Cochichos e Relaxos


13/06/2009


um poema de concreto

eles correm semi nus: um homem e uma mulher

ao encontro de

balançam a cabeça, berram em frenética alegria

rolam pela areia, dois corpos

a terra gira e vista de fora brilha

na ladeira porto geral

eles correm descalços e semi nus

os pés esmagando o concreto

olhos arregalados em frente à banca de jornal

duas crianças, em frenética alegria, rumo à morte

Escrito por Jiló às 06h14
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24/05/2009


As casas tristes

Era uma casa inutilmente triste.

 

Como se a tristeza fosse uma espécie de desperdício.

 

Uma casa onde impera o silêncio, obsequioso ao extremo.

 

Uma casa onde a alegria é contida. E solta como conta gotas.

 

Quando o sol penetra nesta casa, é como se fosse uma luz fria,

 

Imperceptível. Não aquece, não ilumina.

 

As plantas dessa casa são inflexíveis como as plantas de plástico.

 

A menina que habita a casa olha pela janela.

 

Atravessa, com a imaginação, fronteiras, mundos e enfrenta furacões.

 

Entra com receio em outra casa, onde impera a alegria.

 

Alegria que ela vê com olhos tristes.

 

Não há alegria na casa de sua amiga.

 

Há apenas murmúrios, sorrisos. Sorrisos que começam tímidos e terminam

 

em gargalhadas.

 

As gargalhadas que ela nunca pode dar em sua casa.

 

A inútil tristeza na casa onde impera a alegria.

Escrito por Jiló às 11h46
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09/05/2009


bicicleta

A bicleta cai do céu, rasgando-o,

como finas gotas de chuva,

A bicleta liquefeita traça sinuoso percurso.

a arte rupestre registra na parede da caverna a bicicleta que cai do céu, cruzando o atlântico,

o pacífico e o índico.

O livro imprime a reprodução da foto da arte rupestre da bicicleta que cai do céu e pousa na livraria,

Meu pai compra o livro e depois atravessa os faróis da avenida paulista, pega a consolação até a sua casa.

 Ele abre o livro com a bicleta que cai do céu. Olha a foto: tenso, rígido e maravilhado. 

A biclicleta que cai do céu impressa na pintura da caverna, projeta-se nos olhos do meu pai.

Ele tem a face imóvel e sinuosamente pensa no percurso feito pela bicicleta: Vinte e oito séculos atrás houve

algo parecido com uma bicicleta caindo do céu no arquipélago perdido do mar Egeu, resgistrada na parede da caverna,

num momento de tensão e deslumbramento, fotografada ano passado pela Taschen, impressa em livro na Alemanha,

distribuído agora no Brasil.

A bicicleta continua a cair aos olhos do meu pai. 

Escrito por Jiló às 17h00
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28/04/2009


cenas de um teatro

Cena 1: uma mesa ao centro. Um velho homem manuseia penduricalhos. Ao fundo uma menina brinca.
Uma senhora anuncia o jantar. Eles comem em silêncio. Percebe-se que há uma cumplicidade entre o homem velho e a menina.

A senhora permanece em sua imobilidade facial: a severidade estampada no rosto, mas também conserva o ar de uma certa resignação.

Cena 2: a menina transformada em mulher ensaia um discurso para uma única pessoa: o homem velho que revela ser seu pai. (a revelação, claro, vai sendo feita ao longo do diálogo). é  discurso de despedida.

Cena 3. A mulher fala sobre o pai com um amigo: retorno em suas memórias à infância. Ela revela imagens poéticas nua manhã silenciosa com o pai silencioso. O amigo pergunta por que ela não procura o pai. Silêncio.

Cena 4. A filha reencontra o pai. A mãe está ausente. De alguma forma a mãe sempre esteve ausente. Mas agora é uma ausência física, definitiva.
Há feridas abertas, a imagem do pai vai diminuindo, enquanto a imagem da mãe vai saindo das sombras e ganhando uma dimensão supranatural.

 

Escrito por Jiló às 19h17
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04/04/2009


Uma fuga melodiosa

Houve um ruído opaco, um choque térmico, elétrico ou algo parecido. Não, houve sim um choque de impacto enorme, duro, seco. Seu corpo fora lançado por alguns metros de distância. Uma distância que não se mede em números. Ela que nunca havia sido empurrada, recebera o impacto de um objeto sólido em alta velocidade.

Mas antes disso houve uma fuga, a fuga de uma rua semi-deserta. Ela fugia de sombras antes que de um homem concreto, ela fugia de olhares vazios, olhares que a acusavam de algo que ela não sabia ao certo. A fuga que ao fim das contas resultava de uma sensação de impermanência no mundo. De quem fugia? De quem se escondia? As sombras: ela pensou apenas nas sombras depois da fuga.

Um homem a perseguia e durante a fuga houve o choque.

Seu corpo estava inerte no hospital, ela mal podia virar a cabeça. Seus olhos se abriram dias depois do choque. Alguém a chama, mas e alguém distante, alguém que fala gentilmente, que pontua os silêncios. É uma voz melodiosa que lhe diz coisas que ela não entende, uma voz que se torna só uma voz porque ela fecha deliberadamente os olhos, e então a voz invade seu corpo como uma melodia ao cair da tarde, uma melodia que a acalma. Seria o céu e seu misterioso tédio?

Mas antes disso e antes do choque com um caminhão em alta velocidade, houve uma fuga de um homem que ela desconhecia. Primeiro fora uma sombra que lhe deu calafrios: maus presságios. Mas ela que nunca acreditara em absolutamente nada, em outras ocasiões riria dos tais maus presságios. Agora os maus presságios em relação à sombra eram reais, tão reais como objetos concretos; maus presságios pontiaguados como pontas de faca prestes a rasgar a sua pele. Mesmo assim ela desviou os olhos da sombra e o encarou. Mas como se fosse um dia de sol escaldante de um verão tardio qualquer, uma espécie de luminosidade intensa a impedia de ver o rosto do homem. A verdade é que chovia ou acabara de chover, fato óbvio porque ela, sem guarda-chuva, estava com a roupa colada ao corpo, e as sombras das poucas pessoas que passavam pelas ruas semi-desertas projetavam-se mais alongadamente indicando o pôr-do-sol.

Desistindo de encarar o rosto do homem, ela começa a caminha. A princípio passos lentos, depois mais rápidos, mas não tão mais rápidos a ponto de caracterizar uma fuga. Ela decidira tomar o caminho oposto da sombra que lhe trouxera maus presságios, mas sabia que a sombra tomara a mesma direção e que a perseguia. Quando ela tomou a consciência da perseguição seus pés começaram a voar. Ouvia vozes, ouviu gritos e palavras que a angustiaram. Mas por que tanta angústia?

Voltou a ouvir vozes de sonoridade cada vez mais forte, mas não causavam mais angústia, era a voz melodiosa que se fundia a imagem de um fim de tarde morno. Conseguiu, dessa vez, distinguir algumas palavras, algo como “acorde minha querida, você precisa tomar o remédio”.       

Escrito por Jiló às 16h30
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22/02/2009


velhice e voracidade

Teve algo a ver com "contruir a minha visão de mundo", teve a ver com "achar o meu caminho", como se para isso eu devesse demarcar as minhas posições. Mas não havia a impressão de obrigação de marcar meus ideais. Antes havia a voracidade. misteriosa e voraz que, subterrrânea, alimentava a obsessão por ter "a minha visão de mundo". Até que ela se sedimentou como grandes edifícios contruídos sobre um pântano, que, no entanto, nunca se desloca.
eu escrevi teorias para dar conta das coisas, desde temas como deus
até o mais banal programa infantil, que tem a mesma importância que
os grandes temas.
muitas pessoas comprtilham das mesmas teorias, dos mesmos esquemas
explicativos.
depois, receosa e vigilante, debrucei sobre mim mesma e contrui teorias sobre a minha família, amigos. Teorias e fantasias associadas em nexo causal e casual. Algumas pessoas, como eu, partilham das mesmas convicções: fervorosos fieis. Temos orgulho de participar da mesma comunidade, da nossa carcomida comunidade onde todos compartilham, como se fosse um pão sagrado, dos mesmos valores.
As explicações, creiam, não envelheceram como móveis e utensílios que resistem ao tempo. Mas hoje eu me descobri velha e muito cansada.
Para mim as explicações envelheceram e com elas o mundo. (As rugas não denunciaram a minha velhice. Misteriosamente, nunca tive as vaidades femininas. E permanecia assim com uma idade idenfinida, quase suspensa no tempo.)
Mas hoje eu me descobri muita cansada, porque as explicações continuam
certas. Mas eu me cansei delas. E não tenho o frescor da juventude
para buscar outras explicações.
Hoje eu me descobri pálida e com poucos dentes. Sinal de que a voracidade,
mesmo aquela voracidade latente e sempre oculta em camadas de gestos polidos,
a voracidade e não um simples impulso de agredir o outro, a voracidade perdeu-se.
e só hoje me dei conta da minha velhice.
quando comecei a notar que as coisas se esvaziam dentro de mim. quando as velhas
convicções, apesar de corretas, para mim, não passam de lixo, pó e poeira.
estou muito cansado para sustentá-las, estou muito cansado para arranjar novas.
tudo isso corresponde à perda da voracidade.

Escrito por Jiló às 12h51
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07/02/2009


Livros e poentes

Meu pai lia, mas o que lia? Eu não fazia a minima idéia, ou melhor, pensava que era algo solene, misterioso. Livros, nunca jornais. Os jornais minha mãe lia-os com parcimônia: uma vez por semana, inevitavemente aos domingos. Ela lia e procurava na seção de empregos. Ela que jamais trabalhou, mas procurava ávida por notícias dos empergos, como que querendo dizer a meu pai que era a seção de empregos que ele deveria ler. A mim só eram dados livros infantis, naquela época quase cartilhas de bom comportamento, como que querendo dizer "você tem de se comportar melhor, deixar de levantar a saia que soa ... soa indecente!!! E quando mamãe disser indecente, você tem de ruborizar a sua face. Eu não ruborizava, ficava pálida e não desmontrava nada. minha cara lavada, mas eu não estava feliz, eu engolia os desenhos, as figuras com tristeza. Hoje ainda restam as cartilhas, hoje mais que no passado.

O que papai lia, com certeza, não eram cartilhas. Livros, apenas livros. Com certeza descreviam paisagens de fuga. Quando fechava o livro papai estava com uma expressão de alívio. Os livros e os silêncios trazidos por eles. às vezes eu fantasiava que os livros estavam em branco. Nenhuma letra, Assim, livros eram apenas uma forma de escapar da aporrinhação, era apenas um jeito estranho de dizer paa mim: "não me aborreça com as suas perguntas sem pé nem cabeça."
OUtras vezes, pensava que papai estivessem fuga, imaginava poentes projetando-se nos livros. Uma página, um poente, página virada, outro poente. Poentes desiguais e irregulares para o livro fazer sentido.

mas se papai quisesse escapar da rotina de casa, dos seus aborrecimentos, a forma que ele escolheu era bem estranha. O livro, ele quase que o escondia completamente sob os braços fortes, alongados. Jamais me lembraria das capas dos livros, somente a imagem de meu pai lendo o seu universo, fixando a sua figura quase petrificada, em seu rosto de mármore, nariz arredondado e expressão de idiotice. Eu disse idiotice? Eu nunca disse idiotice, mas agora digo e redigo, idiotice e cheiro de mofo e água parada: combinação perfeita.    

Escrito por Jiló às 16h47
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27/12/2008


barbantes cioloridos: projeção

Depois que saiu de casa, de uns meses para cá, tempo elástico que ela não pode divisar, vê o seu pai em vários lugares. Vê o pai real, mais real do que o pai que estava na casa onde morava. Certa vez, quando estava com um amigo em alguma boate barata, o ambiente na semipenumbra, divisa num canto semi iluminado, onde não se pode ver inteiramente os detalhes de um homem velho e fatigado, ela o viu: velho, bêbado, silencioso. Ela tem certeza de que é seu pai. O amigo, que já vira a foto do pai, uma foto meio amarelecida, carcomida pelo tempo, mostrada pela amiga quando teve uma crise de insônia e choro compulsivo; o amigo, enfim mostrou-se cético. O que aquele homem, na descrição da amiga, calado e absorto em suas profundezas e esquisitices estaria fazendo num bar, solitário, fumando um cigarro. O cigarro, aliás, era o único ponto de convergência que unia as duas figuras: o velho pai da amiga e o velho solitário, sentado à procura de algo que ninguém sabia ao certo o que era, o que viria a ser. A dúvida foi dissipada através do riso dela, um riso de deboche, irônico. É claro que não é o meu pai, ela diz, depois de abrir um amplo sorriso de vitória. Sorriso que indicava que ela tinha ganhado, que ela tinha mostrado o quanto ele era ingênuo a ponto de acreditar que o pai dela, uma pessoa circunspeta, avesso a qualquer badalação,pudesse encontrar-se ali. Foi uma brincadeira, é claro que não é o meu pai.

Volta a olhar para o canto semi iluminado, mas dessa vez tem um arrepio. Ele é o seu pai. Não é possível desviar-se do olhar severo, do silêncio de chumbo que emerge daquele canto semi iluminado. E, no entanto, ela sabe - de um modo intuitivo, como um mecanismo contra a loucura - desde o início também que não é o seu pai, que é só uma crença ou um tipo de projeção. E sabe também que essa projeção não corresponde exatamente ao seu pai.   

Tudo se tornou mais claro quando o velho, sem que se desse conta, não mais se encontrava no ponto semi iluminado; somente depois que o ponto semi iluminado não existe mais  e a luz intensa do sol o ilumina impiedosamente foi que a fugura do pái se dissolveu. A luz do sol torna tudo uniforme e monótono como se alguma luz sobrenatural projetasse a sua monotonia a todos os seres e os nivelassem por igual. Então, mais claramente, ela percebe que a projeção é apenas uma luz cansada, que ela faz de um pai cansado e atormentado, que só existiu em sua mente e sensibilidade cansada e atormentada.  

Escrito por Jiló às 16h40
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20/12/2008


barbantes coloridos: infância

A menina brinca. O pai chega e a afaga. A menina pára, subitamente, de
brincar. Encara o pai com respeito e uma ponta de desconfiança: o medo vence
a desconfiança. A desconfiança, por sua vez, encobre o medo. é como um ar
que cumpre movimento circular. O seu pai ainda fuma, traga e solta a fumaça
pela janela. Sempre que fuma as janelas são amplamente abertas para que
a filha não sinta os efeitos da nicotina. Fuma e seu vício é ...
A mãe não fuma e não tem paciência com a filha e com o marido. Ela chama
a sua falta de paciência de amor. Precoupa-se com os dois. O amor dela vale
por dois. Por isso implica com a filha quando ela faz malcriações, implica
com o pai quando este permanece obstinadamente em silêncio. Considera desfeita
quando discute com o marido e este, ao final, sem nenhuma palavra, acende um
king size sem filtro e observa as curvas sinuosa da sinistra fumaça. Ele considere
uma obra de arte fugas, as curvas da fumaça expelidas pelo pulmão
carcomido. Ele considera a fumaça destruidora de corpos, ele acha o fogo em brasa
obras artísticas, belas em sua aterradora beleza.

O pai leva a filha ao colo, mas raramente participa das suas brincadeiras. mesmo
em tenra idade a filha percebe que o pai torna-se cada dia mais silencioso, a ponto
de sua voz sumir para sempre, num dia de domingo.
Por que domingo? Por que a voz dele sumiu no domingo. Foi dar um passeio e sumiu
no domingo. A voz dele como que fugiu de seu corpo que se tornava mais e mais
magro. Um rapaz magro visto de perfil, envolto em meio a fumaça do cigarro, pensativo
e pensativo e pensativo.

quase não há sons na casa. Ela habita o silêncio que não vem só do mutismo do pai.
A mãe é econômica em palavras. As palavras servem apenas para intervenções precisas:
um cumprimento matutino, as broncas necessárias, ordens para que a filha conserve
a boa higiene, um telefonema precisa e correto para as tarefas burocráticas.

Não há música. Havia música, mas ela foi sumindo vagarosamente como água que escorre
pelo ralo e depois não se sente mais falta dela. A água-música escoou totalmente
pelo ralo e nunca mais entrou na casa.

Ainda assim ela sente afeto pelo pai. Ele lhe passa a mão carinhosamente pela
sua testa, dá um boa noite, a frase que lhe restou a ser dita, e mergulha na leitura
de livros, jornais e revistas. Ela nunca reclama do mutismo do pai.
Um pai sábio ela tem, pois os pais burros e ignorantes de suas colegas jamais
lêem. Todos eles obstinadamente lavam os carros nos fins de semana, todos eles tagarelam
sem parar e com que finalidade? Falam, falam e falam. É o que dizem as suas colegas:
"Papai e brincalhão e fala até pelos cotovelos. Mamãe ralha com o papai, mas
também é brincalhona, a casa vive cheia de gente. Seu pai lê? Não, ele assiste
o Fantástico, ele sonha com um carro novo; eu também sonho com um carro novo para
o papai, assim ele pode nos levar para a praia no ano novo. Mas o seu pai não lÊ
nada? Ler para que? Ele não é professor; ele diz que já lê demais no escritório
onde trabalha. Quando chega em casa diz que simplesmente quer esquecer do trabalho.
O meu pai lê! E lê muito. Mas ele não te levar para os passeios?
Aí a voz da menina some. Ela sai pela tangente, pelos corredores da escola. Escapa
para o quintal na hora do recreio e pensa sozinha: felicidade, alegria. A felicidade
e a alegria de papai pode ser a leitura de um jornal. O livro que papai lê e relê
é o seu passeio; quando ele passa a mão sobre a minha testa e deixa que eu fique
ao seu lado observsando atenta a sua leitura atenta é o nosso passeio dominical.

Escrito por Jiló às 11h49
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18/09/2008


um amor asssim (parte 4)

Mulher: cadê a enfermeira, aquela maldita, maldita.

Homem: a porta está aberta, será que não deu para perceber? Pode sair, não tem nada

que te prenda.

Mulher: mas a enfermeira? Onde ela está?

Homem: não tem enfermeira. é tudo ilusão da sua cabeça.

A mulher resmunga, sussura: a enfermeira,  a enfermeira...

O homem se aproxima da mulher. Ela mal tem tempo de se desviar dele, que a agarra
em fúria. Depos consegue desvencilhar-se, mais por concessão dele do que por força dela. Os olhos selvagens do homem brilham ao mostrar a porta: o portal do paraíso, a rota de fuga, a saída para lugar nenhum.

Homem: eu já disse que a porta tá aberta.

Ela avança em direção à porta, abre-a, depois recua com uma expressão de pavor.

o homem diz em tom ameaçador:

Nós estamos no mesmo barco. estamos foragidos! foragidos. é essa a real mocinha!
eu sei que você tá fugindo também!
Mulher: Eu? fugindo de que?

Homem: É fugindo. Eu só queria te ver, eu só queria entender como você fez aquilo...

Mulher: Você me conhece? Do que está falando?

Homem: Como você teve a manha hein? toda delicadinha, mas capaz de fazer coisas brutais com o tal do Paulo.
Agora ele solta um riso frouxo, depois ri pra valer.

Mulher: pára...Paulo, meu único amigo.

Homem: Todo mundo pensou que foram uns matadores, mas foi você não? O corpo dele tava lá,

estendido ao lado de um figueira, naquele mato sem fim, cheio de formiga.

O home  ri sem dó nem piedade; toda a sua constelação de risos sem dó nem piedade. E aponta pra mulher.

Ri tanto que soluça.

A mulher berra: Seu louco, demente!!!

Homem: você fez um trabalho melhor do que eu faria. Atirou nele sem direio a nenhuma defesa. O rosto dele apavorado, surpreso... O sangue escorrendo através da camisa...

Mulher: sai fora daqui.

Homem: o corpo dele cheio de bala, caído no chão, agonizante.

Mulher: não, não. começa a chorar.

Homem: Dizem que ele te chifrava direto.

A mulher está com olhos sem vida, o choro cessa: Ele me traiu, traiu a nossa causa. Disse que siderúgica não trazia impacto amibiental. Mas era tudo mentira, um traidor...

Homem: mas confessa, confessa. Que causa, que nada. Ele te chifrava com outra!!! E começa rir de novo.

Homem num acesso de lirismo descabido, dança mansa e mornamente começa a inventar uma música
e a cantarolar:
O teu amor se foi, perdido. O teu amor se foi e chegou ao fim, assim no pé de jasmim...

a mulher completa a canção: o meu amor se foi assim e nem disse adeus...

A mulher abre a gaveta do criado mudo, tira de dentro dela um revólver, aponta a arma para o matador:

Assim como o Paulo não disse sequer adeus, você também não terá tempo de se despedir.

Escrito por Jiló às 11h34
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um amor assim (parte 3)

A mulher começa a anotar num pedaço de papel, um pedido de socorro para o seu colega de trabalho e amantee grande ausente. O paulo, anjo salvador da vida agora em chamas.

Tempos, segundos depois um homem, meio maltrapilho, um pouco aturdido, entra na casa.

A mulher se assusta, tenta chamar a enfermeira, mas não obtém nenhuma resposta.

O homem, com ar agressivo, inicia uma fala mais agressiva.

A mulher se encolhe num canto. o homem com olhos saltados. Pouco a pouco
recobra uma certa calma: insitindo de sobrevivência. Procura dizer para si mesma que está tudo bem.

A mulher ainda tenta pedir socorro, mas ainda está horrorizada com o homem. A voz da
mulher não sai. por fim ela dá um grito quase mudo.


Homem: é, fui jogado como se aitram pedras.

Débora: eu não tenho a mínima idéia de como vim parar aqui.

Homem: não tem?

Débora: quer dizer, não me recordo de nada. MInha mãe me trouxe aqui, mas eu não me lembro

de nada.

Homem: eu fui jogado e também eu me atirei aqui.

Débora: então quer dizer que se atirou sozinho? Um suicídio.

Homem: não costumo me atirar de janelas.

Débora: então alguém deve ter te mandado pra cá. Ninguém vem a um lugar desses

por livre e espontânea vontade.

HOmem: mas isto não é uma prisão. É só um lugar pra descansar.

Débora: descanso?

Homem: não se sente relaxada?

Débora: Aflita. E ando meio nervosa e ando meio sei lá. e você?

Homem: Eu? Eu tô me recuperando da queda.

Débora: e pra recuperar-se da queda você atirou-se pra cá.

Homem: dessa vez foi nocaute sem direito a revanche. por isso vim dar um tempo aqui.

Débora: eu não entendo direito essas imagens: nocaute...

Homem: deveria entender! a vida é assim. deveria entender, porque você luta, luta e as lutas

não acabam, elas se sucedem sempre. tem de atacar... é ataque mesmo. atque físico verbal, sempre

sempre.

Débora: eu nunca ataquei nem senti necessidade de ser agressiva.

Homem: olha a agressividade é necessária. é ataque pra não ser pego no contra ataque.

tem certeza de que nunca atacou ninguém?

Débora: sim, mas eu fugi de vários ataques. 

Homem: não pode fugir, tem de atacar entendeu? atacar, atacar, mesmo que a lona esteja

próxima. se tiver caindo ainda assim atire, desfira o último golpe sem dó.

Débora: acho que é por isso que te internaram aqui. Você tem uma agressividade extrema você tem.

você aprece doido.

Homem: e por que acha que me jogaram pra cá? não, não é isso. eu só quero justiça, só quero

que no fundo as pessoas não sejam magoadas.

Débora: e por isso você vai atacando sem mais nem menos.

Homem: não pode deixar por menos.

Débora: Há meios legais para se fazer justiça.

Homem: (repete em tom jocoso) Meios legais para se fazer justiça. Não, não: ataque sempre.

a jusitiça está nas armas, no braço.

Débora: Você tá armado?! (grita) enfermeira! enfermeira! Onde ela se meteu. agora que eu preciso dela.

Homem: calma, eu não tô armado! eu não sou tão agressivo assim, só estou tentando dizer que é preciso

atacar. tem pessoas que esperam o momento certo de ser no momento certo senão o golpe perde o efeito.

Atacar é responder a altura, entende?

Débora: pra mim você não bate bem. e me dá medo. medo como aquele cidade

Homem: Você não pode demostrar medo... Mesmo que estiver morrendo de medo... ainda mais medo

da cidade.

Débora: de quase uma cidade inteira...

Homem: o que você fez pra cidade, pras pessoas ficarem com tanto ódio?

Débora: não te interessa

Homem: hum, mas então você é poderosa.

Débora: eles achavam que a usina siderúrgica era importante, que ia trazer progresso pra cidade...

HOmem: e você bancou a desmancha prazeres.

Débora: eu simplesmente fui a favor da vida, do meio ambiente.

Homem: que comovente.

débora: mas essas coisas não te interessam...

HOmem: e você não respondeu a altura?

débora: responder? eu, eu simplesmente fugi antes que uma bala perdida, bem por acaso, me

atingisse.

Homem: pra te acalmar vou dizer: eu até gosto de flores! é, se eu pudesse me enfiava no mato

e vivia lá pro resto da vida. vou pegar uma flor pra você no jardim.

Débora (irritada): não precisa, não precisa detesto jardins, plantas.

por fim, exausta e acuada, a mulher dorme.

o homem, curioso, avança sobre a mesa, pega o papel e lê em voz alta. Nele está

escrito o nome Paulo, tão comum o nome Paulo. Deduz que seja o marido ou o namorado.

cena 3
o homem olha a mulher, estendida, à sua mercê. Grande parte da agressividade

parece dissipada, mas uma parte ainda permanece, como um estranho enigma.

aparentemente não sabe o que fazer. uma mulher estendida, ainda com certo vigor da juventude,

atraente em seu medo... por que será que a maioria das mulheres parece atraente

quando estão acuadas?

ele tira um objeto do casaco: uma pequena garrafa.

é uma pequena garrafa de uísque talvez, destapa-a. toma um longo gole.

talvez permaneça assustado, agora ele, porque simplesmente não esperava que ela dormisse.

toma todo o conteúdo da garrafa num único gole.

Propositalmente ele bate com a garrafa na mesa. A mulher continua a dormir, aparentemente

desacordada.

Ele bate mais forte com a garrafa na mesa, desta vez a garrafa espatifa-se.

A mulher acorda assustada. Começa a gritar, a berrar com ele. Acuada e irada.

nervos à flor da pele (não do desejo, quem sabe onde os desejos habitam,

quem sabe onde mora a estranha flor da atração).

estranhamente, os papéis parecem se invertem. Ela avança sobre ele, como

um instinto de sobrevivência. ele recua sem se dar conta de que recua.

Quase torpeça em seus medos, seus vazios (quem sabe onde habitam os vazios e as linhas

desoladas do deserto?)

Mulher: o que você quer de mim?

HOmem: eu?

Mulher: você, eles.

Ela pede que ele vá embora. ele se recusa a ir.

Ela arrisca: Foragido da justiça?

ele balança a cabeça, negando. tem medo, um medo sem sentido, um bicho acuado e selvagem.

Ela tenta empurrá-lo, ele a segura com força, depois a solta.

Escrito por Jiló às 11h33
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Um amor assi (parte 2)

-muito bem continue. Débora é só Débora, há tantas déboras...

-Uma débora cansada e fatigada.

-e que mais?

-abra a boca. só esse comprimido senhora.

à contragosto ela abre a boca, deixa-se levar...

(silêncio, a mulher mergulhada em si mesma.)

-Ele prometeu vir se encontrar comigo...

-Minha senhora, pare de dramas.

- Não é verdade, Paulo?

- Não tem nenhum Paulo aqui.

- Paulo, meu único amigo...

- A senhora está rodeada de amigos

- Parem com isso! eu não aguento mais! se querem me matar que me matem.

E eu não sou senhora. não sou mulher, não sou bicho, eu fui uma cientista...

uma cientista ingênua, ou apenas fui... cientista e não mulher.

- a senhora é um anjo.. um anjo que precisa ser amparada.

sabe que hoje é dia de visita? sua mãe... virá

-não quero saber dela!

-Não fale assim de sua mãe. Ela quem a trouxe aqui... para que a senhora pudesse descansar.
a enfermeira vai embora do aposento.

Escrito por Jiló às 11h30
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Um amor assim (parte 1)

Uma mulher aparentando cerca de 40 anos de idade, de feições delicadas e fugidias, está em um quarto de uma casa aparentemente abandonada.
Nele há uma pequena mesa, uma cama e um grande mala ainda por se desfazer.
Assustada, ela repete, em tempos regulares, duas frases: Em algum outono, em algum inverno que nem sei mais...
Perdida naquela época, perdida eu.
Era uma chuva de gente, um zumbido de berros e caras medonhas...

uma enfermeira,que se comporta como uma mãe,
que acolhe uma filha desamparada, que não se sabe se é realidade ou delírio
tenta fazer com que ela tome um remédio, um calmante fortíssimo.


enfermeira: senhora, o seu remédio.

-remédio é veneno, não vou tomar. VocÊs querem me dopar.

-acalme-se senhora. Enfermeira dirige-se para algum ponto de fuga, desviando-se com certo nojo da paciente: mas o que deu nela? de novo? tá fazendo manha.

-laboratório. qual laboratório fabricou esses remédios? vocÊs não percebem
que eles não tem escrúpulos, que eles só estão preocupados em vender, vender
e ter cada vez mais lucro?

-vamos é pro seu bem.

-eles sempre me diziam: é o pro seu bem. bico calado. comporte-se direito.

-senhora, se a senhora não se comportar vou ter de chamar o doutor...

-ameaças, eles vêm sempre com ameaças, se eu não me comportar.
se eu não entregasse o laudo de acordo com os interesses da sociedade.

-respire fundo senhora. olhe através da janela. veja o quintal, veja como cresce o salgueiro.

- os moradores da vila vieram me visitar, estavam atordoados porque iriam pagar um preço ridículo pelas suas casas. foram expulsos como se fossem bandidos.

-senhora, a senhora não está prestando atenção. olhe que lindo salgueiro. A senhora tem de prestar atenção, tem de perceber a realidade.

-Sambucus nigra

- Hein?

-Lá de onde vim, tinha tanta variedade de vegetais, árvores, uma flora exuberante.

-senhora, a senhora tem de colaborar conosco. o Lá não existe.

A mulher ri, involuntária: - E o si, o be e o mól existem?

- O que?

-Era isso o que eles diziam: colaborar, quando na verdade estavam dizendo abaixe a
cabeça e faça o que nós dissermos.

-Eles quem? a senhora não sabe nem apontar quem são eles! isso é coisa de sua
cabeça.

-Eles não merecem ser nomeados.

-Fantasias suas. Fantasmas em sua cabeça.

-Como pode dizer o que tem dentro de mim? Você sequer sabe o meu nome, não sabe
nada da minha estória.

-Débora, esse é o seu nome.

Escrito por Jiló às 11h28
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05/09/2008


barbantes silenciosos

Até que um dia tem uma discussão com o pai, sobre a sua mãe. A primeira vez que ela defende a mãe. Estranho e não estranho.

F: não grite com a mãe.

P: Eu não estou gritando, eu estou engasgado com ela.

F: ela não te fez nada. Pelo contrário ela sempre faz tudo para o senhor!!!

P: ela não faz tudo nem nada.

M : deixe ele minha filha. É um estúpido, não sabe o que fala.

P: ela me deixa engasgado.

F: você é quem a perturba o dia inteiro com esse maldito sino.

P: Sua mãe concorda, sempre concorda.

F: eu não entendo pai, todos esses anos...

P: você entende, você sempre entendeu.

F: eu não suporto

P: você não suporta não entender.

 

Então ela decide sair de casa para poder entender o que se passava com o pai, com a mãe, com ela mesma. Não tem namorado, rejeita qualquer relação afetiva:

uma mulher de pedra e cal e cimento.

Ela, primeiro, se debate, entra em conflito consigo própria. Até que se decide e vai comunicar ao pai. Pensa primeiro em dizer de forma mais

objetiva e protocolar possível que está de saída. Depois pensa em comunicar ao pai como um doçura, afeto. Mas no fundo também ela não é dada a essas coisas assim como o pai. Não sabe que tipo de reação terá o pai. Se tentar impedi-la, talvez ela fique

ofendida; se não se importar, talvez ela fique sentida, imaginando que ele não a ama o suficiente, irá embora amargurada.

Na mesma casa há uma mulher decidida a não abandonar o marido. Tem o laço entre eles, como se alguém de fora os tivesse unido para não se separarem mais, contra a vontade dos dois.   

F: Pai...

(silêncio)

eleva um pouco a voz, depois de titubear: Pai.

(silêncio)

A filha dirige-se à porta, ouve uma voz:

P: Que foi?

F: Vou me embora.

P: Já vai? Pegue um casaco, pode se resfriar.

F: Você nunca se preocupou comigo dessa forma.

P: Eu falei por falar, saiu assim...

F: Eu disse que eu vou embora pai.

P: Sim, eu ouvi. Pegue a sua blusa pra não se resfriar.

F: Eu quero dizer que...

P: você vai embora, muito bem! Mas a blusa é importante seja onde você for.

F: a blusa...

Eu vou sair daqui e talvez demore um tempo para voltar.

P: Não precisa se justificar. Você tem todo o tempo possível para voltar.

F; Não se importa?

P: se você fosse à farmácia, se você fosse à padaria, também estaria indo embora.

F: mas não é a mesma coisa!

P: tantas pessoas mentem, dizem que vão à esquina e desaparecem, não é mesmo?

F: mas eu não sou tantas pessoas...

P: eu sei (suspira)

F: então

P: você é crescida. Você é dona de si, das suas coisas, da sua blusa.

F: você realmente não se importa não é papai?

P: me importar... as coisas nascem e não há nada que as prenda em lugar algum. Nada!

F: não se importa com a sua vida, com o que os outros sentem!

P: com a vida (sorri amargo), com a minha vida (enrola um barbante colorido numa haste de metal semi enferrujado), com a nossa vida, com a vida de ninguém..

Levanta-se e tira de um velho baú, que teimosamente mantém no centro do quarto, uma blusa antiga, de quando a filha era menina.

P: eu disse para você levar a blusa (diz num tom repreensivo) lá fora ta frio.

F: minha blusa de menina... o senhor guardou...

P: que eu saiba é a única blusa que você tem.

F; não, não.

P: sim.

F: essa blusa é da época que eu achava que o senhor se importava comigo. Lembra-se pai, de quando eu me sentava ao seu lado e te observava, mesmo o senhor não falando quase nada...

P: vamos parar com isso. São lembranças, só lembranças descoloridas. (volta a mexer nos barbantes coloridos)

Lembranças desbotadas, sem vida.

F: Melhor eu ir...

P: Espere.

F: não me impeça

P: só mais um momento.

A filha abre a porta e sai de casa. O pai continua a repetir: só mais um momento, mais um momento, cada vez mais baixo, cansado, a voz ganhando tristeza...

Só um momento, ele diz como uma oração ao contrário. Um momento para dizer que ela a amava, que ele queria abraçá-la, sentimento tão óbvio, mas afinal a vida é feita de sentimentos óbvios, ele que fugira da obviedade...e mergulhara em seu silêncio e em seus barbantes desbotados.

Escrito por Jiló às 11h44
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21/07/2008


Barbantes silenciosos

Essa é a estória de um homem que desiste de tudo, tranca-se em seu quarto.

ele é casado e tem uma filha, beira os 60 anos. Essas coisas se revelaram ao longo da estória, como barbantes que se desenrolam sinuosos.

Ele guarda penduricalhos e faz longas peças, como Artur Bispo do Rosário.

Mas ele sabe disso, usa a arte para proteger o seu silêncio. Silêncio, o artista, artífice trabalha. Soa pretensioso e é pretensioso. Talvez não tenha nada de artístico a sua atitude em fechar-se no quarto, talvez (talvez?!) não tenha nada de profundo o seu silêncio. Ele mira as pessoas com o seu silêncio. De início as pessoas ficam desconfortáveis, depois há uma espécie de admiração, pois poderia se tratar de um sábio recluso, desses que não existem mais, desses sábios raros que o mundo moderno de competição extrema acaba por esmagar. Então aos olhos da filha, ele é esse sábio. Mesmo que ela nunca soubesse a palavra exata, mesmo que ela até se recussasse em pronunciá-la, o seu sentido de admiração ao pai é traduzível em sapiência. E, na infância, ela gostava de compartilhar do silêncio com o pai. Era agradável como receber raios de sol em manhãs invernais.

Eis um homem sábio, que se retirou da loucura do mundo para criar o seu mundo de sabedoria. E assim nada mais natural que o sábio submeta os outros (mãe e filha) à sua sabedoria, que no fundo pouco se diferencia com os ataques enraivecidos de uma criança mimada.

Usa pijama de flanela à noite. Durante o dia sai de casa para catar na rua barbantes coloridos, latinhas de todos os tipos.

A filha ainda tenta se comunicar com ele. Ele apita quando precisa de socorro. A esposa já desistiu faz tempo. Moram os três num quase cortiço. Ele persiste em sua fala monossilábica e agita um pequeno sino quando precisa de ajuda da esposa.

Depois de várias tentativas de convencer o pai a mudar de vida, a filha acha que

não há como muda-lo. Mas que raios, ela sempre o aceitou do modo dele. Impossível mudar uma pessoa de 60 anos...

Ela tem afeição pelo pai que sempre a defende das broncas da mãe. Ela achava que o entendia, ela quase o admira por levar a vida que leva. Ele está preso em seu quase mutismo, em seus longos períodos de silêncio exacerbado.

O tempo passa...

A filha está crescida, empregada e em idade de conhecer o mundo. Ela reluta em sair de casa, pois sempre esteve envolta em um invólucro: o seu mundo, o seu pequeno vasto do mundo...o seu imenso mundo de horizontes que vão sempre além. Ela sonha com o além, com o outro lado, dentro dela mesma, difícil de alcançar. Sonha com pés grandes, sonha com o lado selvagem da rua, com a lua que penetra em seus olhos sempre que ela os fechas. Olhos fechados e silêncio são como asas que a fazem voar e alcançar aquela liberdade só sentida em sonhos... A liberdade concêntrica, para dentro. Mas ela precisa da liberdade excêntrica, para fora.

Quando abre os olhos, agora vê o pai, como uma âncora pesada, afundando sonhos, afirmando pesadelos.

 

Escrito por Jiló às 12h22
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