Quando ficaram a sós, conversaram banalidades.
Vez em quando o mais velho suspirava, sem nunca esclarecer os motivos dos suspiros. Estes permaneciam como enigmas, como a parte da reserva inviolada.
O diálogo e seu conteúdo se modificavam como os cadernos de jornais. O hábito excessivo do mais velho em ler jornais, tornara a sua mente organizada por seções.
Acharam, acordo tácito, mais conveniente conduzir a conversa por essa via, preencher as entrelinhas e entre seções com alguma passagem curiosa da biografia individual que cada um trazia tão desleixadamente guardada. Momentos esses que acabaram se revelando como os mais propensos ao riso e às ironias de diversas espessuras.
Mesmo sem nem terem avaliado ou feito um balanço de suas vidas ao longo dos anos de lacunas, perceberam que pouca coisa havia ocorrido.
Os dois permaneciam milagrosamente quase à margem da contingência, se comparada a outras vidas.
“E as novidades?“, o mais velho sempre tomava a iniciativa de perguntar ao mais novo.
“Ah...”, silêncio acompanhado de suspiro, este sem enigma, sem mistério, porque transparecia clara e nitidamente a reação de tédio com a pergunta.
Logo após as reticências, que se tornavam cada vez mais longas, vinha uma lista de acontecimentos pouco expressivos. E por fim o mais novo, língua de fora, rendia-se e terminava por dizer: “É ... poucas novidades.”
O mais velho, na entre seção de Luís Nassif e Bernardo Carvalho, comentou, de passagem, que finalmente conseguira comprar um terreno para construir a sua casa. “Já era tempo”, disse como querendo dizer, “já passou do tempo, o tempo perdido em hesitações sem causa; se eu não comprasse agora só me restaria o terreno sob medida da cova rasa.”
“Novidade! Que bela novidade! Você finalmente adquiriu um bem! Teu terreno. Acho essa compra simbólica de novos tempos, novos ventos, brisa que sopra em tua face de pedra, chuva para irrigar tua árida expressão!” O mais novo não disse todo o parágrafo. As palavras expressivas ficaram presas entre a garganta e a vontade contida por um freio da consciência que dizia: “ele não quer que você o cumprimente efusivamente; e dispensa alusões a novos ventos e outros vendavais, pois é destituído de arroubos que inclinam as pessoas a demarcarem fases marcantes em suas vidas e acabará por achá-lo tolo”
Então ele disse firme e naturalmente: “Estou muito feliz por você!”
Cumprimento banal e dentro do contexto, porque o mais velho, para surpresa do mais novo, contou sobre a compra do terreno de forma igualmente banal, uma simples comunicação protocolar ao seu amigo: “Eu adquiri no mês de outubro de 2003, aos 49 anos de idade, início da fase crepuscular de minha vida, um terreno nos limites da cidade afim de construir uma pequena casa...”
“Que será teu refúgio contra o mundo inimigo”, complementaria ele, parafraseando um passagem lida nas orelhas de um livro sobre Erza Pound.
E a casa selou um primeiro acordo entre os dois que geralmente se desencontravam nas opiniões. A casa como idéia, um construto por hora apenas mental.


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