Acho que eram nestes instantes que algo titubeava, que eu podia testemunhar a expressão de pedra se dissolvendo.
Esses instantes eu costumei depois chamá-los de picos aproximativos.
-E a sua companheira professor, tudo bem com ela?
-Ah ela vai muito bem meu querido.
Nesses momentos sentia brisa sendo lançada em minha direção.
-Gosto da cumplicidade que há entre vocês, disse encarando-o no fundo dos olhos castanho-gastos.
Pensei que era um comentário bonito sem ser piegas, e projetei entre os dois uma relação plácida sem ser imóvel e contemplativa. Lá estava eu tentando mais uma vez fazer meus malabarismos verbais, justificáveis quando quero uma trégua, quando quero apaziguar nossas discussões. E sobretudo quando quero convergir tudo em um ponto. O exato ponto de ser melancólico-otimista-depressivo-feliz-lúdico.
“Meu querido”, ele começou e, titubeante, fez um breve silêncio. Quis entrever uma lagrima em seu rosto, mas as emoções não são apenas sinais gráficos produzidos pelo corpo. “Meu querido”, retomou o fôlego, “é verdade. Você tem sensibilidade meu rapaz. A nossa vida é normal, íntegra. Ela é firme e ao mesmo tempo muito amorosa. Eu a conheci no primeiro ano de faculdade.. Aquela efervescência estudantil, muita repressão. O Jamil Murad que nos apresentou...”
Sentia pinceladas enquanto ele falava sobre a companheira, como se estivesse pintando uma tela que é a sua própria vida. Pintor e obra se amalgamavam de um tal forma que depois se confundiam..
Traços lúdicos de um Marc Chagall. Ao final visualizei violonista no telhado. Louco surrealista, lúdico, íntegro... quantos adjetivos a serem expressos!
O professor e sua companheira no telhado, tocando acordes, tecendo melodias na noite luminosa, mais luminosidade que paraíso algum pode conter.


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