Cochichos e Relaxos


12/06/2004


Dizer não - parte 2

Não me toque, não me toque, pelo menos por enquanto, foi a minha primeira reação. Ele disse que sabia esperar pela sua hora. Tinha pressa que dissesse sim, mas controlava-se.

            Não sei se foi o hambúrguer ou o molho de tomate agridoce que comi no jantar a causa do mal estar. E ainda por cima, teve a porção de batata frita e a caipirinha. O estômago virado pelo avesso que nem a minha cabeça. Um mal estar que se iniciou desde aquele fim de tarde morno, como se um fugitivo tivesse confessado um terrível crime no lugar de uma ansiada confissão amorosa.

Não dava para encará-lo completamente, vê-lo com o meu olhar duro, sem marcas de indecisão, sem inseguranças.

Mas eu disse não. Saiu como um jato de água fria, sem emoção. O primeiro não foi um não me toque. Diante da insistência, eu disse: “Não me toque com essas mãos nojentas.” Ele se assustou, dava para ver a camisa em desalinho, dava para ouvir palavras que saíam desordenadas de sua boca. Ingratidão, desconsideração, sonhos desfeitos. E as tardes em Sevilha, e a flor em meu cabelo, e os carinhos que ele faria em meu rosto, em minha nuca, e os filhos que nós teríamos, e a casinha construída à beira mar, num lugar perdido no Nordeste, e as tardes quentes, suavizadas pela brisa marítima, em algum ponto perdido entre o litoral da Bahia ou de Pernambuco.... Sim, era tudo o que ele desejava na vida. Simplicidade e afirmação, duas palavras mágicas que ele soltou. Diga sim, ele ainda em desespero me implorou. Um sorriso é sinal de assentimento. Uma luz que penetra em direção ao seu rosto é sinal de assentimento da natureza. O universo inteiro conspira para que você diga sim, meu amor, sim eu te amo...

 

Não, não e não. Eu tive de repetir à exaustão, quase aos berros para cortar a sua fala mole, o seu papo furado. À medida que ele falava, parecia que a sua língua solta soltava tentáculos sobre mim e o pobre diabo não sabia ou queria fingir que não sabia, como ele estava sendo invasivo, tolo, etc...

Escrito por Jiló às 19h24
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Dizer não

E porque não dizer talvez ou não. Sim, por que se recusar a dizer não. Nessa manhã ele veio, meio aos trancos, aproximando-se de mim, com o seu passo de urso desajeitado. E eu já senti aquele perfume azedo colado em sua pele, fragância de homem desleixado. Andei apressada fingindo não vê-lo, mas aí ele percebeu, precipitou-se sobre mim... Ah, uma sensação desagradável, sentir as mãos grossas enlaçando a minha cintura. O rosto severo e de censura, dispensou as palavras. As minhas palavras. As dele não. Amor, ele dizia ter amor por mim, que era capaz de encher o universo inteiro só com o meu nome. Não aguentava mais esconder esse sentimento de mim, pois tinha certeza de que seria correspondido. Almas gêmeas, vidas passadas, comunhão de vontades. Sim, ele tinha certeza de receber um solene, contido e ao mesmo tempo emocionado sim. Sim porque ele sabia reconhecer quando também era correspondido; sim porque ele sabia distinguir um grande amor de uma paixão fugaz; sim porque a sua intuição dizia que ele estava certo em me pedir em casamento. E as manhãs que nós nos cruzávamos, apressados, dentro do elevador, um mar de gente sem rosto que nunca se cumprimentava, ele lembrava. A única pessoa que o cumprimentava era eu. Não era por mera educação, segundo ele, que eu fazia isso. O meu ato não era simples negação, mas afirmação, assentimento. E depois a troca de sorrisos. Sim, ele continuava afirmando, num jorro só, quase perdendo o fôlego, um avassalador número de sins. Eu não conseguia mais identificar a diferença entre os sins. Deveriam ser todos iguais. O Sol forte da tarde provocava-me sonolência. Ele, ao contrário, estava excitado. O seu desejo dizia sim, eu estou presente, as suas angústias, os seus medos também diziam sim. Eu estava praticamente prensada contra a parede. As tardes maravilhosas passadas em Sevilha em pleno verão espanhol, os dois de mãos dadas, projetadas pela sua imaginação delirante. Esperava que o mundo assentisse e aprovasse a sua escolha. Os turistas, com suas folgadas e ridículas bermudas, ficariam com inveja daquele homem de braços dados com uma linda mulher....

Escrito por Jiló às 19h22
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06/06/2004


Fome!

I'm a hungry men
Tenho fome de palavras, de sons, de letras impressas na tela de minha memória.
Tenho fome da nostalgia insana que as palavras me trazem.
Assim como quem devora um prato de finas iguarias, eu anseio pela boa nova: um cardápio completo de sons, formas e novas angulações.
I'm a hungry men, insaciable.
Sem nexo, sem aplexo, a tudo devora.
A mesma sede do tauregue que vaga pelo deserto.
A água-palavra-espelho-significado sorvo-a: necessária, fuida, renovada.
I'm a thrsty men

Escrito por Jiló às 13h33
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