Cochichos e Relaxos


06/11/2004


crônicas: rua Augusta parte 9

Acho que eram nestes instantes que algo titubeava, que eu podia testemunhar a expressão de pedra se dissolvendo.

Esses instantes eu costumei depois chamá-los de picos aproximativos.

-E a sua companheira professor, tudo bem com ela?

-Ah ela vai muito bem meu querido.

Nesses momentos sentia brisa sendo lançada em minha direção.

-Gosto da cumplicidade que há entre vocês, disse encarando-o no fundo dos olhos castanho-gastos.

Pensei que era um comentário bonito sem ser piegas, e projetei entre os dois uma relação plácida sem ser imóvel e contemplativa. Lá estava eu tentando mais uma vez fazer meus malabarismos verbais, justificáveis quando quero uma trégua, quando quero apaziguar nossas discussões. E sobretudo quando quero convergir tudo em um ponto. O exato ponto de ser melancólico-otimista-depressivo-feliz-lúdico.

“Meu querido”, ele começou e, titubeante, fez um breve silêncio. Quis entrever uma lagrima em seu rosto, mas as emoções não são apenas sinais gráficos produzidos pelo corpo. “Meu querido”, retomou o fôlego, “é verdade. Você tem sensibilidade meu rapaz. A nossa vida é normal, íntegra. Ela é firme e ao mesmo tempo muito amorosa. Eu a conheci no primeiro ano de faculdade.. Aquela efervescência estudantil, muita repressão. O Jamil Murad que nos apresentou...”

Sentia pinceladas enquanto ele falava sobre a companheira, como se estivesse pintando uma tela que é a sua própria vida. Pintor e obra se amalgamavam de um tal forma que depois se confundiam..

Traços lúdicos de um Marc Chagall. Ao final visualizei violonista no telhado. Louco surrealista, lúdico, íntegro... quantos adjetivos a serem expressos!

O professor e sua companheira no telhado, tocando acordes, tecendo melodias na noite luminosa, mais luminosidade que paraíso algum pode conter.

Escrito por Jiló às 12h17
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crônicas: rua Augusta parte 8

-Vem cá Milton, chamou o professor, por favor preencha o cheque pra mim sim?

Milton, funcionário do bar Minas Gerais, simpático como poucos, atravessava cidade pra vir trabalhar na movimentada esquina. Assim o chamavam: Milton, mas poderia ser qualquer nome. Milton inerente ao bar Minas Gerais.

Tudo chamava à boemia, mesmo que ela não mais prestasse e que a madrugada só trouxesse violência e dor. Percebi o foco de poderosa atração exercida pelo bar e mais propriamente por aquela esquina.

-O Milton é meu camarada, ele já esteve várias vezes em minha casa. Eu confio mais nele que em alguns conhecidos. Estou não sóbrio demais para preencher o cheque...

-Ah deixa eu assinar agora Milton!

-Pronto, aqui o seu cheque e me vê mais uma cerveja bem gelada viu? Encarava o gerente com um olhar desafiador infantil.

Foi muito teatral porque exagerado, acentuado em gestos, verbalizações e caretas por algo minúsculo.

O velho professor, o gerente sabia, era uma pessoa confiável. Chata, mas confiável. Assim como o velho professor sabia que o gerente da madrugada aturava as suas manias e os seus contra sensos. Sim, porque havia no velho professor vários delírios noturnos.

Escrito por Jiló às 12h16
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crônicas: rua Augusta parte 7

-Olha eu freqüento o bar do Comarca há anos e anos, brandia dedo em riste na direção do gerente que dava de costas. Eu pago as minhas contas em outro dia, penduro porque eles sabem que podem confiar em mim. Até levar para a minha casa eles já me levaram. Agora você parecia uma bicha ontem! Ficava berrando com voz fininha e sacudindo os braços: ‘mas não é possível, quero o senhor longe daqui!’ O que você tem contra mim?  Pois bem, vim pagar o resto que eu devo, apesar do escândalo abicharado que você fez ontem.

Era uma batalha verbal contra uma batalha facial. Enquanto o velho professor destilava seus impropérios, o gerente fazia caretas, embora se mantivesse calmo. Aquilo era um jogo, uma encenação que perdia a graça à medida que o diálogo caretas-verbal se esticava desnecessariamente.

-Pois saiba seu gerente que eu sou um homem inteiro, íntegro, vem uma criança, um pedinte de rua eu pago a refeição dele porque eu tenho consciência social e tenho responsabilidade sim!

-Portanto não mereço ser tratado dessa forma, eu um velho militante, entendeu? Eu não mereço ser tratado como um moleque qualquer. E tem mais, a estória desse bar é muito maior que o senhor. E trate melhor os seus freqüentadores.

-35 reais, o gerente disse, sem qualquer comentário.

-35 menos 10 que o senhor me extorquiu ontem.

-Com os 10 dariam 45! E eu só pedi o dinheiro, que negócio é esse de extorsão?

A partir daí foram só ruminações de ambas as partes.

Escrito por Jiló às 12h05
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crônicas: rua Augusta parte 6

Breve silêncio.

“Ah chegou!”

Os olhos dele se arregalaram, 23 horas marcava o relógio do bar Minas Gerais. O bar 24 horas estava trocando de turno os seus funcionários. No dia anterior uma confusão se instalará no bar, quando o professor dizia ter sido extorquido e maltratado pelo gerente da madrugada.

“Escute aqui, pra começar não vou te chamar de meu querido porque você não merece!”, dirigia-se indignado ao gerente que acabava de chegar ao bar.

-Eu  quero uma retratação do que aconteceu ontem! Eu, um assíduo frequentador desse bar! Eu sou morador dessa região a mais de 30 anos!

E a estória de vida começava a ser encenada. Ele, o professor, um dos últimos focos de integridade, genuíno fruto do bairro da Consolação estava a recordar parte da sua estória.

O gerente da madrugada esboçou uma careta.

Escrito por Jiló às 12h05
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crônicas: rua Augusta parte 5

“E hoje meu querido! Que barbaridade ta acontecendo nas escolas!”

“Hoje a escola está uma merda. Imagine que outro dia um aluno ameaçou a professora com um revólver na sala de aula! Mas é o fim da picada! Também ela ficou xingando o moleque... Não sabe tratar mais com eles, não existe respeito de ambas as partes. Não entende nada de desigualdade social, não entende patavinas de responsabilidade do educador. Tá tudo virado do avesso.”

“Comigo não acontece essas coisas meu querido. Tem ex-alunos meus que passam de carro, me vêem nesse bar e param pra me cumprimentar. Pessoas de 30 a 34 anos, descem do carro e :’Ô professor!!!E vem me agradecer pelo que eu fiz por eles’”

-Mas você não odeia que eles te chamem de professor?”

-Ah deixe de ser implicante meu rapaz.!!! São meus queridos que vem me cumprimentar, pois eu lhe dei o bem mais precioso da vida: o conhecimento!!!

Nós somos o que há de mais importante na sociedade. E você sabe disso!”

-Mas a gente tem de sobreviver né professor? Estou atrás de dinheiro, sempre atrás de dinheiro ultimamente.

-Pára com isso meu querido. Depois de velho tá ficando burro? Deixe isso pra lá....

Quando se zangava comigo, mudava de tratamento...chamando-me de velho.

Escrito por Jiló às 12h03
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crônicas: rua Augusta parte 4

Confesso que a visualização de um velhinho ativo foi comovente. Ali havia sangue correndo nas veias, sangue caudaloso, rio que nunca se contém. Fechei um pouco os olhos procurando projetar o professor na sua juventude.

“Pois é professor... uma vida de luta...”

“Sim, uma vida de luta e por isso belíssima de ser vivida. Deixe-me contar um pouco sobre minha juventude.” Parecia que ele tinha lido o meu pensamento.

Descrevia os passeios pelo bairro da liberdade, lirismo a seu modo.

“Sabe meu querido, adoro passear pelo bairro da Liberdade, visitar as igrejas que tem por lá. Apesar de gnóstico sei o valor que elas tem e sei como o capitalismo destruiu a maior parte do que existia até a década de 70.”

“Aliás, destruiu tudo!!! Os meus colegas onde estão? Eu sou da época da Marilena Chaui, do colégio Roseveelt, conheci o ex-marido dela que dava curso de parapiscologia de graça...”

Sorri: “é por isso que ela se separou do marido não professor?”

“Mas será o Benedito!!! Ela só quer saber de ficar em Paris... É Paris pra cá Paris pra lá. E tem outra coisa, eles viviam me convidando pra fazer mestrado na UNICAMP. Mestrado do que porra?

Pega-se um assuntinho e ficam enchendo lingüiça, pelo amor de Deus né meu querido. Coisa mais sem sentido.”

Gostava de juntar todas as suas crenças e não crenças numa única expressão. Assim era impossível não se espantar quando evocava Deus para auxiliar as suas idéias.

Escrito por Jiló às 12h02
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31/10/2004


crônicas: rua Augusta parte 3

Ele era dessa forma exata quando bêbabo e quando sóbrio.Permanecia como se fosse uma consciência de pedra, que é alterada lentamente com a erosão do tempo. Tinha tudo na ponta da língua, tinha suas idéias, seus valores, sua modesta forma de viver.

Naquela noite portava uma pasta de plástico transparente. No seu interior vi um folheto da Apeoesp. “Posso vê-la professor?” Acentuei a palavra professor. Outra provocação! E eu adorava provocá-lo.

“Mas meu querido eu já disse que sou educador, esse negócio de professor é muito pequeno burguês. Tá querendo me provocar? Aonde esse papo furado nos levará?”

Aí deu uma crise nele, as desconfianças fanstasmagóricas que lhe vêem à mente de algum ponto não identificado: “Para onde você quer conduzir o nosso papo?”, eis uma pergunta reincidente nos seus picos de desconfiança.

“Não quero conduzi-lo a lugar nenhum, além disso, o senhor está implicitamente evocando causas finais, uma atitude tipicamente cristã!”, rebati na hora. Aliás, as nossas conversas se assemelhavam a um jogo de ping-pong.

Parou e pensou, acho que ele sempre de alguma forma se surpreendia comigo. Tocava na visão cristã do mundo, coisa que ele obviamente detestava. Um torniquete retórico eu sei, pura apelação da minha parte. Mas aqui, nas conversas botequinescas, frouxas associações se fazem passar por conexões necessárias.

“Tem razão... tem razão...”, assentiu vencido.

“E o folheto professor? parece que é o senhor quem quer desviar do assunto.”

“Ah sim nós vamos fazer um protesto em frente ao MASP, inclusive vou deixar de viajar para o sítio, só por causa do protesto. Nós somos oposição a atual diretoria da Apeoesp, que está atrelada ao estado. Vou lá fazer o protesto em solidariedade aos companheiros que lutam por condições dignas de trabalho.”

“Muito bem educador à luta!!!”

“A luta não cessa garoto, você ainda vai me ver um velhinho ativo, até os fins de meus dias aqui nesse planeta eu estarei lutando sempre bela boa causa, pela causa justa, pelo socialismo!”

Escrito por Jiló às 13h04
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crônicas: rua Augusta parte 2

Sei que ele entra no tradicional colégio Santa Cruz com a cabeça erguida, ultrapassa os corredores com a mesma segurança e familiaridade com que atravessa os caminhos sinuosos do bar Minas Gerais. Apesar dos contrários, os professores e alguns desafetos do bar MG, as suas convicções jamais se curvarão às mesquinharias de qualquer espécie. Sinal de personalidade forte e por vezes intempestiva. Ele compartilha e distribui a militância com generosidade. Quem quiser que capte a sua mensagem.

“Mas meu querido: o imperialismo americano....”

E a sua esposa como está? Acentuo provocativamente “esposa”.

A resposta é imediata: “Mas que esposa meu querido, esposa é sinônimo de propriedade, assim como mulher, eu tenho é uma companheira... E abaixo a propriedade, inclusive a propriedade senhorial nas relações homem-mulher. Meu querido parece que você não entende, você tem muito o que aprender. Apresse-se porque você não é mais nenhum garoto”.

Escrito por Jiló às 13h02
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crônicas : rua Augusta parte 1

Ainda haveria em minha memória os últimos suspiros das minhas convicções de um passado agora distante.

Essas convicções encarnavam-se num velho marxista militante ortodoxo perambulando pelas entranhas da rua Augusta, onde álcool, tabaco and sex and drugs and música barata e ordinária se misturam.

Era como se parte de minha consciência adolescente se projetasse para fora e encarnasse no velho professor. O afetuoso e ao mesmo tempo explosivo velho professor.

O velho professor de cabelos brancos e desgrenhados, passos saltimbancos.

Sempre que me vê, vem ao meu encontro: “Oh meu querido!” Fala com intimidade. Gosto dessa sensação de proximidade. Lembra-me de ilusões perdidas e nunca mais recuperadas. Um afeto quase paternal salta de seu cumprimento.

Também me alegra e traz algum alento suas convicções socialistas. “Eu continuo comunista!” É assim que ele fala. Me pergunto quantos existirão ainda na face da terra, quantas cabeças titubeantes pelo andar da estória ainda permanecerão na sua ingenuidade pura.

Ele enfrenta o tempo inclemente da estória com decência e altivez, como se fosse uma resistência à sua velhice. O tempo não pode existir como um agente corrosivo para ele, o tempo é algo besta que deve ser ignorado tal como um ser desprezível. Mas há ainda um charme decadente, que se projeta na sua barriga protuberante e sua forma heterodoxa de combinar as manias de um velho militante com o alcoolismo de um bukowyski. “O tempo é hoje e os médicos são umas bestas”, sentencia sem cerimônia.

Escrito por Jiló às 13h00
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