O sol a pino, como já foi dito, iluminava inteiramente o quarto. Uma música distante saído de um rádio de pilha (ainda existem rádios de pilha?) a metros de distância... Soava como Olívia Bighton...
A irmã de Paulo, aflita para pegar em alguma corda, alguma ponte que desse no nada e desviasse o silêncio solene do irmão, começou a cantarolar beixinho "alguém cantava uma canção, alguém cantava na imensidão, alguém cantava ao longe daqui..."
"Essa música não combina com o dia, ensolarado. É uma música melancólica, música chuvosa."
"Daqui a pouco o tempo muda e começa a chover. E eu me lembro que você detesta mpb."
"Nem tanto assim, é um exagero."
"Ah, as nossas brigas por inutilidades, gostos musicais, amigos...Só o tempo para mostrar como tudo isso é inútil e banal."
"É.. o tempo justifica tudo."
"O que o tempo fez com você Paulô?"
"Comigo, eu só envelheci um pouco, tenho rugas na testa, vincos, o pescoço..."
"O tempo te deixou uma frieza que não consigo explicar. Se bem que você nunca foi um poço de ternura."
Paulo ri meio descompassado, como querendo levar na brincadeira e na ironia o gelo descrito pela irmã, como que querendo que ela confiramsse ser só uma brincadeira de uma irmã que tenta recuperar traços de sua outrora juventude, que sumiu em seu rosto cansado e envelhecido precocemente. Até arriscaria dizer que ela estava com uma aparência mais envelhecida que a sua mãe. A irmã falava do gelo de Paulo como se falasse de si mesma, como se quisesse resgatar algum sinal de carinho que não foi capaz de doar para os filhos e a figura esquálida do marido.
"Eu só queria saber por que ela não te deu o recado Paulo?"
"Ah, ela estava ocupada. O serviço no hospital, a enfermeria tomavam muito tempo dela. Ela estava toda no trabalho..."
"Toda no trabalho e nada em você. Eu percebi a voz estranha dela quando eu pedi para dar o recado. Era como se eu falasse com uma desconhecida e pedia um protoclo anexando a data e o dia em que eu telefonei suplicando a sua presença no almoço de domingo para reconfortramos a nossa pobre mãe."
Suplicar, palavra estranha emitida pela irmã. Suplicar, implorar. Ou será que foi ele mesmo que, de forma proposital esqueceu da data do tal almoço, do encontro familiar reconciliatório?
"Ela anotou o recado, apagou de sua memória. Só depois eu vi, sobre um dos livros da estante."
"Mas que desleixo."
"Se você quisesse podeia ter ligado novamente para confirmar o tal encontro..."
Mas ela não ligou, e silenciou como se acusasse algum golpe. Não ligou porque provavelmente tivesse medo de que Paulo, o Paulô decidisse aceitar o convite. E isso deveria assustá-la. Só conseguiu soltar um débil e defensivo: "eu confiava em sua esposa."
Agora não confia mais.
"Sabe Paulo, quando vocês se casaram todos nós da família ficamos de certa forma aliviados, porque achamos que ela seria uma boa companheira, amiga. Uma moça direita (e não torta), correta e que te daria uma alegria que você nunca teve em casa. E que depois a alegria seria redobrada com a vnda de filhos que correriam pela casa sempre vazia de nossa mãe, trancada a ferro e fogo desde a morte de nosso pai."
Ele nunca ouvira a irmã falar daquela forma do pai e da mãe, soava forçado, uma farsa talvez. talvez?
"Só agora nós (que são os 'nós'?) percebemos claramente o quanto ela te fez mal, e o quanto de egoísmo e perversidade havia nela."
Perversa, cruel egoísta, irrascível, sua ex-esposa. Mesmo para alguém que nutria rancores era uma descrição irreal. De quem a irmã falava?
"E ao invés de uma solidão, vocês compartilharam uma solidão a dois. O casal caramujo, como costumavam brincar os nossos conhecidos."
Agora ela evoca os 'conhecidos'. Quem eram os conhecidos daquela cara carrancuda da irmã, a mais hóstil face humana que existiu e existe na terra, a miss simpatia da turma do colégio, que nunca esboçava um sorriso.
"E nossa mãe ficou tão decepcionada com os filhos qe não vieram. Ela esperou tanto tempo, mas não tinha coragem de falar com você..."
Os filhos, sempre os filhos. As pessoas são obcecadas nos filhos quando eles não vêm.
"Acho que foi por isso também que ela adoeceu."
Pronto, esse era o ponto, toda a conversa desfiada para chegar ao ponto!
"E também, mesmo não reconhecendo bem as pessoas, mesmo tendo lapsos na memória, ela sentiu a tua falta no almoço. Ela sentiu que perdera um filho, que alguma coisa morrera dentro dela."
Paulo acusou o golpe, olhava ofendido e enfurecido. A sua irmã viera colocar a culpa em suas costas, como se ele fosse o centro da desgraça da família.
"E para terminar... essa estória estranha."
"eu não me sinto culpado, eu não sou culpado."
"Todos nós temos um pouco de culpa."
Paulo abre o armário, pega uma garrafa de conhaque barato e entirna no copo sujo sobre o criado mudo.
"Agora deu para beber?"
"É dessa forma não? As desgraças acabam em álcool e niilismo puro, falta de vontade das coisas."
"Não fale desse jeito. Estou aqui para dar o meu apoio. No sumiço da sua esposa você foi o menos culpado."
Menos culpado, mais culpado.
"Não há inocentes."