Não me toque, não me toque, pelo menos por enquanto, foi a minha primeira reação. Ele disse que sabia esperar pela sua hora. Tinha pressa que dissesse sim, mas controlava-se.
Não sei se foi o hambúrguer ou o molho de tomate agridoce que comi no jantar a causa do mal estar. E ainda por cima, teve a porção de batata frita e a caipirinha. O estômago virado pelo avesso que nem a minha cabeça. Um mal estar que se iniciou desde aquele fim de tarde morno, como se um fugitivo tivesse confessado um terrível crime no lugar de uma ansiada confissão amorosa.
Não dava para encará-lo completamente, vê-lo com o meu olhar duro, sem marcas de indecisão, sem inseguranças.
Mas eu disse não. Saiu como um jato de água fria, sem emoção. O primeiro não foi um não me toque. Diante da insistência, eu disse: “Não me toque com essas mãos nojentas.” Ele se assustou, dava para ver a camisa em desalinho, dava para ouvir palavras que saíam desordenadas de sua boca. Ingratidão, desconsideração, sonhos desfeitos. E as tardes em Sevilha, e a flor em meu cabelo, e os carinhos que ele faria em meu rosto, em minha nuca, e os filhos que nós teríamos, e a casinha construída à beira mar, num lugar perdido no Nordeste, e as tardes quentes, suavizadas pela brisa marítima, em algum ponto perdido entre o litoral da Bahia ou de Pernambuco.... Sim, era tudo o que ele desejava na vida. Simplicidade e afirmação, duas palavras mágicas que ele soltou. Diga sim, ele ainda em desespero me implorou. Um sorriso é sinal de assentimento. Uma luz que penetra em direção ao seu rosto é sinal de assentimento da natureza. O universo inteiro conspira para que você diga sim, meu amor, sim eu te amo...
Não, não e não. Eu tive de repetir à exaustão, quase aos berros para cortar a sua fala mole, o seu papo furado. À medida que ele falava, parecia que a sua língua solta soltava tentáculos sobre mim e o pobre diabo não sabia ou queria fingir que não sabia, como ele estava sendo invasivo, tolo, etc...


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