Rosário de gotículas de alegria: desfio mantras de múltiplos ecos, como se estivesse numa caverna subterrânea.
Ouço ruídos espontâneos; impossível decidir se eles vêm de dentro ou de fora, porque tenho a sensação de que não posso controlá-los. São acordes de uma sinfonia que não identifico. Não é sempre a mesma e também não é sempre sinfonia. Mas os sons são anunciadores do amanhecer na mata densa e cheiro de relva. Então eu me projeto e me perco na paisagem.
Passo por inúmeros estados, todos, sem exceção, são projeções. Depois da paisagem vêm as artes. Vejo uma tela em suas cores e formas, mais formas que cores. Formas sinuosas de todos os tipos. Como se a curva particular abrigasse a curva universal. Tateio a superfície rugosa da tela. Aí o sentido do tato se exaspera. O sentido do tato associado à visão dos pigmentos coloridos na tela.
O jogo entre o eu e o outro se rompe, implode em mil pedaços. Ser eu e outro, ser uma síntese e suas múltiplas variações.
Uma Liede embala o estado de vigília-sonho. Ouço a Liede ganhar mais envergadura. A melancolia se rarefaz e finalmente a alegria se manifesta sob a forma de leveza. Assobio Ode à Alegria de Beethoven. A alegria surge como dignidade. Sou digno agora de ser alegre, porque fiz por merecê-la. Apesar de seus caprichos, conquistei-a. A alegria se retém: dócil e domável. Não faço força pra retê-la, porque sei que é inútil conservá-la mais do que o tempo natural... naturalmente alegre.
Quando pressinto que ela está prestes a me deixar, somente neste instante vejo que a conquista foi uma falsa conquista. Bela e indomável alegria! Resta-me apenas um sorriso pálido de contentamento.


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