Cochichos e Relaxos


12/02/2004


Líricas delirantes 2


Andar tendo a cidade como plano de fundo: metrópole movediça, áspera-angulosa,
feita de recortes pouco sutis.
Isto não te sugere distanciamento, alienação?
Estado geral de meu temperamento: calmo e tranquilo e morno.
Rapidamente as coisas mudam: velocidade sempre impactante.
Carros em desfoque veloz, depois sumindo. Minha silhueta recortada contra
prédios de arquiteturas monstro.
E a atmosfera: fog londrino em poluíção terceiro-mundista.
Tua face se destaca e se foca naturalmente, tua face me deslumbra,
tua face é a única, as outras se extinguem.
Então...conversão rápida ao lirismo à flor da pele...
Eu mesmo me pergunto:"Não é o cúmulo da alienação ser lírico em Sampa?"

Escrito por Jiló às 13h46
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10/02/2004


Felicidade

Atravessava os corredores da empresa, anônimo e oculto.
O seu passado a ninguém interessa. O passado é como um mar plácido e lúgubre, sem qualquer particularidade ou encantamento.
O seu futuro não lhe pertence. Estradas abertas, rio correndo desfiladeiro abaixo.
O presente é um ponto minúsculo perdido no emaranhado de destinos cruzados ao acaso no escritório.

Durante a travessia feita de pequenos segmentos de reta, até chegar na extremidade oposta de seu ponto de início, suas pernas bambearam, seu corpo em compasso vacilante tremeu!

O corpo ou algo além dele rebelou-se. Teve vontade de gritar. Soltou a voz, imaginou que ela fosse se projetar num berreiro anasalado. Porém, uma invisível redoma o reteve. Um halo frio e enevoado surgiu ao seu redor. A sua sombra, agora evanescente, sumiu assim como o seu passado.

Estava inevitavelmente só, singularmente isolado. Sentiu-se no centro de um local impenetrável.

A mão (seria a mão divina?) estendeu-se firme e docemente. Ele sequer esboçou o movimento de curvar-se para agarrá-la. Gentilmente a repeliu.

Estava só, impenetravelmente só e sentindo-se no coração pulsante do mundo. Esvaziado e feliz! Sim, feliz! De uma felicidade oca e sem conteúdo.  

Escrito por Jiló às 17h46
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08/02/2004


Líricas Delirantes 1

Chove torrencialmente na cidade de São Paulo. Estou na esquina da Augusta com a Matias Aires. Há uma espessa cortina de água que atravessa a rua. Do outro lado da calçada, dez horas da noite, a moça tenta convencer um rapaz dentro de um Vectra sentado ao volante. Espero que ela não o seduza, espero...

Só então atravessaria e falaria:
"Meu amor enviesado, vamos para a cama?"
Só então ela berraria: "Qual é a tua ô meu? Cai fora, babaca!"

De harmonia secretas são feitas as noites chuvosas da Augusta. Evoco a chuva porque ela traz uma cálida ponta de aroma de nostalgia. Todos ficam nostálgicos. Mesmo quem nào possua um passado como eu, como você, mocinha desbocada e de unhas quebradiças. 

Escrito por Jiló às 11h08
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