Cochichos e Relaxos


09/11/2009


a vida de ponta cabeças

estou sentado, observando o nada

a meia usada está sobre a mesa de jantar,

a calça largada no sofá

na cozinha, uma pilha de xícaras sujas, que nunca serão lavadas

na escrivaninha, contas a pagar ilhadas e encharacadas com a última chuva do verão

em outra ponta da escrivaninha recortes de jornal, sobre a comemoração da queda do muro de berlim,

fotos de alguma celebridade, perdida com o seu amor em uma praia dao rio, pesquisa com células tronco

minha cabeça tá uma confusão

Escrito por Jiló às 19h57
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09/10/2009


Encharcados de vida

Pois bem

Eles dizem que falta vida

que falta emoção

que falta o deslumbramento inicial da descoberta do mundo

Eles dizem que falta avivar as teorias

que elas estão muito distantes da realidade

E também dizem que as crianças ainda possuem o germe da descoberta e do fascínio do mundo

As crianças filosoficamente encharcadas de vida

Encharcadas pela enchurrada que inunda a cidade todo verão

Encharcadas de álcool derramado

Encharcadas pela banalidade da ética

Fascinadas pela vida que se dissmula a cada deslumbramento

Se querem ser tocadas, que entrem para um bordel

Se querem ser encharcadas que tomem todo o álcool armazendo em barris de carvalho

Mas não digam que isso é filosofia

Escrito por Jiló às 20h09
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21/09/2009


vocę sabe...

Você sabe que um dia, mais cedo ou mais tarde...

vão te julgar

vão te condenar

vão te acusar de ser um mal exemplo

de se comportar intempestivamente

Se você não sabe, um dia ficará sabendo

que vão te acusar de cometer todas as imundices do mundo

E você não terá defesa

Eles serão impiedosos

Irão jogar pedras em você, os mesmos que possuem alma enlameada, que possuem esterco até no último pensamento.

Eles que fedem e sequer desconfiam que fedem

Vão te acusar de fumar, cheirar, beber e fornicar

E depois retornarão em paz com a sua consciência vazia e seu corpo sujo para os seus lares.

Alguém disse lares?

Um dia... mais cedo ou mais tarde a última inocência será perdida

Que o céu e a lua e um pouco de vodca de arte e de vida ainda te proteja diante de lobos famintos

Fique em paz amigo!

Escrito por Jiló às 19h33
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Pedras, danos e uma morte á vista

Ela virou-se para o marido. Um homem ridículo portando um guarda chuva aberto na sala. Ela de início arrependida, atirou pedras na direção dele.

"Você mereceu. Você é a coisa mais murcha da face da terra, inssosso, que chega a ser grosseiro."

Escrito por Jiló às 19h26
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04/09/2009


confessionário

As confissões são feitas de retalhos da vida, de noites mal dormidas, de desejos reprimidos.

Deve haver uma barreira simbólica entre o confessor e quem ouve a confissão: um tapume fino e raso, mas o suficiente para abrir um abismo.

Deve haver ... deve haver... alguma brecha para o rancor, deve haver alguma brecha para a dor e a felicidade por mais estúpida e fora do tempo que ela possa parecer. Deve haver um espaço milimétrico para o ridículo... o ridículo do amor e a ridícula da desculpa-esfarrada-mas-bem-treinada-na-voz-interior. E sobretudo deve haver um espaço maior para o arrependimento, motivopara a confissão. 

E ela confessou o inesperado o insensato o impensado. Ela, prensada e combalida, musa, mulher, companheira e finalmente enfeite de bolo no dia do casamento. Ela confessou até o último limite, até a última gota de sangue e suor e desejo e esperma.

Na última noite da última semana de verão, quando chovia torrencialmente sobre são paulo, ela presa ao trânsito, trancada em um ônibus, entre a doutor arnaldo  e a paulista sentiu-se entre a solidão e um certo enfado.

Ali, no ônibus, presa do tempo e da memória. Ela já flertara com ele em um dia escuro e assustador. Pediu-lhe suplicante um amor, uma rima e uma dor. Pensou na prisão do ônibus, na impotência de fugir dali, pensou em inifnitas prisões, cárceres privados da sua vida de casada. Ele foi direto ao ponto, com um olhar direto e certeiro: você é minha. Os olhos dele diziam: "você é minha" como quem diz você é meu objeto preferido, meu brinquedo. E ela sentiu-se fascinada em ser objeto de alguém. Mas logo que ele se aproximou sentiu um calafrio. Tentou recuar. Mas ele a segurou firma em seus braços. As pessoas imersas em suas prisões, nada desconfiaram. Os edifícios estáticos e um flat a caminho.  

Ela olhava para o chão no confessionário, tentando arrancar todas as palvras sinceras e sentimentos de arrependimento.

O marido murmurou e soluçou impotente: "Mas você poderia se quisesse, podeira escapar, e não escapou."

"Eu fiquei supresa, não sabia que ele teria a coragem de me abordar daquela maneira tão trivial como quem pega a fruta de uma árvore, como se eu fosse a sua propriedade ou a extensão de meu corpo."

"Então eu não resisti, então meu corpo se deixou levar. Eu disse não, disse e repeti, mas o meu corpo naquele instante não recuou. Ele se recusou terminantemente a recuar."     

"VocÊ poderia ter escapado", o marido murmurou, quase como um protesto murcho.

Depois colérico: "Você quis se entregar a ele." Depois em autocomiseração: "Você me traiu e não se arrependeu!"

Ela disse, repetiu e insistiu que estava constrangida e arrependida, que não conseguia mais dormir, que não conseguia mais pensar no mal que havia feito ao marido. 

Ele abriu o guarda chuva no meio da sala. Ela espantou-se, depois estranhou e por fim riu.

Lá fora chovia e ele foi abrir o guarda chuva na sala. Chovia e ele chovia por dentro, encharcado.

Escrito por Jiló às 20h21
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02/09/2009


perguntas que năo se respondem

Aproxima-se da casa. Aproximar-se significa quarteirões de distância , oceanos e desertos a atravessar.

Jurou nunca mais retornar, mas estava ali e cada vez mais ali, aproximando-se e nem sabia porque dirigia-se à casa.

Podia ouvir a sua esposa pedindo compassiva um perdão, podia ouvi-la pegando band-aids inúteis para curar as feridas, podia vê-la se abaixo e se rebaixando a ele ou simplesmente lavando a louça como se nada houvesse acontecido. Mas que vergonha, para ela e para ele. Quanta falta de amor próprio, quanto desperdício de vida e afeto, quantas distorções e humilhações.

A casa cada vez mas próxima. Talvez ainda chegasse a tempo de fechar a porta escancarada por ele, talvez algum bandido ou maníaco houvesse invadido a casa de portas abertas e uma mulher de rosto apático e estranhamente convidativo o tivesse atraído. Sabe-se lá. Malucos e desviados.

Quem sabe um incêndio devstador sobre a casa apagou as lembranças e raivas? Quem sabe as fagulhas do fogo não queimaram rancores vãos de um amor traído, partido?

O mais enigmático era que ele continuava a caminhar em direção à casa e quanto mais se aproximava dela, mais decidido ficava.

E  a figura magra e quase anoréxica dela, e a doçura, e o sentido de ordem e organização? E os vulcões, e as erupções hormonais, epidérmicas que durante toda a vida ela controlou com extremo rigor de um equilibrista que nunca falha?

Mas um dia falhou. E ela e não outra, agora é outra e não ela.

Escrito por Jiló às 19h05
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30/08/2009


anoitece

é um solo de trompete, melacólico, calmo e triste. E então anoitece

Anoitece em tardes que se deixam escapar, sem pressa. simplesmente

como a água que escorre mansa por entre as mãos.

Anoitece e ela desliza entre noiteces: gata sissiante, caminhar elegante e discreto.

Não há pressa alguma em chegar ao fim da noite.

Anoitece, mas no fundo é só um solo de trompete de Miles Davis que escorre lentamente,

como a água mansa e triste.

anoitece e um tormpetista sola anoitece oculto em algum bar.

E o solo de trompete escapa por entre frestas como água corrente:

Solo de anoitece, sax e tormpete, que se mistura à tarde melancólica. Então é noite, definitivamente.

Anoitece e é como o som que escorre manso e melancólico pelo tempo.

anoitece e não há como amanhecer.

Escrito por Jiló às 15h51
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28/08/2009


Volta para a casa

Ele ruma em direção à casa e sabe que vai errar, que vai se desviar porque no fundo não vai encontrar o caminho. sabe que vai se perder pelas sinuosidades das esquinas, das ruas que fazem curvas improváveis e que continuam depois de uma ponte mal construída. E ele vai acabar se perdendo de propósito em alguma rua sem saída.

A cidade está calma, cálida e estranhamente perfeita, engarrafada dentro de um grande vasilhame, embrulhada em papel celofane.

A cidade asséptica, outrora maldita. Os gritos foram abafados, as solidões sufocadas, mas é por isso que ele reage e se move nos espaços das ruas onde parecem que as facas são riscadas contra o concreto, onde a fricção das fagulhas parecem produzir alguma forma de vida e de morte.

Ele sabe que vai errar por horas a fio. Ele tem dúvidas se a cidade o engolirá em seus arranha-céus e noites sem estrelas antes que alcansse a casa desfeita. Ele tem dúvidas se deseja ser engolido pelo concreto, a terra abrindo-se, engolindo-o...   

Escrito por Jiló às 19h45
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14/08/2009


paz, deserto e silęncio

As ruas estão desertas.

"Reina a paz, reina a paz."

Um refrão que se repete como uma música monótona em cada canto da cidade deserta e vazia, como as músicas tocadas nos elevadores impessoais dos grandes apartamentos.

Ele internaliza e torce o refrão: "eu estou deserto, minha alma está vazia. Reina a guerra e o nada."

O rosto do policial transfigurado destoa do silêncio, do vazio e da paz perpétua.

Em frente a um prédio, estilo neo-clássico, falso até a última viga, higienópolis, ele permanece sentado, estático,

como se uma aura de repentina felicidade ali baixasse: névoa densa na noite fria.

"Olha o que ele fez, esse porco, sujo e imundo!", diz o segurança particular, engradado em seu paletó de segunda mão.

O vigia particular aponta em direção a uma poça mal cheirosa.

Mijo, mijo e mais mijo.

"O senhor tem de ir para a casa", completa o policial, boquiaberto.

Ele repele a ordem, ele permanece na indiferença. "Estou torto, não posso me mover e aqui está muito confortável."

O policial vocifera, primeiro coro: "Vou prendê-lo por desacato à autoridade constituída."

O segurança clama, segundo coro: "Você tem de colocar esse cara num chiqueiro. Ele tá todo borrado, mijado, calça suja, petelecos no cabelo."

Ele é conduzido pelos policiais numa radiopatrulha até a delegacia, a poucas quadras de distâncias. Alta velocidade, sirenes ligadas. É, além das ambulâncias, o único silêncio ouvido.

O delegado bufa ao ver os policiais trazerem mais um suspeito de perturbar a ordem pública. Não há mais espaço na cadeia. Os gritos lacinantes  dos detentos, os seus lamentos, preenchem todos os espaços da delegacia. "Vocês estão de sacanagem comigo", berra o delegado desvairado.

"Mas ele parece manso", dizem os policiais. "O problema são os mijos e a insistência em ficar na rua."

Ele ouve gritos, uivos humanos não caninos. Ouve pedidos clamando respeito e liberdade. Ninguém consegue contê-los.

O delegado o expulsa da delegacia, superlotada. Ele é apenas um traço, um ponto na estatística. Um traço a menos: menos que um bandido, menos que um cidadão respeitável.

As ruas estão desertas: reina o silêncio, a paz e a ordem. Ele caminha da delegacia para a casa trazendo a recomendação de não olhar para os lados, para o alto, de não parar em lugar algum, de não falar com estranhos. "Olhe para a frente e vá em linha reta, sem desvios."

Ele ainda tentou argumentar com o delegado, algo do tipo 'fui expulso de casa, eu fugi de casa, não tenho mais casa, nem mais mais amor'. E ouviu do delegado a bronca e o conselho que ele deveria se reconciliar com a mulher, que todo casamento tem jeito, que a solidão não presta, que as ruas não foram feitas para serem habitadas. E ele foi convencido, coagido a voltar para os braços de sua mulher, mesmo porque afinal de contas não tinha para onde ir. A felicidade não é uma via cor-de-rosa. Cinza e contentamento. Sons amarelecidos e contentamento. 

A cidade tem tons amarelos e cinzas: poluição e fuligem e um som monótono. Ele procura ouvir sinais, música em casas insuspeitas. Mas é em vão. Silêncio e a imensidão do deserto do silêncio de são paulo: patagônia, atacama, saara e amazônia.

Mas para onde ela irá? Que linha reta ele seguirá?

Escrito por Jiló às 20h41
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02/08/2009


um dia concreto de fúria e de dor

Um dia de fúria ou de glórias inglórias: ele de início paralisado foi sendo tomado em cólera

até atingir picos alucinantes. Emoções em montanha russa.

Ele ainda se voltou para olhar dentro de casa,

a porta escancarada, o olhar pétreo e paralisado

da mulher, ex-mulher, talvez ex-ser-vivente. Ele precisava encontrar rápido a saída,

escapar do labirinto daquela casa, que não era a sua casa, que nunca fio o seu lar.

e ele foi saindo como quem escapa de abismos.

Escrito por Jiló às 15h29
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29/07/2009


guarda-chuvas

guarda-chuvas servem para proteger da metralhadora verbal do outro

guarda-chuvas servem para nos abrigar do ranço, da mágoa de alguém que ainda diz nos

amar.

Sempre o amor. E dele devemos nos proteger com nosso impermeável.

Foi um guarda-chuva que ele pegou e abriu no meio da sala quando a mulher contra-atacou.

Uma forma de proteção, contra ela e contra sua raiva.

Guarda-chuvas servem para representar flores em cantigas de roda no teatro do Antunes

filho. Fantasia pura.

Mas não há nada de poético na situação. Ela avança sobre ele, agride-o em mínimas palavras

pontiagudas como cacos de vidros estilhaçados.

Guarda-chuvas servem para proteger de nossas chuvas internas, do nosso

sorriso nervoso,

para que não nos encharquemos em meio ao alcóol e à imensidão estonteante

do céu.

"Eu preciso sair daqui", ele repete no interior de sua imobilidade, em sua repentina imobilidade

que o faz parecer um homem empalhado. Mas ele treme por dentro.

Chove sem tréguas em São Paulo. A cidade chove.

Ela o vê saindo, desaparecendo da sua vista,

no meio da multidão encharcada.

Escrito por Jiló às 13h46
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22/07/2009


poema chá e concreto

Chá com a esposa ao fim das tardes escaldantes do verão de 1996.

Ela, a minha adorável esposa, preparava chá quente nas tardes quentes que lembravam as areais escaladantes do verão carioca.

Soube que as componentes de uma banda punk feminista, que parou no tempo e no

espaço, servem-se de chá quente em xícaras de porcelana chinesa.

Então pensei na minha esposa como punk.

E nas punks como adoráveis esposas que se esforçam para agradar os seus maridos, com rituais

acenstrais.

Duas senhoras ao final da tarde tomavam chá com bolachas: as punks feministas. A barriga flácida da vocalista punk

transbordando, fumegante, sob a calça em tecido de organza. Minha esposa e duas senhoras punk.

Na vitrola Lou Reed e Velvet Underground: sons que nunca ouvimos em nossa casa, que

chanávamos de o "dulcíssimo lar".

O italiano era por conta do som, que achávamos lindo e romântico.

A minha esposa era descendente de portugueses, por parte de pai e de mãe. Uma portuguesa legítima.

Eu não descendo de nada. Está foi sempre a minha verdade inabalável. Nem de Deus, nem

dos macacos. Pronunciei furioso está frase na fase mais explosiva de minha palida adolescência,

depois de ter fantasiado sobre uma frase pichada nos muros de Paris durante o Maio de 68:

"Deus está morto, Marx também e eu também não me sinto muito."

Preservei essa estranha convicção e a conservei por anos e anos, mesmo quando tinha mudado meus

hábitos e minhas visões de mundo, mesmo quando descobri o amor e depois o enfado que tanto

amor melado e adocidado traz. "Eu não descendo de ninguém, nem de pátria Deus ou Darwin."

Se em nosso "dulcissmo lar não entrava Darwin, os punks também estavam proibidos"

Mas hoje me dei conta de como o tempo passa e faz das suas tramoias. A foto da baterista

e da vocalista punk 20 anos depois. Duas senhoras divindo o sobrado, um dos poucos sobrados

da Aclimação, obstinadas em fazer o chá quente em pleno verão.

Vamos tomar um chá?

Escrito por Jiló às 15h23
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17/07/2009


um poema de concreto 2 (casal)

Há uma alegria secreta e inconstante no casal. Ela se chama Rita, ele se chama Mário.

Eles riem constantemente: dois jovens à beira de um ataque histérico.

Há algum amor e há, também, alguma dor. Mas, na juventude, há a sensação de que o amor ultrapassa a dor.

Há lamentos, mas isso faz parte da vida de um casal em estado de graça e misericórdia. 

Ela é romântica, sonha e suspira pelos cantos. Ele é romântico pelas circunstâncias, forçado pela paixão.

Ela gosta de rever as cenas românticas dos filmes de Harrison Ford uma duas... infinitas vezes.

Ela rebobinava as fitas vezes e vezes, depois ela apertava a tecla que retrocedia o dvd. Mas a lógica

era sempre a mesma: voltar e repetir as cenas recheadas de promessas de amor, a conversão de Harrinson Ford diante

do sentimento maior.

O filme não avança, ela para a imagem e retorna a mesma cena.

Ele é condescendente e revê as cenas infnitas vezes com o seu amor.

Mas ele desconfia que os filmes de Harrison Ford, vistos daquela forma tão heterodoxa, se

parecem com a sua vida. 

A mesma cena sempre retornando. Harrisonn Ford revelando o seu amor pela mocinha.

Mário repetindo as mesmas cenas românticas com Rita.

De início, ele apenas suspeitava da repetição. E mesmo que chegasse à conclusão de que as cenas

se repetiam, isso não era um fator negativo. O amor é um hábito que se pratica também pela repetição.

Mas o peso do tempo deixou à mostra a suspeita que Mário temia: a sua vida era uma repetição, como

na edição capenga que Rita fazia dos filmes de Harrison Ford. O amor também é mofo, musgo nascendo

na parede pela infiltração cada vez maior do tédio. O amor são outras paisagens: esgoto a céu aberto.

A vida de Mário não avança, como se Rita rebobinasse a fita e ele fosse obrigado a repetir a mesma cena, ano

após ano.

O tempo, óbvio, não tem peso. Mas o tempo modifica e esmaga o que antes era frescor.

O tempo de Mário e o tempo de Rita: duas vozes dissonantes, dois tempos dentro de um mesmo espaço.

O amor e a dor, o amor e o tédio, o amor e a languidês desfeita.

E Rita s põs do lado de fora do tempo. O seu tempo foi congelado no dia que conhecera e se apaixonara por Mário.

O tempo corrói os grandes edifícios da Paulista e da Berrini. As lojas abrem e fecham, a cidade muda o seu eixo, o ponto das drogas não é mais

o mesmo, as placas de trânsito invertem as direções, mas o amor de Rita está fora da cidade e do tempo.   

Escrito por Jiló às 11h19
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13/06/2009


um poema de concreto

A cidade é poética, trágica.

A cidade é destino, liberdade, cárcere privado, carcere a céu aberto: milhares de prisões e liberdades fugazes.

A cidade agride, afaga, assopra e machuca. A cidade tem um pôr-do-sol e uma lua que se liquefaz

a cada instante.

Imagino a lua drogada, que solta gosmas esverdeadas, nojentas.

A mesma lua que, sublime, ilumina os amores, e assassinatos furtivos em série. 

A lua também ilumina um casal de amantes.

Eles correm seminus: um homem e uma mulher

ao encontro de...

Balançam a cabeça, berram em frenética alegria,

rolam pela gramado do parque da luz, do Ibirapuera. Dois corpos!

A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada,

compondo um mosaico de pontos imersos no quase nada. 

A cidade-terra gira e vista de fora brilha.

Na ladeira porto geral, no largo da Batata, em noites suspeitas e suspensas...

Um casal corre descalço e seminu: um menino e mais outro menino, sem camisa.

Os pés carcomidos, sujos, esmagando o concreto. O nariz remelento, gasto pelo cheiro de cola de sapateiro.

Eles têm olhos exageradamente arregalados em frente à banca de jornal e veem apenas o vazio.

Dois meninos, mas eu reafirmo: um casal em frenética alegria.

A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada.

E o amor segue suspenso entre o ponto e o nada.

A cidade-terra gira e vista de fora, de marte, vênus, saturno, brilha.

Há muito amor nas entranhas dos corpos dos meninos de nariz remelento.

Há um tanto de ódio no amor entre o casal que rola e ri e troca promessas no parque da luz.

Escrito por Jiló às 06h14
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24/05/2009


As casas tristes

Era uma casa inutilmente triste.

 

Como se a tristeza fosse uma espécie de desperdício.

 

Uma casa onde impera o silêncio, obsequioso ao extremo.

 

Uma casa onde a alegria é contida. E solta como conta gotas.

 

Quando o sol penetra nesta casa, é como se fosse uma luz fria,

 

Imperceptível. Não aquece, não ilumina.

 

As plantas dessa casa são inflexíveis como as plantas de plástico.

 

A menina que habita a casa olha pela janela.

 

Atravessa, com a imaginação, fronteiras, mundos e enfrenta furacões.

 

Entra com receio em outra casa, onde impera a alegria.

 

Alegria que ela vê com olhos tristes.

 

Não há alegria na casa de sua amiga.

 

Há apenas murmúrios, sorrisos. Sorrisos que começam tímidos e terminam

 

em gargalhadas.

 

As gargalhadas que ela nunca pode dar em sua casa.

 

A inútil tristeza na casa onde impera a alegria.

Escrito por Jiló às 11h46
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