As ruas estão desertas.
"Reina a paz, reina a paz."
Um refrão que se repete como uma música monótona em cada canto da cidade deserta e vazia, como as músicas tocadas nos elevadores impessoais dos grandes apartamentos.
Ele internaliza e torce o refrão: "eu estou deserto, minha alma está vazia. Reina a guerra e o nada."
O rosto do policial transfigurado destoa do silêncio, do vazio e da paz perpétua.
Em frente a um prédio, estilo neo-clássico, falso até a última viga, higienópolis, ele permanece sentado, estático,
como se uma aura de repentina felicidade ali baixasse: névoa densa na noite fria.
"Olha o que ele fez, esse porco, sujo e imundo!", diz o segurança particular, engradado em seu paletó de segunda mão.
O vigia particular aponta em direção a uma poça mal cheirosa.
Mijo, mijo e mais mijo.
"O senhor tem de ir para a casa", completa o policial, boquiaberto.
Ele repele a ordem, ele permanece na indiferença. "Estou torto, não posso me mover e aqui está muito confortável."
O policial vocifera, primeiro coro: "Vou prendê-lo por desacato à autoridade constituída."
O segurança clama, segundo coro: "Você tem de colocar esse cara num chiqueiro. Ele tá todo borrado, mijado, calça suja, petelecos no cabelo."
Ele é conduzido pelos policiais numa radiopatrulha até a delegacia, a poucas quadras de distâncias. Alta velocidade, sirenes ligadas. É, além das ambulâncias, o único silêncio ouvido.
O delegado bufa ao ver os policiais trazerem mais um suspeito de perturbar a ordem pública. Não há mais espaço na cadeia. Os gritos lacinantes dos detentos, os seus lamentos, preenchem todos os espaços da delegacia. "Vocês estão de sacanagem comigo", berra o delegado desvairado.
"Mas ele parece manso", dizem os policiais. "O problema são os mijos e a insistência em ficar na rua."
Ele ouve gritos, uivos humanos não caninos. Ouve pedidos clamando respeito e liberdade. Ninguém consegue contê-los.
O delegado o expulsa da delegacia, superlotada. Ele é apenas um traço, um ponto na estatística. Um traço a menos: menos que um bandido, menos que um cidadão respeitável.
As ruas estão desertas: reina o silêncio, a paz e a ordem. Ele caminha da delegacia para a casa trazendo a recomendação de não olhar para os lados, para o alto, de não parar em lugar algum, de não falar com estranhos. "Olhe para a frente e vá em linha reta, sem desvios."
Ele ainda tentou argumentar com o delegado, algo do tipo 'fui expulso de casa, eu fugi de casa, não tenho mais casa, nem mais mais amor'. E ouviu do delegado a bronca e o conselho que ele deveria se reconciliar com a mulher, que todo casamento tem jeito, que a solidão não presta, que as ruas não foram feitas para serem habitadas. E ele foi convencido, coagido a voltar para os braços de sua mulher, mesmo porque afinal de contas não tinha para onde ir. A felicidade não é uma via cor-de-rosa. Cinza e contentamento. Sons amarelecidos e contentamento.
A cidade tem tons amarelos e cinzas: poluição e fuligem e um som monótono. Ele procura ouvir sinais, música em casas insuspeitas. Mas é em vão. Silêncio e a imensidão do deserto do silêncio de são paulo: patagônia, atacama, saara e amazônia.
Mas para onde ela irá? Que linha reta ele seguirá?