paulô, não conte nada sobre o desaparecimento...Ela não sabe."

Há centenas, provavelmente milhares de pessoas ilhadas em prédios comerciais, nas casas e em seus telhados, muitas delas mulheres, apoiando-se no capô dos seus carros importados japoneses. Mulheres solteiras viúvas, loucas, separadas, crentes e descrentes. Todas elas sofrendo de algum tipo de solidão e pânico. Um punhado de mulheres se entregariam ao primeiro homem que lhes estendessem a mão. Bastaria que Paulo a colhesse como um fruto molhado e assustadiço.

Mas Paulo percebera que estava tarde demais para estender as mãos, tarde para encontrar uma mulher que substituisse a sua agora ex-esposa, que finalmente levaria alegria e contentamento para a sua mãe, que lhe daria os netos que a outra se recusou a dar.

Escrito por Jiló às 18h50
[ ] [ envie esta mensagem ]

01/02/2010


acordar

Hoje acordei John Coltrane e não Chet Baker

Acordei John Cage e não Ira Gershwin (essa eu acabei de tirar do forno)

Acordei Beckett e não Samuel

Acordei com o dedo na tomada, cabelo arrepiado.

Mas é claro que eu inventei todas essas formas de acordar, instatÂneas, rápidas e irreais.

Escrito por Jiló às 10h40
[ ] [ envie esta mensagem ]

29/01/2010


Alimento

Verão chuvoso em São Paulo. Não chove nessa quantidade há mais de quarentas anos. Um dilúvio cai sobre sampa todos os dias, quase sempre nop final da tarde. Rastros de destruição, pessoas sendo engolidas ou soterradas. Mas a cidade não para, vejo senhoras com seus vestidos leves de verão observando as lojas de produtos importados na Oscar Freire, Lorena.

Hoje estou fazendo uma excursão particular por algumas ruas dos jardins, é que, confesso, tenho vergonha de dizer que as mulheres com seus vestidos de verão me fascinam. Eu morreria de vergonha se encontrasse com algum colega de universidade nessa região, templo do consumo e da vida fugaz. Provavelmente a recíproca seria verdadeira.  

As lojas começam a fechar, a fome aperta. Há alguns bares sob a forma de botecos onde alguns jovens publicitários fazem o happy hour sem frescura, há restaurantes caríssimos onde dá para ver mulheres de vestidos início da noite tomando vinho em taças que brilham e reverberam em seus olhos. As mulheres, sempre as mulheres.

Entro em uma padaria, aliás com certeza a mais elegante da região, onde há um grande balcão e mesas charmosas espalhadas pelo salão. Eu me ajeito no balcão e peço um sanduiche no pão sírio: presunto parma, rúcula tomate seco e mussarela búfala e todas as frescuras que um simples sanduiche pode conter numa padaria onde há um chef gourmet.

Logo vejo que o tal sanduiche é enorme. Dava para três pessoas. Um vizinho de balcão, sorridente, me acena. É o primeiro contato com um suposto habitante da região dos jardins que tenho desde o início da idílica excursão. "É por isso que não gosto de vir aqui sozinho, os sanduiches são enormes, mas muito bem feitos pelo chef Alain."   

Eu devolvo o sorriso ao simpático vizinho de balcão que devora uma salada de rúculas com ervas e tomate e queijo cotage com a sua aparentemente risonha idem esposa. "Mas não se preocupe, nem se envergonhe. eles sempre embrulham o que sobrar, se você pedir." O casal vai embora antes de minha. Na saída me cumprimentam, dizendo até logo, desejando um sincero bom apetite. Os burgueses são simpáticos em seus ambientes, repeti como quem enfia na cabeça uma importante lição sociológica. 

Comecei a me sentir estranhamente em casa. Até sorri para uma senhora com uma sacola enorme: compras e lembrancinhas para o neto surfista e cheio de gíria, que não dispensa frios e a cochinha feita de batata. Uma padaria, mas uma padaria cinco estrelas faz essa caridade com os seus clientes. Depois é só esquentar no microondas ou algo parecido, dividir com a esposa ou a filha que se recusaram a participar de tão aviltante excursão pelo mundo fútil das grifes e do fetichismo da mercadoria, que se expressa de forma mais latente no culto aos chefs de cuisine, como as pessoas colonizadas em seus carros importados gostam de se referir aos chefes dos cozinheiros, vindos do nordeste, explorando mão-de-obra barata.

Para a minha supresa a metade do sanduiche em pão sírio foi colocada em uma sofisticada caixa de papelão com o logotipo da padaria, depois acondicionou a embalagem em uma elegante sacola. Parecia que eu havia comprado uma camisa na Richards, Valentino, Emório Armani, sei lá. Para os frequentadores dos jardins era fácil identificar, pelo logotipo da padaria e então eles pesnariam em uma simples baguete ou em um simples bolo acondicionado em uma simples sacola meia boca.

Não poderia chegar em casa com o produtro, sua esposa com certeza e com razão ficaria furiosa com o passeio fútil e ainda mais com o gasto inútil. Em outras palavras, eu precisava me livrar do embrulho. A chuva amenizara, alguns pingos. Eu carregava a sacola em direção ao centro de São Paulo, à pé segurando um guarda-chuvas. As ruas semidesertas em plena quarta-feira, dia de futebol inútik no pacaembu. Nãp encontrei, graças a deus, com nenhum torcedor durante o trajeto. Cadê os mendigos que ficam em frente à pizzaria entrega rápida, logo abaixo o cinema pensei. Ninguém, desviei do meu caminho, entrei pelas travessas da rua Augusta. Tive a tentação de pensar que os mendigos nos dias de chuva ficam todos escondidos em suas casas e buracos, porque não compensa ficar na rua com tamanho aguaceiro.

Fui parar na Caio Prado, quanto mais caminhava mais a angústia me apertava. Nenhum mendigo exclamei, como se tivessem feito um limpeza étnica em são paulo ou como se o milgre econômico lula lelé houvesse se concretizado em um passe de mágica e todos tivessem virado respeitáveis cidadãos de classe média, instalados em confiortáveis apartamentos devorando pãezinhos crocantes.

Ao final da Caio prado, cruzamento com a Rua da Consolação, enfim, avisto dois mendigos. eles estão encostados debaixo de uma pequena marquise, perto è portaria de um prédio decadente. Um deles, mais se parece a um retirante (ainda se usa essa palavra, "restirante"?), pois traz consigo uma mala suja de viagem que utiliza como a sua cama. Ele dorme indiferente ao ruído da rua. A mesma indiferença que eu finjo ter em relação aos meus queridos vizinhos. O outro, ao contrário está desperto e parece bem desperto. Mira para algum ponto no nada. Do outro lado há um posto de gasolina, os funcionários por falta do que fazer parecem observar os mendigos. Mas creio, é só impressão, pois não comentam, não cochicham nem fazem algazarras maldizendo os infelizes sem teto. Eu me aproximo do mendigo acordado. É como se eu não existisse para ele, hesito, tenho receio não propriamente dele, mas de algum trnaseunte me censurar por estar dando uma esmola tão exorbitante a uma pessoa de procedênia duvidosa.

Digo rapidamente e de um só fôlego. "ei, amigo você quer comida? Aqui tem comida amigo!"

Ele repete: "você quer comida? Ei, você quer comida," como se estivesse falando com um ente imaginário, como se fosse ele a oferecer a comida.

Mas como pode ser, provavelmente um faminto.

Repeti: "Amigo, você quer comida? Ela tá boa, a comida, não é resto não. Comida fresca." lapso pois poderia fazer o trocadilho: comida fresca e nova e comida de fresco preparado sob a severa vigilância do chef de cuise alain.

Ele novamente diz o que parece ter virado um bordão: "ei amigo, quer comida?"

Não me contive: "mas parece tapado ou louco. É você, ô seu tapado!". Convenhamos que aquela embalagem elegante era ridícula, ainda mais para a situação. Afinal eu oferecia uma embalagem elegante junto com uma comida elegante bem em frente a uma caçamba que além de concreto continha restos de comida.   

  

 

Escrito por Jiló às 20h19
[ ] [ envie esta mensagem ]

21/01/2010


uma certa dor lateral (parte 2)

o velho poderia ter respondido, depois cuspido na cara do segurança, depois ter partido com a consciência tranquila e a alma quieta. Mas Paulo sentia que o terminal de ônibuas havia sido transformado num ringue vale-tudo com um único vencedor que se esmerava em fazer dos vermes sociais e desabrigados em geral o seu saco de pancadas. Para justificar a expulsão do velho diriam que ele estava drogado e alcoolizado, o que não deixava de ser verdade. Mas se esqueceriam de dizer também que o velho estava dolorido, com um certa dor lateral, transversal, longitudinal.

Um dor que se estendia sem que ninguém desse conta aos seguranças.  

Escrito por Jiló às 19h34
[ ] [ envie esta mensagem ]

Uma certa dor lateral

A prefeitura de São Paulo contratou, sem avisar a população, de forma brutal, um serviço de segurança particular a fim de dar uma maior sensação de segurança nos terminais de ônibus, localizados nas estações de metrô.

Os seguranças apareceram aos poucos. A princípio surgiram depois das 23 horas, e pareciam rescaldos da segurança de prédios vizinhos. Passaram a circular por entre as plataformas dos terminais, como se nada vissem. Depois, de forma mais ostensiva, passaram a circular mais cedo e com faces cerradas como cachorros pastor-alemão, farejando pó e outras drogas. Então, por fim, circularam ostensivamente encarando cada pessoa sentada nos bancos de concreto, como se todos fossem suspeitos de qualquer crime, até do crime de existir. Mas o horário das 23 horas era a divisória, o marco inicial para algum tipo de ação mais organixada. A empresa de segurança passou a se expandir no entorno dos terminais, terminando por dividir as áres em ruas paralelas e secundárias. Ruas mapeadas e vigiadas. Seguranças, a princíio discretos, depois nervosos e por fim ferozes espalham-se na cidade, como redes que se lançam nos oceanos para pegar peixes e indigentes e indecentes para as pessoas e bêbados e infelizes e pingentes e batedores arrapendidos de carteira, hoje só alcoolatras, que nunca irão parar no alcóolicos anônimos porque morrerão antes.

As ruas de são paulo se espalham com veias onde não se sabe o centro, onde se espalham controle e mais controle. É como controlar um cachorro bravo que não quer mais ser controlado. A cidade se espalha como veias ou células descontroladas. Impossível compber um cachorro espumante, mas eles insistem, mesmo que o líquido entorne sempre. 

Paulo observa de um bar, perto do terminal de ônibus, vista ampla e panorâmica, dois seguranças da empresa retagurada abordarem quatro pessoas portando sacos gastos e carcomidos. Pareciam moradores de rua oou de algum coritço. os quatro comem alguns pães dados provavelmente por alguma boa alma ou com algum grau de culpa. Eles resistem à expulsão, querem acabar de comer pelo menos o pão. Um dos vigilantes berra: vocês têm de sair daqui.  

Paulo se fixa no rosto do segurança/; fúria em estado puro. Comenta, espontâneo: "mas que estupidez dos seguranças, que fim de mundo.' Ninguém lhe dá atenção, imersos em suas fugas, desvios de rotas. Alguns poucos aplaudem os seguranças e rosnam para Paulo, e resmungam palavras de ordem "no tempo dos militares... ah quanta saudade."

Os quatro homens carcomidos se retiram e desaparecem em algum buraco que a cidade ainda lhes pode reservar. E Paulo sente uma dor absurda e repentina, lateral, dentro de sua cabeça, e ouve zumbidos e sente tremores.

E como se fosse uma sucessão de cenas, quadros estáticos encadeados de forma linear, uma espécie de A Praça é Nossa na periferia sem Manoel da Nóbrega, um velho maltarpilho senta-se no mesmo local dos moradores de rua. 

Escrito por Jiló às 19h19
[ ] [ envie esta mensagem ]

16/01/2010


quarto pensăo e golpes ineficazes 2

O sol a pino, como já foi dito, iluminava inteiramente o quarto. Uma música distante saído de um rádio de pilha (ainda existem rádios de pilha?) a metros de distância... Soava como Olívia Bighton...

A irmã de Paulo, aflita para pegar em alguma corda, alguma ponte que desse no nada e desviasse o silêncio solene do irmão, começou a cantarolar beixinho "alguém cantava uma canção, alguém cantava na imensidão, alguém cantava ao longe daqui..."

"Essa música não combina com o dia, ensolarado. É uma música melancólica, música chuvosa."

"Daqui a pouco o tempo muda e começa a chover. E eu me lembro que você detesta mpb."

"Nem tanto assim, é um exagero."

"Ah, as nossas brigas por inutilidades, gostos musicais, amigos...Só o tempo para mostrar como tudo isso é inútil e banal."

"É.. o tempo justifica tudo."

"O que o tempo fez com você Paulô?"

"Comigo, eu só envelheci um pouco, tenho rugas na testa, vincos, o pescoço..."

"O tempo te deixou uma frieza que não consigo explicar. Se bem que você nunca foi um poço de ternura."

Paulo ri meio descompassado, como querendo levar na brincadeira e na ironia o gelo descrito pela irmã, como que querendo que ela confiramsse ser só uma brincadeira de uma irmã que tenta recuperar traços de sua outrora juventude, que sumiu em seu rosto cansado e envelhecido precocemente. Até arriscaria dizer que ela estava com uma aparência mais envelhecida que a sua mãe. A irmã falava do gelo de Paulo como se falasse de si mesma, como se quisesse resgatar algum sinal de carinho que não foi capaz de doar para os filhos e a figura esquálida do marido.

"Eu só queria saber por que ela não te deu o recado Paulo?"

"Ah, ela estava ocupada. O serviço no hospital, a enfermeria tomavam muito tempo dela. Ela estava toda no trabalho..."

"Toda no trabalho e nada em você. Eu percebi a voz estranha dela quando eu pedi para dar o recado. Era como se eu falasse com uma desconhecida e pedia um protoclo anexando a data e o dia em que eu telefonei suplicando a sua presença no almoço de domingo para reconfortramos a nossa pobre mãe."

Suplicar, palavra estranha emitida pela irmã. Suplicar, implorar. Ou será que foi ele mesmo que, de forma proposital esqueceu da data do tal almoço, do encontro familiar reconciliatório?

"Ela anotou o recado, apagou de sua memória. Só depois eu vi, sobre um dos livros da estante."

"Mas que desleixo."

"Se você quisesse podeia ter ligado novamente para confirmar o tal encontro..."

Mas ela não ligou, e silenciou como se acusasse algum golpe. Não ligou porque provavelmente tivesse medo de que Paulo, o Paulô decidisse aceitar o convite. E isso deveria assustá-la. Só conseguiu soltar um débil e defensivo: "eu confiava em sua esposa."

Agora não confia mais.

"Sabe Paulo, quando vocês se casaram todos nós da família ficamos de certa forma aliviados, porque achamos que ela seria uma boa companheira, amiga. Uma moça direita (e não torta), correta e que te daria uma alegria que você nunca teve em casa. E que depois a alegria seria redobrada com a vnda de filhos que correriam pela casa sempre vazia de nossa mãe, trancada a ferro e fogo desde a morte de nosso pai."

Ele nunca ouvira a irmã falar daquela forma do pai e da mãe, soava forçado, uma farsa talvez. talvez?  

"Só agora nós (que são os 'nós'?) percebemos claramente o quanto ela te fez mal, e o quanto de egoísmo e perversidade havia nela."

Perversa, cruel egoísta, irrascível, sua ex-esposa. Mesmo para alguém que nutria rancores era uma descrição irreal. De quem a irmã falava?

"E ao invés de uma solidão, vocês compartilharam uma solidão a dois. O casal caramujo, como costumavam brincar os nossos conhecidos."

Agora ela evoca os 'conhecidos'. Quem eram os conhecidos daquela cara carrancuda da irmã, a mais hóstil face humana que existiu e existe na terra, a miss simpatia da turma do colégio, que nunca esboçava um sorriso.

"E nossa mãe ficou tão decepcionada com os filhos qe não vieram. Ela esperou tanto tempo, mas não tinha coragem de falar com você..."

Os filhos, sempre os filhos. As pessoas são obcecadas nos filhos quando eles não vêm.

"Acho que foi por isso também que ela adoeceu."

Pronto, esse era o ponto, toda a conversa desfiada para chegar ao ponto!

"E também, mesmo não reconhecendo bem as pessoas, mesmo tendo lapsos na memória, ela sentiu a tua falta no almoço. Ela sentiu que perdera um filho, que alguma coisa morrera dentro dela."

Paulo acusou o golpe, olhava ofendido e enfurecido. A sua irmã viera colocar a culpa em suas costas, como se ele fosse o centro da desgraça da família.

"E para terminar... essa estória estranha."

"eu não me sinto culpado, eu não sou culpado."

"Todos nós temos um pouco de culpa."

Paulo abre o armário, pega uma garrafa de conhaque barato e entirna no copo sujo sobre o criado mudo.

"Agora deu para beber?"

"É dessa forma não? As desgraças acabam em álcool e niilismo puro, falta de vontade das coisas."

"Não fale desse jeito. Estou aqui para dar o meu apoio. No sumiço da sua esposa você foi o menos culpado."

Menos culpado, mais culpado.

"Não há inocentes." 

 

Escrito por Jiló às 13h06
[ ] [ envie esta mensagem ]

15/01/2010


Quarto, pensăo e golpes ineficazes

Ele estava deitado, assim como quem não quer nada, no quarto que alugara em uma pensão da região de Santa Cecília. Uma pensão pequena, caseira, habitada por pessoas aparentemente ordeiras. Aparentemente, porque nunca se sabe nada além da aparência de pessoas decentes. Uma parte do moradores trabalhava à noite como entregadores de jornal, segurança de posto de gasolina, outros acordavam bem cedo para trabalhar na padaria e em botecos da região. Paulo tinha um quarto só para si, o que era uma exceção, pois os quartos tinham duas beliches onde dormiam 4 pessoas.

A melhor hora para se estar na pensão era o período da manhã. Silêncio e um ar de refúgio das coisas, do mundo. Paulo mantém as janelas cerradas, janelas que davam para o fundo da pensão.

Era uma manhã de janeiro, sol a pino, calor infernal, luminosidade escandalosa, daquelas do tipo que escancara tudo, que não deixa nenhuma fresta de sombra e escuridão. Alguém bate à porta, de início batidas secas, quase ocas, depois as batidas tornaram-se mais fortes: "Paulo, Paulo, você está aí?"

A voz prontamente reconhecida. Há muitos anos não ouvia essa voz e, no entanto, poderia passar a vida inteira sem ouvi-la que a reconheceria de imediato sempre que escutasse um Paulo com um acento engraçado no "o", como se ele não fosse um Paulo qualquer, mas o Paulô!

"Espere um pouco... Já vou abrir a porta." Voz rouca e baixa de "Paulô" naquela manhã.

"Quem está aí? É o quarto do Paulô. A voz do outro lado não reconheceu a voz do Paulô, talvez porque ele nunca tenha ficado rouco como naquela manha, talvez porque os anos a fizeram esquecer de algumas peculiaridades, talvez porque a voz tenha relamente se modificado.

Paulo ajeita alguns copos, arruma uns jornais velhos, abre o armário e joga uma muda de roupa suja dentro dele. A porta se abre. A irmã o vê com um olhar estranho.

"Ah, é você. Bom dia Paulô." Silêncio.

Depois de tantos anos, recebe um único bom dia e um silêncio constragedor. Bom dia, boa tarde, o dia está realmente quente, como vão os outros da família, marido, filhos... E então tchau, até um dia que não se sabe se virá.

Paulo não se decide a convidá-la a entrar. Por isso sua irmã não se anima a entrar no quarto, mas espia furtiva com os olhos insossos de sua adolescência agora modificados pela rotina de dona de casa que sabe como manter uma casa em ordem.

Falta limpeza, higiene e ponderação. Sobra desleixo, olhe os cabelos desalinhados de seu irmão que tudo bem sempre teve cabelos rebeldes (os cabelos nada dizem do caráter da pessoa), mas que poderia ser minimamente mais cuidado.

Os dois irmãos parados, a ponto de começarem uma partida. É só o juiz apitar o seu início do primeiro tempo, o gongo anunciar o primeiro round, a sinal da distante infância dar a ordem para a primeira aula modorrenta na escola estadual. Ele cede espaço para a sua irmã, Carla, entrar. Ela entende o sinal, mas respira fundo ainda uma vez com medo de se contaminar com o ambiente desolador, aos olhos dela, daquele quarto todo desconjuntando, que lembra muito o corpo desconjuntado que Paulo julgava ter desde a sua adolescência.

"Então é aqui que você mora..."

"Sim, é o meu equeno lar." Mas por que falar em lar, palavra tão relacionada à família. E aquela solidão nada familiar, a pensão idem, São Paulo em frangalhos, sem pai, mãe, filhos...

"Lar", e ela soltou um suspiro.

"É provisório", ele disse só para consolá-la.

"Eu sei Paulo." E ela avançou em sua direção para abraçá-lo. Se ele recusasse, o primeiro direto no fígado sairia forte e potente. Estaria em desvantagem.

Deram-se um abraço, uma trégua.

"Saudades de você, senhor sumido", ela disse num tom de reprimenda e carinho. Deu um novo e renovado abraçço no irmão procurando encontrar a saudade que não encontrara no primeiro abraço.

"Pois é, a vida acaba separando as pessoas", Paulo se limitou a comentar, evitando emoções baratas.

"Mas sempre podemos nos aproximar, não é mesmo? Nunca é tarde"

"Parecia que sua irmã havia ensaiado um texto, mal decorado."

Ela abaixou a cabeça, esboçou um choro. "Desculpe, estou emocionada."

Uma cena, no meio do jogo, um desvio. A maior parte da vida as pessoas se desviam para não se machucarem.

Mas por que ela não ia ireto ao ponto? Ou perdia por nocaute ou ganhava com um upper certeiro.

 

Escrito por Jiló às 12h33
[ ] [ envie esta mensagem ]

13/01/2010


Pessoas afundando na nelblina

"Que tragpedia em sua vida. Eu sou tentado a lhe dizer meus pêsames."

Tragédias são grandes catastrofes: terremotos, maremotos, pensa Paulo...

E tem as enchentes do final de 2009, pessoas soterradas pela chuva... As coisas estão desabando.

As prateleiras desabam em São Paulo com suas xícaras e seus cristais; desabam sobre a cabeça das pessoas. Temporais, grandes massas pluviométricas. Algumas delas morrem e um número menor desaparece sob as águas e os escombros.

E então Paulo pensa em sua ex-mulher, submersa na memória de sua família: "o que foi minha mulher e o que ele se tornará para os seus irmãos e seus pais? Um fantasma, uma sombra incômoda?"

E então Paulo aponta para uma família tamanho pequeno, um pai, uma mãe e um filho, sentados naquele bar, esperando pelo Prato Feito noturno: arroz, feijão, carne picada do dia anterior. "Ainda assim eles mantém o sorriso margarina, como se diz. Sorriso felicidade do lar. Há milhares de família sorrisos, infelizes até a morte."

"Foi por isso que vocês não quiseram ter filhos?", pergunta à queima roupa do delegado ansioso por arrancar mais coisas de Paulo.

'E os infelizes como consolo, sorriem da infelicidade dos felizes devoradores de Pratos Feitos e pizza semipronta nos fins de semana."

"Mas há amor, veja! Se o filho daquele casal desaparecesse... quanto desespero, quanta dor."

É isso a ironia e o espantalho da realidade; quando as pessoas somem ficam mais nítidas. Minha ex-esposa sempre foi um fantasma para a família. Agora eles caminham cabisbaixos e em estado de luto. Como se, ao sumir, ela tivesse se tornado de carne e osso; somente assim para ela se tornar visível a eles. Não é engraçado isso?"

"Não vejo nada de engraçado..."

"É verdade, é uma tragédia..."

Pailo surpreendeu-se por ter mostrado tão claramente o sentimento que alimentava sobre a família de sua ex-esposa, ainda mais com um estranho, que se anuncia como o seu inquisidor.

O delegado olhou o relógio (gesto estudado?), disse que ainda tinha alguns compormissos familiares chatíssimos e desapereceu em meio à cortina de fumaça.

O que tnha se passado naquele bar? Uma cena de teatro, uma sequência de filme noir latino-americano?

E por que Paulo trouxe a imagem da ex de uma forma tão clara e nítida?

Na certa Paulo caira na armadilho do delegado, que dissera que a sua ex-esposa morrera só para que a sua imagem fosse reavidada; só para que Paulo trouxesse á tona o que estava submerso em meio às águas turvas, só para que, enfim, ele confessasse o inconfessável. 

Escrito por Jiló às 11h46
[ ] [ envie esta mensagem ]

06/01/2010


pelos bares da noite

Pelos bares da noite, o que só se encontra hoje em dia é violência solidão e muita petensão. Os pregadores com a sua moral estão à solta, querem que você ouça a sua experiência de vida como exemplo. Pela abertura e fechameno de pupilas de Paulo ele vê imagens e mensagens, como se a noite tivesse seus código cifrados. Assim, lê intrigado o escrito em uma lousa, com caligrafia caprichada. "Cardápio do dia: solidão e caldo de mocotó; pretensão e ovo de codorna; pinga e amedoim torrado."

Nos bares, restaurantes não há mais fumaça do cigarro. Todos os fumantes, no entanto, soltam vigorosas baforadas pelas rua.  Há um mês, desde que sua ex-esposa desaparecera, Paulo começara a fumar. Um fumante bissexto, tardio. No começo tossia, sua garganta ardia. Escutou vozes, mensagens do além e do aquém:  "moço, pare que o cigarro está lhe matando!" Paulo assentiu ao conselho, mas calculou que o hábito o faria um fumante sem escândalos e poderia parar assim de tossir. E aí poderia fumar sem que a pele de seu rosto se avermelhasse. E então soltaria a fumaça que faria curvas lúdicas. Eles, os soltadores de fumaça, formam um quase batalhão, lado a lado, ombro a ombro os foragidos da vida saudável, o que cria uma espécie de solidariedade.

Mas Paulo não se interessava por tais tipos de vínculos. Como um fumante iniciante não se interessava em métodos e terapias para parar de fumar. Também não se interessava por questões existenciais: o sentido da vida com e sem o cigarro, a duração da vida medida em anos vividos e não na persistência em permanecer vivo a qualquer custo. Era raso o suficiente para não pensar no que ganhava ou perdia com o cigarro.

Depois de um cigarro, um gole de cerveja no balcão do pequeno bar no entorno do metrô santa cecília. Atrás de uma cortina de fumaça alguém lhe acenou. Difícil distinguir quem se encontrava atrás da cortina de fumaça, espessa e dada a provocar ilusões. Desejou que fosse Rita Hayworth como Gilda, mas era um homem meio desengoçado. Fez em gesto como que afastando a imensa fumaça soprada pelos pulmões carcomidos do exército de fumantes, e sentou ao seu lado.

"Parece que a lei aumentou mais o desejo de fumar! As calçadas das ruas viraram fumódromo. Acho isso ainda mais prejudicial, as pessoas são obrigadas a aspirar essa fumaça horrível de cigarro. Ah, o senhor também fuma? Nunca havia reparado."

A muito custo Paulo reconheceu o delegado à paisana: camiseta, jeans, tênis e um boné ridículo querendo parecer mais jovem. Mas o que ele faz por aqui? Pediu uma cerveja. Não está me reconhecendo? Ah, deve ser a minha roupa! Estamos investigando o paredeiro de sua esposa, mas vou lhe dizer uma coisa, é um caso praticamente perdido. Eu sei que é duro para você...

Silêncio que descola da parede em poucos segundos.

Não era duro para Paulo. Que sua ex-esposa estivesse morta e descansasse em paz. Mas não havia garantias, havia sempre a esperança de que ela vivesse em algum canto da terra com outro nome, outra identidade.

Sabe, na minha profissão... é interessante, mas é como se eu fosse um psicólogo. Acontecem as coisas mais disparatadas. Mas há coisas que são certas como equações matemáticas. A pessoa que some, por mais esperança que a família tenha, se ela for adulta, estará morta. Assassinatos brutais em todas as modalidades, o senhor já leu e ouviu estórias.

Paulo corrigiu: Ela era minha ex-esposa.

Ah, quer dizer que de fato se separaram... Mas constavam como casados.

Não houve tempo para a formalização do divórcio.

O senhor me surpreende. Eu me lembrei daquele dia em que o senhor entrou todo sujo da delegacia, na verdade parecia-se com um mendigo...

Paulo respirou fundo e escondeu o rosto por entre as mãos.

Eu fiquei arrependido por ter mandado o senhor de volta para a casa. O conselho não era um conselho.

Como assim, um conselho que não é conselho?

Essas coisas vem da Secretaria de Segurança Pública.

Um conselho vindo do Secretário de Segurança Pública?

Eles querem as ruas limpas. A ordem expressa é recolher mendigos agora em casas de solidariedade mantidas pelo serviço social. Especialmente em bairros de classe alta. As pessoas não querem ver entende? Mas o senhor não era mendigo, então eu o aconselhei a fazer as pazes com a sua mulher. E quem sou eu para aconselhar alguém: dois casamentos desfeitos, três filhos e um deles delinquente.

O 'filho delinquente" ficou por conta do desejo de Paulo.

Escrito por Jiló às 00h52
[ ] [ envie esta mensagem ]

30/12/2009


passeio pela livraria

Não se interessava extamente por livros. Aliás, pelo que Paulo se interessava era um mistério a ser desvendado. Paulo olhava as capas coloridas, tão diferentes do seu tempo de garoto. Livros e mais livros para todos os gostos e interesses e dvds origiansi e caros. Havia as agora tardicionais seções de gastronomia, literatura, arte. Gostava dos livros de arte e de fotografia, pesados, em capa dura com fotos de grandes monumentos, museus. Interessava-se pelos museus e o seu entorno, as ruas, espaço aberto onde se perdia em pensamentos de andarilho.

Estava particularmente excitado naquela tarde. Não escolhera a livraria ao acaso. Queria testar o seu poder de malignidade. Desde que um sinistro episódio de fúria desmedida ocorrera no interior da livraria, esta foi reforçada por seguranças. Ao entrar deparou-se com dois seguranças, olhos postos em Paulo. "Será que eles sabem do meu grau de maldade? Será que eles descofiam do risco que eu represento?" Paulo sentia-se assim, particularmente maligno naquele dia. Percorria as estantes, e sempre procurava ficar perto de algum segurança, notando a sua movimentação. "Uma hora eles vão me parar." 

Ouviu um segurança falar no walk talk para provavelmente outro segurança para ficar de olho vivo em uma mulher, magra, camiseta vermelha, calça jeans e carregando uma sacola de lona florida. Bateu os olhos na mulher. Impossível considerarem ela uma suspeita. Será que ela seria capaz de cometer um assassinato em série, será que na sacola conteria outro taco de beisebol com o qual ela atacaria alguma pessoa desavisada? E ainda havia, segundo o mesmo segurança, um casal de terceira idade em aitutde suspeita.

Mas e Paulo? Algum segurança, talvez o mesmo, que alertara sobre a mulher magra e de aparência absolutamente banal, estivesse alertando sobre o seu grau de periculosidade, sobre a movimentação suspeita de Paulo, que vestia um jeans velho e uma camiseta idem.

E então os seguranças o abordariam com discrição para saber qual era a de Paulo. Assassino em série, sequestrador, estuprador de criancinhas indefesas (porque ficara parado incontáveis 30 minutos na seção de livros infantis, onde as crianças com seus pais deselixados berravam, contemplando os horroes da infância e identificando os futuros assassinos mirins em série), lunático paranóico capaz de atacar a qualquer momento o primeiro desconhecido que lhe atravessasse a frente sem pedir licença.

E então Paulo responderia dentro de seu delírio onírico, ao cair da tarde modorrenta, que ele era todas aquelas coisas horríveis que pensavam dele, e mais algumas outras coisas terríveis que sequer a mente humana seria capaz de conceber.

E então os seguranças, de modo rápido e indolor para os frequentadores, imobilizariam os dois braços de Paulo, com força suficiente para lhe quebrar todos os ossos e Paulo faria a cara de demente para aparecer bem na foto da Folha e do Estado de São Paulo no dia seguinte, no caderno de cotidiano, na reportagem sobre violência urbana e doença mental.

Enquanto pensava e repisava sobre as possibilidades de eventos que se desencadeariam na mega livraria, Paulo acelerava a sua respiração e acelerava o passo até esbarrar e quase derrubar um homem forte o suficiente para esmagá-lo só com os olhos.    

"Cuidado, você pode se machucar."

A frase do segurança dava margem, margem a ambiguidades.  "Você é um distraído e tem de tomar cuidado; você está muito velho, com idade o suficiente para causar graves danos aos seus osso dascalcificados." 

A cidade em seu caos não tem mais inocentes, todos são culpados e são inocentes, todos os são bandidos e candidatos a serem mortos em chacinas, pelos matadores de alguel, confundidos com estrupadores de crianças.  

Escrito por Jiló às 12h11
[ ] [ envie esta mensagem ]

29/12/2009


suspeitas

Fazia uma semana que sua mulher fugira ou sumira. Paulo não alimentava qualquer esperança de que ela retornasse. Quem seu corpo jazia em decomposição descompassada, jogado em algum terreno baldio. Assassinada brutalmente, estuprada. A polícia o interrogou, procurando pistas. Todas as pistas são falsas. A  Marisa nunca deixaria rastros, mesmo que fosse assassinada, estuprada. De início eles o apertaram, tentaram saber da vizinhança sobre brigas do casal. Dos depoimentos nada concluiram, mas o delegado pareceu reconhecê-lo, lembrando-se do dia em que aparecera na delegacia encharcado de mijo. Paulo estremeceu. O delegado nada disse, mas Paulo sabia que ali estava se desenhando a suspeita do provável assassino: crime passional. Uma violência tão primária, recorrente na história da humanidade. Paulo poderia ser visto como um mal sujeito, um bandido talvez, de quinta categoria.

Mas aquilo era uma coisa que de certa forma o fascinava. A desconfiança que começava a despertar nas pessoas de que poderia ser um criminoso capaz de fazer coisas brutais. Os holofotes começando a se dirigir para ele. Do estar a margem para o protagonista em uma trama banal. O que o fascinava era a marca do mal que algumas pessoas procuravam cravar em sua pele. Nunca alguém o acusara de ser mau.

Escrito por Jiló às 15h34
[ ] [ envie esta mensagem ]

26/12/2009


noite de natal em santa cecília

Era noite de natal ou algo parecido com isso. Paulo caminhava pelas ruas de santa cecília, aproximava-se da Igreja na praça perto do metrô. Acompanhara algumas vezes a sua ex-mulher à Igreja. Apesar de ateu sentia uma ponta de inveja pelo fervor com que sua ex-mulher se entregava ao culto: padre, sacristão. Aquilo lhe dava algum sentido à vida seca e carcomida, feita de poeira e pó. Sim, mencionavam muito o pó, a areia do deserto. A secura e aridez do deserto dava sentido a secura de aridez das vidas tão banais. Paulo e Marisa entravam nas missas, principalmente nas datas principais do cristianismo.

Depois ele deixou de acompanhá-la, aborrecido, enfastiado pela fala do missionário. Marisa não o recriminou, ou pelo menos, não reclamou. Mas aquela noite era dia de Natal e alguma coisa o aproximava da Igreja. Quase em frente à Igreja três adolescentes ouvindo música funk, rindo e bebendo no gargalo alguma vodca falsificada. Desviou o seu rosto, mas não pode evitar o barulho adolescente. Quase em frente à entrada da Igreja havia um mendigo com um pano sujo que cobria o parte de seu corpo, de dentro da Igreja música sacra. Mas não era uma cena bíblica. Nem o mendigo era Jesus Cristo, nem a rua era algo parecido com um presépio. As pessoas apodreciam lá fora e a música de boas novas procurava se conectar aos céus. Desviou-se da entrada a tempo e sentiu um alívio por não ter entrado. Atravessou a calçada e deu com um posto de polícia improvisado, onde um policial cutucuva descuidadamante o nariz e dele saíam nacos de sujeira. Pegou uma rua transversal, qualquer rua era uma posssibilidade de fuga da sujeira, da imundice, de algo repelente que sentiu por todos eles, mendigo, padre, adolescentes, policial, enfim a humanidade em sua não santidade.

Procurou por um resto de fôlego, tentou pensar em algo transcendente porque afinal de contas era natal e, pelo menos um dia do ano, julgou que devia ter pensamentos bons e de solidariedade para com a humanidade. Mas era Natal e nada de transcendente lhe vinha à mente. Aspirava o cheiro fétido vindo do lixo aculumado nas ruas, escoado pelos esgotos a céu aberto. Não há como competir com cheiros abjetos. Os sentidos lhes cerram as portas dos céus. Pensou: "Mas como gostam de acumular lixo, as pessoas em seus apartementos-caixas-depósitos-de-lixo." Mais alguns passos e estava em frente à Igreja Universal ou algo parecido, onde ouvia-se perfeitamente o concerto desafinado de um pastor alemão berrando para os hereges, novos convertidos, prometendo o reino dos céus na terra. Caminhou mais dois quarteirões até alcançar a rua onde alugara o quarto. Duas crianças armavam uma bombinha improvisada que iria explodir dentro de uma latinha de cerveja vazia. Ele atravessa a calçada e dedivido a não entrar no cubíbulo onde mora. A bombinha explode e risadas pipocam pelo ar. Alguém está feliz, alguém vai armar uma explosão daquelas, porque afinal de contas era noite de natal em Santa Cecília.    

Escrito por Jiló às 12h36
[ ] [ envie esta mensagem ]

22/12/2009


depoimentos

Gerente de banco, Márcia deu o seguinte depoimento: "Ele sempre demonstrou um desprezo pelos colegas de trabalho, com aquele ar arrogante. Eu, na verdade, nuca gostei dele e sabia que faria alguma barbaridade nessa vida. Imagine que a única família dele era a sua mulher.  Dois sobrevivente de uma hecatombe nuclear sem noção de nada."

Nani Vespúcio, caixa bissexta do banco em que Paulo trabalhava: "Ainda me lembro como se fosse hoje, quando ele comentou de forma displicente a morte de seu cachorro. Ali já dava para saber o grau de monstruosidade que nele havia se instalado."

Éverton Moreira, irmão da ex-esposa de Paulo: "Ele sempre tratou com desdém a minha irmã. Desconheço a malígna influência que ele exercia sobre ela a ponto de minha irmã nunca reclamar. acho que ela deveria vir para a delegacia da mulher dar parte nele.

As discussões eram horríveis, ele gritava com ela. Só nós da vizinhança sabíamos da gravidade da situação!!!" 

Escrito por Jiló às 20h44
[ ] [ envie esta mensagem ]

vagas sombras ao cair da noite

A casa alugada em que Paulo vivia com a esposa virara motivo de contorvérsias na imobiliária. Paulo rompera o contrato e saira da casa sem destino. Então passou a procurar abrigo na imnesidão de muros intransponíveis que ele ajudara a criar. Com a família estava rompido: seu pai morrera, mas os sobreviventes eram mais fantasmagóricos que a figura paterna. E há muitas camadas de orgulho que os separam. Como maquiagens exageradas, as camadas de orgulho impedem que se possa chegar ao verdadeiro rosto familiar. Tem as camadas acrescidas da não vontade do encontro. e com ela vem o sentimento de não pertencer a lugar algum: pó sobre pó, rímel, versão deturpada da máscara do teatro kabuk. O orgulho de Paulo versus o corgulho da mãe octogenária que lhe mostrará o habitual ar de superioridade, reforçado pela previsão certeira de última hora: "Eu sabia que o seu casamento iria dar nisso. A sua esposa nunca me enganou, com aquele ar angelical."

Para que voltar à casa da mãe, às voltas com uma doença terminal, cuidada por uma enfermeira, paga pelo irmão, próspero comerciante de calcinhas semi usadas e varas de pesca made in china? No mínimo diram que estaria se aproveitando da fragilidade da mãe para ficar no bem bom bolado.

Da irmã mais nova e casada só podia destacar a mais forte impressão de infelicidade. Dois filhos e nenhum futuro afetivo pela frente. Dois filhos e um marido flácido viciado em trabalho e por isso mesmo elogiado pela sogra. Na infância ela era a mais próxima de Paulo,  depois os caminhos foram se afastando, gostos musicais, picuinhas, sintonias opostas. 

Hoje são como seres inivisíveis na geografia falmiliar. O único afeto restante vem como uma onda de nostalgia ao cair de alguma tarde quente de verão, onde sopra uma brisa que inspira a sensação de trégua. Paulo se esforça em pensar na mãe e nos irmãos como se fossem exatamente a mesma brisa que traz algum tipo de trégua. Procura fixar-se nas imagens deles, mas elas, permanecem no máximo, como vagas sombras ao cair da tarde. 

Depois de perambular pelas ruas a procura de algum porto, portando uma mala, a única que restou, conseguiu alugar pequeno em santa cecília, bairro eternamente decadente de city sampa city: o pior dos melhores dos piores. 

Em noites insones, sempre noites insones, Paulo passou a percorrer o circuito boteco-boteco-boteco em monotonia absoluta. Começou a ver sombras e as projetou todas nas paredes. Sombras confundidas com a sua própria. Sombras enumeradas em ordem alfabética: cida puta infeliz, noeli tia infeliz e invejosa (de que ela tinha mesmo inveja?), Antônio antônimo escrorto da agência da amaral gurgel. Todas elas traziam um sentimento difuso, mistura de ódio e rancor, mas sem muita precisão. Como se os alvos de sua ira nunca fossem acertados.

Até o dia em que uma das sombra cresceu, cresceu, ganhou contornos mais nítidos e começou a fungar em suas orelhas.

Paulo, tomado em pânico e sempre que em pânico paralisado e sempre que paralisado presa fácil, essa é a lei das selvas que cai sobre a cabeça de Paulo.

A mão de alguém segura firme e decidida os ombros de Paulo. Nessa região as ruas semi escuras dificultam a visão, a sombra difusa em neom grita; pareee seu assassino!!!

Assassino! Se não parar, eu atiro agora mesmo.

John Wayne falaria: pare ou eu atiro agora mesmo ou atiraria sem piedade? John Wayne não atiraria pelas costas. Seria um justiceiro moderno, um bandido procurando algum motivo para assaltá-lo, ou uma mulher estérica a ponto de cometer uma insanidade?

A voz soou mais forte: "assassino!"

Paulo virou-se e gritou um pedido de socorro: "Não Sandra, pare, pare!!!"     

Escrito por Jiló às 20h37
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico