Cochichos e Relaxos


18/04/2004


tempo parte 4

Quando ficaram a sós, conversaram banalidades.

Vez em quando o mais velho suspirava, sem nunca esclarecer os motivos dos suspiros. Estes permaneciam como enigmas, como a parte da reserva inviolada.

O diálogo e seu conteúdo se modificavam como os cadernos de jornais. O hábito excessivo do mais velho em ler jornais, tornara a sua mente organizada por seções.

Acharam, acordo tácito, mais conveniente conduzir a conversa por essa via, preencher as entrelinhas e entre seções com alguma passagem curiosa da biografia individual que cada um trazia tão desleixadamente guardada. Momentos esses que acabaram se revelando como os mais propensos ao riso e às ironias de diversas espessuras.

Mesmo sem nem terem avaliado ou feito um balanço de suas vidas ao longo dos anos de lacunas, perceberam que pouca coisa havia ocorrido.

Os dois permaneciam milagrosamente quase à margem da contingência, se comparada a outras vidas.

“E as novidades?“, o mais velho sempre tomava a iniciativa de perguntar ao mais novo.

“Ah...”, silêncio acompanhado de suspiro, este sem enigma, sem mistério, porque transparecia clara e nitidamente a reação de tédio com a pergunta.

Logo após as reticências, que se tornavam cada vez mais longas, vinha uma lista de acontecimentos pouco expressivos. E por fim o mais novo, língua de fora, rendia-se e terminava por dizer: “É ... poucas novidades.”

O mais velho, na entre seção de Luís Nassif e Bernardo Carvalho, comentou, de passagem, que finalmente conseguira comprar um terreno para construir a sua casa. “Já era tempo”, disse como querendo dizer, “já passou do tempo, o tempo perdido em hesitações sem causa; se eu não comprasse agora só me restaria o terreno sob medida da cova rasa.”

“Novidade! Que bela novidade! Você finalmente adquiriu um bem! Teu terreno. Acho essa compra simbólica de novos tempos, novos ventos, brisa que sopra em tua face de pedra, chuva para irrigar tua árida expressão!” O mais novo não disse todo o parágrafo. As palavras expressivas ficaram presas entre a garganta e a vontade contida por um freio da consciência que dizia: “ele não quer que você o cumprimente efusivamente; e dispensa alusões a novos ventos e outros vendavais, pois é destituído de arroubos que inclinam as pessoas a demarcarem fases marcantes em suas vidas e acabará por achá-lo tolo”

Então ele disse firme e naturalmente: “Estou muito feliz por você!”

Cumprimento banal e dentro do contexto, porque o mais velho, para surpresa do mais novo, contou sobre a compra do terreno de forma igualmente banal, uma simples comunicação protocolar ao seu amigo: “Eu adquiri no mês de outubro de 2003, aos 49 anos de idade, início da fase crepuscular de minha vida, um terreno nos limites da cidade afim de construir uma pequena casa...”

“Que será teu refúgio contra o mundo inimigo”, complementaria ele, parafraseando um passagem lida nas orelhas de um livro sobre Erza Pound.

E a casa selou um primeiro acordo entre os dois que geralmente se desencontravam nas opiniões. A casa como idéia, um construto por hora apenas mental.

Escrito por Jiló às 14h02
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Tempo parte 3

Havia nos nos entantos, havia nos poréns novos elementos. E estes novos elementos fizeram com que o mais novo se chocasse profundamente, fizeram com que se sentisse até ofendido.

Diferente do choque de 15 anos atrás, diferente de tudo o que se referisse ao rapaz idealista e, no entanto, inexperiente quanto a visão de pobrezas mais enraizadas, agora o choque beirava a indignação de um moralista.

Foi tudo uma grande tristeza: a casa, o outro morador, um senhor que emitia com a língua presa fonemas imprecisos em meio à chuva que teimava em cair ininterruptamente, misturado ao cheiro de pamonha enjoativa, preparada pela dona da casa.

 Ao ser apresentado, com demasiado cuidado pelo mais velho à dona da casa, esta lhe pareceu constituída de vícios. Como se a estrutura corporal de seu corpo de 60 anos fosse feita de decisões erradas e desvios de caminhos ao longo da vida.

Ela, uma senhora viúva, que se viu obrigada a alugar parte do casarão para melhorar a sua renda.

“Mas você é de São Paulo?”, abriu e dilatou ao máximo os olhos, teatralmente. “Sabe eu nunca consegui me acostumar com aquela cidade. Tenho uma sobrinha linda que mora lá!” Disse com tanta ênfase e tanta intimidade que a sobrinha parecia estar em algum canto do casarão, pronta a ser apresentada. “Ela está muito bem empregada, trabalhando numa multinacional!” Depois, via método enumerativo, ele veio a descobrir que a todas as primas e sobrinhas a viúva se referia como lindas a altas. “A minha prima é tão linda, tens uns pernão!...” arregalava os olhos, admirada com a encarnação da beleza da prima para depois espantar uma das incontáveis moscas que voavam pelo quintal.

Escrito por Jiló às 13h56
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