Cochichos e Relaxos


12/03/2004


Eu estou dentro da roda - (parte4) Homenagem a Caio Fernando Abreu

Aquele seu papo me incomodava, mas eu fui ficando, ficando... Algo me dizia que eu tinha de ficar, ouvir você falar, falar...Eu não precisava falar, somente fingir que te ouvia. Você estava fora e eu dentro da roda. Mas que merda de roda é essa afinal dama da noite? Eu não estou dentro nem fora, não pertenço à nada. Tenho poucas lembranças, tenho medo de olhar para frente e ver somente o temporal na linha do horizonte.

            Agacha-se, o conhaque revira-lhe o estômago. Coloca a mão na cabeça. Ri debochado de si próprio. “Eu acho que a roda esmagou a minha cabeça, fez mingau do meu cérebro. Não penso em nada, não consigo pensar em nada de bom... Não estou dentro nem fora da roda. Não sou o verso nem o reverso. Eu me sinto sujo por dentro, mas como posso me sentir assim, se nunca fiz mal a ninguém? É como se eu não estivesse ocupando um espaço, nem vivesse num tempo. Eu já nasci póstumo, e hoje todas essas pessoas me fazem sentir como se eu fosse um fantasma. O que é estar fora da roda dama da noite? O que é estar no exílio, o que é estar fora do sistema?"

            "Até esses parâmetros a minha geração perdeu, porque não há mais esquerda ou direita, alto ou baixo, prazer ou desprazer."

            "Se o tempo pudesse voltar eu me despediria de você com um forte abraço, tocaria os meus lábios no seu. Provavelmente você me repelisse... Sim, me repeliria, com um certo nojo. É que no fundo você me desprezava...Pensaria: ‘sou superiora, podia ficar com o boy, tenho ele nas minhas mãos, mas não estou agora por opção minha.’"

            “Em algum lugar deve ter uma luz, que não é muito diferente das luzes desses automóveis insensíveis que passam a toda.”

Um carro passa em baixa velocidade. Apesar da chuva, os vidros estão abaixados. Ele vê rostos que parecem amistosos. O motorista acelera o carro. Ele tem o impulso de correr, de gritar. É a luz.! Miraculosa, pecaminosa e libidinosa luz, lux!

     

Escrito por Jiló às 19h37
[ ] [ envie esta mensagem ]

Eu estou dentro da roda - (parte3) Homenagem a Caio Fernando Abreu

Aquele seu papo me incomodava, mas eu fui ficando, ficando... Algo me dizia que eu tinha de ficar, ouvir você falar, falar...Eu não precisava falar, somente fingir que te ouvia. Você estava fora e eu dentro da roda. Mas que merda de roda é essa afinal dama da noite? Eu não estou dentro nem fora, não pertenço à nada. Tenho poucas lembranças, tenho medo de olhar para frente e ver somente o temporal na linha do horizonte.

            Agacha-se, o conhaque revira-lhe o estômago. Coloca a mão na cabeça. Ri debochado de si próprio. “Eu acho que a roda esmagou a minha cabeça, fez mingau do meu cérebro. Não penso em nada, não consigo pensar em nada de bom... Não estou dentro nem fora da roda. Não sou o verso nem o reverso. Eu me sinto sujo por dentro, mas como posso me sentir assim, se nunca fiz mal a ninguém? É como se eu não estivesse ocupando um espaço, nem vivesse num tempo. Eu já nasci póstumo, e hoje todas essas pessoas me fazem sentir como se eu fosse um fantasma. O que é estar fora da roda dama da noite? O que é estar no exílio, o que é estar fora do sistema?"

            "Até esses parâmetros a minha geração perdeu, porque não há mais esquerda ou direita, alto ou baixo, prazer ou desprazer.

            Se o tempo pudesse voltar eu me despediria com um forte abraço, tocaria os meus lábios no seu. Provavelmente você me repelisse... Sim me repeliria, com um certo nojo. É que no fundo você me desprezava...Pensaria: ‘sou superiora, e fico com o boy a hora que eu quiser,  mas agora não tô afim’"

            “Em algum lugar deve ter uma luz, que não é muito diferente das luzes desses automóveis implacáveis que passam a toda.”

Um carro passa em baixa velocidade. Apesar da chuva, os vidros estão abaixados. Ele vê rostos que parecem amistosos. O motorista acelera o carro. Ele tem o impulso de correr, de gritar: "É a luz.! Miraculosa, pecaminosa e libidinosa luz, lux!"

              

Escrito por Jiló às 19h32
[ ] [ envie esta mensagem ]

Eu estou dentro da roda - (parte3) Homenagem a Caio Fernando Abreu

“Vocês quase deram certo. Bateu na trave. Tinha a ditadura, tinha a repressão. Queiram ou não a repressão foi um ótimo motivo para vocês se fazerem de mártires, os campeões da justiça, os do lado do bem. Aí acabou a festa e uns foram para dentro e outros ficaram fora da roda. A minha geração não. A minha geração chutou fora, chutou a bola para bem longe. Um bando de pernas de pau!” Começa a rir sem parar. “E de que adianta? No final dá na mesma. Ninguém chutou certo, ninguém marcou gol. Zero a zero!!! Um grande e enorme broxada no final. Zero a zero!!! E daí que vocês jogaram bem, e daí que são craques....Não ganharam nada, desconfio que nem gozar direito vocês gozaram.” Ajeita o cabelo como quem se prepara para sair...”

            “A minha geração já nasceu com um invólucro bem no meio da testa, a minha geração nasceu do medo de se contaminar. Sangue impuro, sêmen impuro, e se bobeasse saliva impura... Nos empurravam todo o tipo de bobagem e a gente acreditava que a catástrofe estava próxima, que o fim da espécie humana, vítima da promiscuidade, pagando o preço alto do prazer, estava bem próximo. Nas reportagens mostravam como os doentes, pacientes terminais sofriam. Eu estava expiando a minha culpa, expiando o pecado do homem”

                Nós brincávamos, enchíamos as camisinhas de ar, como se fossem balões. Mas no fundo tínhamos medo. Nós somos a geração do medo, a geração que foi barrada no baile. Eu morrendo de curiosidade de saber como dar o cu ou comer um. Vestia jeans apertados, fazia pose de machinho. Na época eu até acreditava que era machinho. Estava naqueles dias (Ri alto) Era só estética, não passava de estética, pelo menos no meu caso. Tomei todos os cuidados, transei muito pouco. Experiências furtivas, como se estivesse roubando um banco, arrombando a porta de um carro para pegar o toca fitas. Precisava sair logo, precisava alcançar logo o orgasmo, gozar rapidinho. Um machinho meio a meio. Nem sabia se gostava de homem ou de mulher. Eu acho que não gostava de nada, só de sair pela noite, exibindo o meu físico, esculpido duramente em academias. E os boys e as bichas de tudo quanto idade, mas especialmente as bichas velhas, ficavam de olho. Elas fariam qualquer coisa para passar ao menos uma noite comigo. Até que eu fui parar aquela noite na tua mesa, dama da noite....

Escrito por Jiló às 19h26
[ ] [ envie esta mensagem ]

Eu estou dentro da roda - (parte2) Homenagem a Caio Fernando Abreu

Você dizia que quase a sua geração deu certo, quase foi feliz. E que bela superioridade! Ficar no quase, mas não dar certo. A minha não. A minha já nasceu morta de esperança. Pelo menos não tínhamos mais ilusões. E que grande consolo, que grande porcaria. A gente já nascia virando yuppie ou mauricinho. Nós não tínhamos nada na cabeça, não é? A não ser consumir, consumir, disfarçando a nossa ansiedade, que no fundo era resultado de um vazio enorme. Sem ideais, sem sexo não, sem sexo com tesão...

             Vocês tinham, não é verdade? Tinham ideais, transavam adoidado, achavam que amavam, mas lá fora tinha a realidade, lá fora tinha um monte de gente observando vocês, como se fossem animais raros enjaulados num zoológico. E diziam poucas e boas de vocês, faziam gestos caricatos ou xingavam mesmo. Naquela época a barra era pesada. Mas no fundo eu te detestei naquela noite, com aquela pose de mulher experiente, me medindo de cima a baixo, com ares superiores. Como você conhecia a vida. Você estava fora da roda e por isso mesmo parecia superiora.”

            Pára o carro e começa a andar sem destino pelas ruas. Começa uma chuva fina, que aumenta repentinamente. Ele se refugia num bar, negocia com o dono uma garrafa de conhaque. É um bar muito simples, com poucas pessoas, na região de Santa Cecília. Não tem paciência para continuar ali, tem a necessidade de continuar andando.

                “Mas que droga! Que chuva, que tempo, que dia de merda!” Um carro passa em alta velocidade, espirrando água, misturada com óleo, misturada com sujeira. Ele passa a mão pelo paletó e se sente sujo por dentro, por fora... Mais tarde pensa em se livrar da roupa, Só mais tarde, agora não, agora pensa em proteger o conhaque. Um outro carro passa. Um rapaz muito jovem grita do seu interior: “Ô imbecil sai da frente.” Ele olha sem raiva, aparentemente sem emoção. As lágrimas começam a escorrer em sua pele. Ninguém diria que ele chorava, encharcado que estava, ninguém diria que estava triste.

Escrito por Jiló às 19h21
[ ] [ envie esta mensagem ]

Eu estou dentro da roda - (parte1) Homenagem a Caio Fernando Abreu

Dirige o seu tempra pelas ruas do centro. Está com o rosto cansado, abatido, retorna do trabalho...Na sua cabeça, duas frases curtas, estouram alternadamente como pequenos pontos luminosos:

“Estou dentro da roda.

Depois estou fora.

Depois não estou dentro nem fora. Não fico no verso nem no reverso.

Mas nunca fui underground, nunca participei da transa da contracultura. O que foi realmente a contra-cultura? Eu digo bem baixinho entre os dentes para você não ouvir: ‘Foi um grupo de deslumbrados’. Tá certo dama da noite, quando eu te conheci você ficava sentada ali naquele cantinho do bar, só sacando os boys, de roupa preta, sempre com o mesmo look. Hoje eu passei por lá. Faz uns seis anos que passei a última vez.... A única lembrança que sobrou foi você me tocando no braço, me convidando para sentar. Já foi logo oferecendo uma vodca. Eu não estava acostumado com a vodca, mas fingi que aguentava o tranco. Pensei: ‘até que essa puta velha é interessante’. Mas aí eu quis fugir, quando você começou a reparar na minha juventude a insinuar que eu não tinha nada na cabeça. Começou com aquelas viagens que eu achava sem pé nem cabeça. Começou a falar da roda, que estava fora da roda...

Onde andará você dama da noite? Com certeza esses bares da noite, agora uma noite mais escura, não te suportam mais. Tem uma meninada mais nova que eu também não suporto. Imagine você então com os garotinhos de agora. Só espero que não esteja revirando os lixos por aí da cidade. Sei lá tem tanta gente, que era razoável de vida, entrando nessas neuras. Outro dia eu vi um mendigo, tinha um certo porte, gestos delicados. ‘Será a dama da noite?’ Mas a dama da noite não tinha gestos assim tão delicados. Estava desesperada atrás de um grande amor. Será que um caubói te levou para a fazenda? Mas acho que ficou no quase...”     

Escrito por Jiló às 19h15
[ ] [ envie esta mensagem ]

08/03/2004


Estava ele assim parado...

Estava assim ele parado, não propriamente parado...Movimentava-se, mas era como se o vento, um vento interno seco, o levasse. E não pensava em nada, particularmente não pensava numa idéia, não a acariciava; apenas um amontoado de imagens, surgia de tempos em tempos, sem conexão. E ela estava lá, assim como poderia estar em outra esquina, em outro país. Fixou os olhos ligeiramente estrábicos nele, fez um esforço, só um pouco, e agora não tinha mais jeito. Mas é claro que poderia ter escapado. Se antes tudo era uma opção, se antes o mundo, embora um pouco monótono outro tanto tedioso, estava aberto a novas possibilidades, agora elas se limitavam a uma única. Pensou que as outras possibilidades só estivessem emperradas devido à sua preguiça de se concentrar nelas e escolher uma, e assim reinventar o seu caminho, e assim domar o cavalo bravio que era a vida. Um cavalo bravio, que se escondia sob uma expressão facial que evocava monotonia...E ninguém diria de seus tormentos interiores, ninguém sequer vislumbraria como ele se debate entre caminhos e fica com o juízo em suspensão com a ação. Quando ela o encarou tentando ver o que havia sob aquela expressão tranqüila, sem rugas, sentiu-se atraída. Pensou baixinho, como se os pensamentos pudessem ser classificados em alto e em baixo. Mas o fato é que foi só um sussurro, como uma brisa soprando muito levemente lá do fundo de sua alma: “Mas que rapaz novinho!” Ele a encarou e as possibilidades se encerraram. O caminho foi escolhido sem que ele pudesse apontar para onde iria. Simplesmente foi uma escolha necessária. Embora isto sele um paradoxo.

 

Escrito por Jiló às 19h00
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico