Cochichos e Relaxos


19/02/2004


Fico louco (parte 4)

O bar não vale a pena ser descrito. Nenhum detalhe especial. Está lá há tantos anos. O mesmo dono, agora bem mais envelhecido, tentando disfarçar a irritação com os frequentadores. Uns poucos sobraram: fiéis. Tão fiéis que
o dono poderia cobrar o dízimo, que eles não se importariam. Pagariam com todo prazer.
Fazia um bom tempo que eu não ia encher o saco no bar do Zé. Uma dúvida, à medida que eu me aproximava do bar, me assaltava. Entrou ou não entro.
"Aposto que você não entra", ouvi uma voz no fundo da minha cabeça repetir várias vezes; uma voz totalmente debochada. Então eu me revoltei: "Ah é, seu desgraçado. Quero ver quem vai me impedir de entrar no bar!"
O bar estava cheio daquele tipo de gente que eu detestava na noite. Gente espalhafatosa, falando alto, rindo de qualquer coisa. Quanta felicidade concentrada em tão pouco espaço! Faziam questão de parecer felizes. Mas depois, não muito tempo depois, cada um encontraria o seu canto. A turma se esfacelaria, ficariam olhando para um ponto perdido, cada qual concentrado em seu mundinho.
Fora isso, havia os sem turma. Homens e mulheres ansiosos por fazer algum tipo de contato. Ela cravou os olhos em mim e não os tirou mais até arranjar um pretexto para iniciar a conversa. Futebol, Rolling Stones, a forma cruel como a Nike explora mão-de-obra terceiro-mundista...enfim uma miscelânia de assuntos e entonações tão díspares quanto a cabeça dela.
Não tinha jeito de eu prestar atenção na conversa. Mas o essencial eu via naqueles olhos vidrados: necessidade, fome, ansiedade de tudo.
Devia ser o tipo de mulher que dizia:"Vamos fundir nossos corpos, as nossas almas num instante de entrega total", ao invés de dizer:"Vamos fazer um sexozinho só pra variar, só para espantar o tédio desta noite."
Diferente da atitude feminina de afastar o assédio masculino: olhar de cima para baixo, colocar o chato em seu devido lugar com um ar de total desprezo, eu precisava inventar algo diferente. Na hora em que ela procurou uma aproximação definitiva, oferecendo a sua mão para que eu a segurasse, simplesmente disse: "A minha mão está gelada, uma verdadeira pedra de gelo. Mãos geladas dão um puta azar!", arrematei com convicção a explicação estafúrdia.
E então ela silenciou. Um silêncio esquisito, muito esquisito. Impossível de ser interpretado. "Tudo perdido", pensei. "Botei tudo a perder." Não sabia exatamente o que, mas eu havia botado tudo a perder. Devia ter derrubado um monte de coisas que não faço a mínima idéia do que seja.
Tantas malucas pela noite. Gente estranha, inventando mil e uma maneiras de se comportar em público. Etiqueta pra lá, etiqueta pra cá. E, no entanto, basta um pouco de álcool... As carências vem todas à tona, sem disfarces. E mulheres com poses blasés naufragam ... As máscaras caem... todas elas: uma a uma.

Instantes depois do silêncio enigmático, ela teve um chilique. Dizia alto, sem parar, que as pessoas tem medo de pegar na mão porque acham que transmite AIDS! Eu já tinha tido um dia tão aborrecido que nada mais poderia piorá-lo. Se eu tivesse antevisto o que iria acontecer, talvez até teria me divertido com a situação. Tudo aquilo não deixava de ser engraçado e ridículo. O que me aborrecia é que ela queria me jogar bem no centro da arena, apontar os holofotes sobre mim e anunciar bem alto: "Aí está o ignorante que acha que apertar a mão de uma pessoa transmite AIDS." Mas ela não tinha coragem de apontar pra mim, de falar o meu nome.

Eu fazia de conta que não era comigo. Olhava fixo para um ponto da parede. Batia uma ponta de arrependimento de não ter comprado o CD da Ella Fitzgerald, combinava mais com o meu estado anterior. E além disso, eu teria ido direto pra casa, ansioso para ouvi-la.

Extraído do original: O que é mais estranho de se carregar no bolso do paletó: um cd com música de câmera de Schöenberg ou Ella Fitzgerald?  
Ano: 1997
Autor:Oscar Kiyomitsu Kamesu
  

Escrito por Jiló às 17h57
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Fico louco (parte 3)

Entrei numa dessas lojas de CD que ficam abertas até meia noite.
Pilhas de CD à minha frente e às minhas costas. Cruzei com vendedores que procuravam mostrar educação e, obedecendo as normas da casa, não me abordaram. Eu detestava o ar cool que eles faziam.
Não, não precisa comprar nada, pode consultar à vontade o nosso catálogo. O senhor não é obrigado a levar nada.Mas por trás daqueles olhos de águas plácidas, havia a ansiedade de quem espera que o cliente compre pilhas de CD.
Percorri lentamente a sessão de jazz. Pedi, só pra aporrinhar, ao vendedor de ar vazio e boca ligeiramente aberta, para ouvir uma faixa de um CD do John Coltrane. Fiz caretas. É que às vezes o sax de John Coltrane
me irritava profundamente a ponto de me dar cólicas.

Escrito por Jiló às 17h55
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15/02/2004


Fico louco (parte 2)

Uma noite de sábado, daquelas bem chatas, saí de casa em direção à avenida principal. Mal reconhecia as pessoas com quem cruzava, sequer sabia se eram realmente pessoas. Estava fazendo de conta que vivia no reino vegetal. As plantas, principalmente as plantas rasteiras que crescem como matagal em tudo quanto é lugar, não faço questão de crumprimentar.
Dona Alzira, amicíssima de minha mãe, me chama. Quer me contar sobre seu filho caçula às voltas com problemas digamos com substâncias inadequadas. "Não dona Alzira, agora não. Tenho uma coisa urgente pra fazer." E tinha mesmo. Fugir daquela rua, dos quarteirões ao redor de minha casa, dos vizinhos que insistiam em me sufocar com conversa mole. Provincianos modernos, munidos de seus celulares....

A minha mãe fez cara de missa de sétimo dia quando saí de casa apressado, camisa de manga curta num frio daqueles. Resignada e conformada, era assim que ela esperava chamar a minha atenção. Sempre a mesma ladainha.

Eu tinha um encontro marcado ou coisa parecida. Eles que não me perguntassem sobre a infeliz da garota que cometeria a insanindade de se encontrar comigo. Não era uma garota. Sons, apenas sons que povoavam a minha cabeça. Somente eles pra me acalmar ou excitar. Fui a uma loja de cds na zona oeste. Cada dia exigia a sua própria trilha sonora. Estava numa crescente ansiedade, pianíssimo de elevado pico. Ella me acalmava e me fazia flutuar quando projetava sua voz em standards de jazz: eis um bom contraponto à ansiedade.

As ruas, as pessoas, que já não tinham a sua importância, desapareciam completamente. Restava apenas uma voz, uma voz sem corpo, quase como se fosse uma voz do além. Então a voz me atingia e meu corpo ondulava e se contorcia como se estivesse bêbado, depois flutuava no espaço. Um prazer pequeno e fugaz. Tinha umas trinta canções cantadas por Ella na minha cabeça. Martelavam notas combinadas com a voz ... a voz que não me cansava, um piccollo milagre! Ao final ainda restava, último suspiro, o silêncio em suspenso, belo, límpido e claro, para novamente tudo voltar a ficar escuro e ordinariamente barulhento.

   

Escrito por Jiló às 12h12
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Fico louco! (parte1)

Já faz algum tempo que estavam comentando pelos cantos que os meus olhos eram vazios e sem expressão.
Ouvi o comentário meio de viés. Dei meia volta para evitar o flagrante. Rapidamente, a opinião disseminou-se através dos conhecidos e da família. Todos convencidos de que a expressão vazia do olhar era o indício de uma pessoa perturbada. O iceberg de problemas mentais.
O burburinho e a agitação que se fazia nas minhas costas não chegava a me incomodar. Mais um motivo, segundo eles, para provar que eu tinha problemas.

Eles é que se incomodavam, porque não tinham provas de que eu estava começando a enlouquecer.Tem apenas impressões, intuições....

O fato é que eu vivia com os pés nos dois lados. Quando estou como hoje, numa crise de nervos, num tremendo mal humor, a boca saliva tanto que parece espuma de cão raivoso.

Os vizinhos estão ficando cada vez mais obcecados comigo. Projetam todas as usa esquisitices, sonhos malucos, desejos reprimidos, sobre as minhas costas. Apontar-me com louco livra-os da sua loucura. Imagina ser parecido comigo! Só mesmo se for louco varrido.

Muitos deles tem a tentação de telefonar para algum manicômio vir me pegar. É questão de humanidade, dizem as mocinhas sérias e compenetradas, recuperar a minha sanidade metal, acabar com o meu sofrimento. É sempre assim. Recusam todos os meus assédios, púdicas como elas só. Dão voltas e reviravoltas, enrolam tanto para dar um beijinho, um prazerzinho enfim muito do miserável, e depois vem com todo aquele discurso!

Toda vez, no momento exato em que os fatos por si só estão prestes a assumir o caráter de prova, eles tem de recuar. Aliás, eles nunca puderam falar nada na minha frente, porque eu trabalho, cometo a loucura de ser asssalariado, pagar as minhas contas...
Como é que o doido se mantém no emprego? É uma pergunta que eles nunca se cansarão de fazer. Um verdadeiro mistério, um enigma. 

Escrito por Jiló às 11h38
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