O bar não vale a pena ser descrito. Nenhum detalhe especial. Está lá há tantos anos. O mesmo dono, agora bem mais envelhecido, tentando disfarçar a irritação com os frequentadores. Uns poucos sobraram: fiéis. Tão fiéis que
o dono poderia cobrar o dízimo, que eles não se importariam. Pagariam com todo prazer.
Fazia um bom tempo que eu não ia encher o saco no bar do Zé. Uma dúvida, à medida que eu me aproximava do bar, me assaltava. Entrou ou não entro.
"Aposto que você não entra", ouvi uma voz no fundo da minha cabeça repetir várias vezes; uma voz totalmente debochada. Então eu me revoltei: "Ah é, seu desgraçado. Quero ver quem vai me impedir de entrar no bar!"
O bar estava cheio daquele tipo de gente que eu detestava na noite. Gente espalhafatosa, falando alto, rindo de qualquer coisa. Quanta felicidade concentrada em tão pouco espaço! Faziam questão de parecer felizes. Mas depois, não muito tempo depois, cada um encontraria o seu canto. A turma se esfacelaria, ficariam olhando para um ponto perdido, cada qual concentrado em seu mundinho.
Fora isso, havia os sem turma. Homens e mulheres ansiosos por fazer algum tipo de contato. Ela cravou os olhos em mim e não os tirou mais até arranjar um pretexto para iniciar a conversa. Futebol, Rolling Stones, a forma cruel como a Nike explora mão-de-obra terceiro-mundista...enfim uma miscelânia de assuntos e entonações tão díspares quanto a cabeça dela.
Não tinha jeito de eu prestar atenção na conversa. Mas o essencial eu via naqueles olhos vidrados: necessidade, fome, ansiedade de tudo.
Devia ser o tipo de mulher que dizia:"Vamos fundir nossos corpos, as nossas almas num instante de entrega total", ao invés de dizer:"Vamos fazer um sexozinho só pra variar, só para espantar o tédio desta noite."
Diferente da atitude feminina de afastar o assédio masculino: olhar de cima para baixo, colocar o chato em seu devido lugar com um ar de total desprezo, eu precisava inventar algo diferente. Na hora em que ela procurou uma aproximação definitiva, oferecendo a sua mão para que eu a segurasse, simplesmente disse: "A minha mão está gelada, uma verdadeira pedra de gelo. Mãos geladas dão um puta azar!", arrematei com convicção a explicação estafúrdia.
E então ela silenciou. Um silêncio esquisito, muito esquisito. Impossível de ser interpretado. "Tudo perdido", pensei. "Botei tudo a perder." Não sabia exatamente o que, mas eu havia botado tudo a perder. Devia ter derrubado um monte de coisas que não faço a mínima idéia do que seja.
Tantas malucas pela noite. Gente estranha, inventando mil e uma maneiras de se comportar em público. Etiqueta pra lá, etiqueta pra cá. E, no entanto, basta um pouco de álcool... As carências vem todas à tona, sem disfarces. E mulheres com poses blasés naufragam ... As máscaras caem... todas elas: uma a uma.
Instantes depois do silêncio enigmático, ela teve um chilique. Dizia alto, sem parar, que as pessoas tem medo de pegar na mão porque acham que transmite AIDS! Eu já tinha tido um dia tão aborrecido que nada mais poderia piorá-lo. Se eu tivesse antevisto o que iria acontecer, talvez até teria me divertido com a situação. Tudo aquilo não deixava de ser engraçado e ridículo. O que me aborrecia é que ela queria me jogar bem no centro da arena, apontar os holofotes sobre mim e anunciar bem alto: "Aí está o ignorante que acha que apertar a mão de uma pessoa transmite AIDS." Mas ela não tinha coragem de apontar pra mim, de falar o meu nome.
Eu fazia de conta que não era comigo. Olhava fixo para um ponto da parede. Batia uma ponta de arrependimento de não ter comprado o CD da Ella Fitzgerald, combinava mais com o meu estado anterior. E além disso, eu teria ido direto pra casa, ansioso para ouvi-la.
Extraído do original: O que é mais estranho de se carregar no bolso do paletó: um cd com música de câmera de Schöenberg ou Ella Fitzgerald?
Ano: 1997
Autor:Oscar Kiyomitsu Kamesu


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