Aquele seu papo me incomodava, mas eu fui ficando, ficando... Algo me dizia que eu tinha de ficar, ouvir você falar, falar...Eu não precisava falar, somente fingir que te ouvia. Você estava fora e eu dentro da roda. Mas que merda de roda é essa afinal dama da noite? Eu não estou dentro nem fora, não pertenço à nada. Tenho poucas lembranças, tenho medo de olhar para frente e ver somente o temporal na linha do horizonte.
Agacha-se, o conhaque revira-lhe o estômago. Coloca a mão na cabeça. Ri debochado de si próprio. “Eu acho que a roda esmagou a minha cabeça, fez mingau do meu cérebro. Não penso em nada, não consigo pensar em nada de bom... Não estou dentro nem fora da roda. Não sou o verso nem o reverso. Eu me sinto sujo por dentro, mas como posso me sentir assim, se nunca fiz mal a ninguém? É como se eu não estivesse ocupando um espaço, nem vivesse num tempo. Eu já nasci póstumo, e hoje todas essas pessoas me fazem sentir como se eu fosse um fantasma. O que é estar fora da roda dama da noite? O que é estar no exílio, o que é estar fora do sistema?"
"Até esses parâmetros a minha geração perdeu, porque não há mais esquerda ou direita, alto ou baixo, prazer ou desprazer."
"Se o tempo pudesse voltar eu me despediria de você com um forte abraço, tocaria os meus lábios no seu. Provavelmente você me repelisse... Sim, me repeliria, com um certo nojo. É que no fundo você me desprezava...Pensaria: ‘sou superiora, podia ficar com o boy, tenho ele nas minhas mãos, mas não estou agora por opção minha.’"
“Em algum lugar deve ter uma luz, que não é muito diferente das luzes desses automóveis insensíveis que passam a toda.”
Um carro passa em baixa velocidade. Apesar da chuva, os vidros estão abaixados. Ele vê rostos que parecem amistosos. O motorista acelera o carro. Ele tem o impulso de correr, de gritar. É a luz.! Miraculosa, pecaminosa e libidinosa luz, lux!


Leia este blog no seu celular