Cochichos e Relaxos


04/03/2004


Juventude não transviada (parte 4)

Joara, 20 anos, cabelos naturalmente loiros. Nada a ver com a piadinha sobre loiras que se faz por aí. Não era o mulherão que Roberto enfatizava, mas possui seus admiradores, como o Walcir, seu namoradinho oficial trintão e de passagem até que ela encontre o verdadeiro amor quando a carreira da futura jornalista já estiver perfeitamente estável. Gostava de exagerar na cor do batom, o único exagero visual a que se permitia. Afinal tinha de projetar a imagem de sobriedade e harmonia e síntese que uma agência de empregos requer.

Excesso de energia, eu poderia desculpá-la com esse batido chavão. Nada como ser jovem e invejosa. Não deixava de pensar em cada momento desagradável que passava com Joara.

Se ela soubesse que existia uma outra Joara, homônima, em tudo diferente dela, campeã de xadrez nos anos 80; se ela soubesse que há alguém com o mesmo nome e que, no entanto, habita universo tão distinto do dela, com uma personalidade tão diferente. E mais, se ela pudesse vislumbrar, apenas por um momento que há outras dimensões na vida! Nomes, nomes, apenas nomes.

O ápice do meu desconforto, quando quase senti pontas de baionetas acossando minhas costas, ocorreu na caricata encarnação do francês... O monólogo minúsculo que se transformou aquela sala com Joara encenando a vida nada doce da véia em plena sala de estágios. Além do mal gosto, muito exagerado e ligeiro, nem pra vaudeville vagabundo a encenação servia.

Há sempre minha consciência que intervém nestes picos digamos emotivos que me acometem de quando em quando. “Cadê o seu senso de humor, perdeu? Por que não relaxar e apreciar aquela encenação chula e preconceituosa e imbecil e insensível e...”, assim logo vinham os adjetivos e minha consciência criada com a mera função de servir como meu contraponto ia para os ares. Ganhei de ti novamente!!!

Mas do que eu estava irado? E por que eu senti tanto que a encenação dela era preconceito não só contra a véia, mas contra mim?! Nos outros comentários sentia os tiros partirem rumo a minha direção. Alguns acertavam de raspão, outros em várias regiões, mas nenhum foi tão à queima roupa como a encenação de Joara.

Eles não sabem nada a meu respeito, porque se soubessem talvez me olhassem espantados e eu seria o francesinho da sala, o intelectualzinho de meia tigela que, fracassado, foi parar numa pequena agência de emprego. E então para me diminuir eles prazerosamente se rebaixariam, a eles próprios e à agência, tão miseravelmente instalada no centro antigo de São Paulo. Ela diria algo do tipo:“Ah quer dizer que o senhor também é formado na Usp e o escambau, tem ingrês e francêis fluentes, sabe quem foi Leibniz e até leu o que ele escreveu e ainda por cima tem conhecidos em Paris?!!! Oh oui, oui, oui. E agora veio prestar um medíocre serviço nesta agênciazinha, obedecendo ordens de uma secundarista recém formada... pero mutcho esperta e competente? Quá quá quá!!! Mas que fim de carreira hein ô meu?!.”

“Se ela soubesse”, pensei com alguma ponta de resignação, com uma mistura de ódio e comiseração, “que há outras Joaras que habitam outros mundos!”

“Alô sim, eu gostaria de falar com a Carla? Oi Carla aqui é a Joara da agência de empregos Fértil, isso isso... Pois é, eu gostaria de saber se você está interessada em fazer uma entrevista...”

Escrito por Jiló às 11h13
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Juventude não transviada (parte 3)

Última tarefa do dia, ligar para mais três potenciais candidatos.

Juarez, o técnico em informática, que mantém o pequeno sistema da empresa funcionando, entra na seção de estágios...

“Êe veio procurar emprego também Juarez?”, Joara abre um sorriso entre cínico e malicioso.

“Que emprego nada Joara, tô por aqui... por enquanto né? Hehehe. Sem mais nada pra fazer, quase cinco horas da tarde...’

"Então vou te dar um servicinho Juarez. Escolhe aí na pilha de currículos, uns três, e ligue pra eles convocando pra entrevista de emprego de redator de site, e diagramador numa empresa lá na Barra Funda."

"Ok Joara, assim já vou treinando pra ficar no teu lugar... hehehehe."

"Engraçadinho! Olha que eu armo a tua demissão hein?"

Juarez pega a pilha de currículos descuidadmanete, "Bem vejamos, acho que vou pegar esse, mas ... mas. Olha só que nome mais estranho! Laibnits? Como será que se pronuncia? Está escrito L-e-i-b-n-i-z! Vixê o homem tem até site. Alguém entra no site do moço aí, anota o endereço...

Nossa quantos qualificativos, fluência em inglês, estudou Letras na USP, cursos de computação gráfica no Senac e web no senai. Trabalhou como diagramador na Escortec editora e também na sigma...

Cada figura...!"

"Liga pra ele Juarez!"

"Ok Joara. Tá chamando....Sim, eu poderia falar com o Laibnitis? É Laibnitz né? Assim que se diz? Pois é, eu sou o Juarez da agência de empregos Fértil, queria saber se você gostaria de participar de uma entrevista numa editora na Barra Funda, na segunda-feira às 9 horas, muito cedo? Pois é, eles estão precisando de um diagramador experiente. Tá ok combinado. Obrigado eu, tchau!

Simpático esse Laibnits. Apesar do nome gente fina."

Roberto ergueu as sombrancelhas, riso irônico e de piedoso nos lábios: "Esses pais não tem mais o que inventar pra colocar nome nos filhos né Juarez? Ôooo cambada de ignorantes."

"Nem me fale Roberto ..."

Enquanto isso Juarez revirava novamente a pilha de currículos, dispostos desigualmente sobre a mesa de Joara.

"Nossa Joara, repara só no currículo dessa mulher. Fala inglês, francês e espanhol fluentemente, já esteve na França, é formada em Comunicações pela Casper Líbero, trabalhou como Free-lancer para o Sp Diários associados. Se metade disso for verdade..."

"Passa pra cá Juarez, deixe-me ver." Na verdade Joara já estava praticamente arrancando o currículo da mão de Juarez.

"Mas isso não é possível??? Qual a idade dessa véia? Sim, porque com tudo isso de conhecimento deve ser uma daquelas véias caindo aos pedaços. E ainda por cima morou na França. oui ouiiiiiiii"

Roberto apruma seus lábios. "Ai que biquinho maravilhoso meu pudinzinho francês..."

"Ah mas é muito hilário né Roberto?"

Joara quase não se contém de alegria, riso solto e frouxo: "Até parece! E trabalhou na França como o que? Empregada doméstica no máximo quá quá quá.... Imigrante ilegal... qui qui qui!!! Oh oui, messieu, quá quá quá..."

"Pára de rir mulher, liga pra essa tal de Carla de uma vez."

Joara, agora inxeplicavelmente indignada: "Hum diz aqui que tem 30 anos... Só se for em cada perna. Quá quá quá quá quá....."

"Tenho de saciar minha curiosidade, vou ligar agora pra essa mulher. Viu como eu falei bonito agora Roberto: “saciar”!!!"

"Agência de empregos também é curtura!!! E muito libidinal também! Quer dizer que é hoje que iremos nos saciar Joara?"

"Pára Roberto! Hunfs. Só pensa naquilo né?"

"Péra telefone tá tocando."

Escrito por Jiló às 11h11
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Juventude não transviada (parte 2)

Alô eu gostaria de falar com a Ângela! Espero sim. Ângela boa tarde, aqui é a Joara da agência de empregos Fértil, tudo bem? Olha tem uma vaga pra estagiário de direito, cursando o terceiro ano na submarino corporation. Salário de 800 reais por 6 horas de trabalho. Interessa? Ah entendo, no momento não. ok!

Desliga o telefone.

“Nossa não me conformo, recusar uma entrevista pra um estágio de 800 reais por mês!!!”

É responde Roberto, depois dizem que emprego está difícil que não existe trabalho... Esse povinho tasc tasc. Lamentável!

Quando Roberto proferiu a brilhante intervenção, foi que eu reparei no bigodinho tipo escovinha, cuidadosamente aparado todas as manhãs. Bigodinho de cantor de bolero e comedor de empregadinhas domésticas à mercê de umas cantadas ligeiras e bem humoradas. Todos esses atributos de Roberto eu os anexei no momento do duplo tasc. milésimos de segundos antes do ‘Lamentável’.

Afinal eles estavam certos, os fascistas: apelido carinhoso com o qual eu os projetava. Tanta onda que o pessoal faz pra pegar emprego, estágio.

“E aquela vagabunda então, ai que ódio, ainda me desligou o telefone na cara. Pode deixar que ó óooo o que eu faço com a ficha dela.” Rasgou-a e singelamente sorriu.

Quá quá quá quá, fez Roberto. “Ai meu docinho de ameixa, meu pudinzinho de leite, mas por que tanta braveza?”

“Esse pessoal merece né Roberto?”

“E se merece completei”, já entrando em delírio.

Pois é. Sexta-feira, pouco a fazer e um fim de semana apoteóticamente medíocre pela frente.

Escrito por Jiló às 11h10
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Juventude não transviada (parte 1)

Quase fim do expediente.... Eu sei que o trabalho é sufocante! O trabalho humilha e escraviza e aliena o homem...!!! Todos os slogans libertários me vêm à mente. Apenas ideais anarquistas que, pelo bem da humanidade, nunca serão colocados em prática. Servem apenas como um contraponto ao ambiente amorfo.

Sinto-me nesse dia sufocado pelo outro, que me aparece à frente ao lado e às costas...Como se o inimigo ocupasse todas as posições e estivesse preparado para romper as fronteiras e, com elas rompidas, trazer fissuras em minhas reservas morais, nas aporias do meu pensamento. Assim minha intimidade seria violada. Estaria primeiro nu, indefeso, exposto ao gelo e ao fogo. A seguir viria a pena maior: uma sonora gargalhada. Gargalhada cortante e rascante.

Eis minha fantasia excedente. Sempre cultivo fantasias quando provoco meu ego exacerbado.  Eu contra o mundo. Meu senso de realidade não me deixa em paz e me faz notar que estou agindo infantilmente, criando inimigos onde não existem. Mas eu preciso deles hoje, são necessários, imprescindíveis.

Desta vez, como de inúmeras outras vezes, o telefone tocou na velha agência de empregos. À minha volta apenas jovens inclementes e cruéis: eis meus inimigos. Cruéis como toda a juventude tem de ser. Não canalhas, não canibais. Mas selvagens...buscando a sua chance na vida, a sua grande oportunidade no mundo dos negócios de uma megalópole desconjuntada. Alcançar o topo e ser feliz. Há também os jovens mais acomodados, mas não deixam de ser cruéis, dentes arreganhados sob a pele de cordeiro. Sob a voz aveludada e de tom prestativo escondem-se comentários ácidos. Chuva ácida como a que cai na cidade...Óbvio eu ia dizer, a cidade não tem rosto, óbvio eu ia confirmar a cidade não tem dó nem piedade, óbvio eu ia reconfirmar a tese de que a cidade esmaga. Mas são essas obviedades que mais se prestam a descrever aquele dia tão feio e cinzento e amorfo e enfim novamente sufocante: a cidade e os jovens da agência de emprego que me esmagam. Sou esmagado por vias oblíquas. Sequer eles sabem que estão apontando armas contra mim.

Não é reflexo e incidência do terceiro mundo, a ignorância que eles guardam de tudo o que não se aproxime do capital (money) ou das baladinhas de fim de semana. É apenas adrenalina.

Mais do que banal o telefone toca na agência de empregos. Vagas para estágios, vagas para pequenos cargos em inúteis empresas.

“Não... infelizmente você tem o perfil inadequado para essa área. Pois é, a pessoa tem de ter formação em administração de empresas...”

Há uma pilha de currículos sobre a mesa de Joara. Olho-os de viés. Vai começar a disparar os telefonemas convocando os candidatos para uma seleção no dia seguinte.

Tomar fôlego... Um dois três. dispararrrrrrr

Escrito por Jiló às 11h07
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