Joara, 20 anos, cabelos naturalmente loiros. Nada a ver com a piadinha sobre loiras que se faz por aí. Não era o mulherão que Roberto enfatizava, mas possui seus admiradores, como o Walcir, seu namoradinho oficial trintão e de passagem até que ela encontre o verdadeiro amor quando a carreira da futura jornalista já estiver perfeitamente estável. Gostava de exagerar na cor do batom, o único exagero visual a que se permitia. Afinal tinha de projetar a imagem de sobriedade e harmonia e síntese que uma agência de empregos requer.
Excesso de energia, eu poderia desculpá-la com esse batido chavão. Nada como ser jovem e invejosa. Não deixava de pensar em cada momento desagradável que passava com Joara.
Se ela soubesse que existia uma outra Joara, homônima, em tudo diferente dela, campeã de xadrez nos anos 80; se ela soubesse que há alguém com o mesmo nome e que, no entanto, habita universo tão distinto do dela, com uma personalidade tão diferente. E mais, se ela pudesse vislumbrar, apenas por um momento que há outras dimensões na vida! Nomes, nomes, apenas nomes.
O ápice do meu desconforto, quando quase senti pontas de baionetas acossando minhas costas, ocorreu na caricata encarnação do francês... O monólogo minúsculo que se transformou aquela sala com Joara encenando a vida nada doce da véia em plena sala de estágios. Além do mal gosto, muito exagerado e ligeiro, nem pra vaudeville vagabundo a encenação servia.
Há sempre minha consciência que intervém nestes picos digamos emotivos que me acometem de quando em quando. “Cadê o seu senso de humor, perdeu? Por que não relaxar e apreciar aquela encenação chula e preconceituosa e imbecil e insensível e...”, assim logo vinham os adjetivos e minha consciência criada com a mera função de servir como meu contraponto ia para os ares. Ganhei de ti novamente!!!
Mas do que eu estava irado? E por que eu senti tanto que a encenação dela era preconceito não só contra a véia, mas contra mim?! Nos outros comentários sentia os tiros partirem rumo a minha direção. Alguns acertavam de raspão, outros em várias regiões, mas nenhum foi tão à queima roupa como a encenação de Joara.
Eles não sabem nada a meu respeito, porque se soubessem talvez me olhassem espantados e eu seria o francesinho da sala, o intelectualzinho de meia tigela que, fracassado, foi parar numa pequena agência de emprego. E então para me diminuir eles prazerosamente se rebaixariam, a eles próprios e à agência, tão miseravelmente instalada no centro antigo de São Paulo. Ela diria algo do tipo:“Ah quer dizer que o senhor também é formado na Usp e o escambau, tem ingrês e francêis fluentes, sabe quem foi Leibniz e até leu o que ele escreveu e ainda por cima tem conhecidos em Paris?!!! Oh oui, oui, oui. E agora veio prestar um medíocre serviço nesta agênciazinha, obedecendo ordens de uma secundarista recém formada... pero mutcho esperta e competente? Quá quá quá!!! Mas que fim de carreira hein ô meu?!.”
“Se ela soubesse”, pensei com alguma ponta de resignação, com uma mistura de ódio e comiseração, “que há outras Joaras que habitam outros mundos!”
“Alô sim, eu gostaria de falar com a Carla? Oi Carla aqui é a Joara da agência de empregos Fértil, isso isso... Pois é, eu gostaria de saber se você está interessada em fazer uma entrevista...”

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