À noite foram a um barzinho repor as memórias afetivas-etílicas em dia. Bebedores comedidos num ambiente jovial-festivo.
Pediram cerveja e cada qual exibia um cálice de pinga do alambique. Diante da multidão de jovens recém-saídos da adolescência, os dois permaneciam numa ilha. O mais novo ainda tentou captar nos olhos do garçom, um desses jovens universitários recrutados para barzinhos descolados como aqueles) a nascente e o indício de que os dois representavam uma sexualidade ambígua. Desistiu logo, com o álcool subindo e descendo em suas veias e em seu sangue.
Duas mulheres ocupavam a mesa ao lado. Mais maduras do que a média de freqüentadores do bar. Olhou-as e, para além do formato irregular de seus corpos, a mais moça, de barriga pronunciada, lhe pareceu atraente com o seu protótipo de beleza pouco ortodoxo.
O mais novo foi tomado por lirismo-nostalgia-saudade e outras exacerbações que produziam reações epidérmicas. As mínimas exacerbações eram como fios de diversas espessuras que vão formando um tecido cujo motivo são passagens de seu passado. E de repente seu passado encheu-se caudaloso e transbordante. Vazava para o presente. E assim a imunidade, involuntariamente arquitetada contra a corrosão do tempo foi substituída por um estado cambiante. Tudo isso deu-se pela óbvia constatação de que ele tivera uma estória... uma estória de vida e que esta estória tivera teve e tem o seu significado.
Olhou o mais velho, achou-o muito conservado, controlado, realista... resolveu provocá-lo. “Olhas só duas mulheres lindas na mesa ao lado!!”
“Mas você já está bêbado”, rosnou o mais velho. "Ah meu Deus do céu, eu não vou levar ninguém nesse estado pro hotel!" Eles riram, um riso frouxo e envolto pelo tempo.


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