cena 1:
ambiente: um bar, eufemismo pra boteco, (mas sempre será um bar???)
circunstâncias sociais: dois funcionários públicos: um rapaz e uma senhora ( mas poderia ser também de empresa privada, pois nossa tese suporta essas variantes) saídos de seu trabalho.
comportamento: bem aí começa a nossa estória.
Um hábito, ou vício como prefiram chamar, é que os dois amigos encontravam-se regularmente no mesmo bar.
Um deles chamou um engraxate, um desses moleques de rua. No meio do lustre dado no primeiro sapato foi interompido pelo atendente do bar.
-É proibido engraxar o sapato aqui neste bar!
Tentou expulsar o menino que, sem graça, ficou sem ação.
-Mas ele está aqui porque eu o chamei meu senhor, portanto ele vai concluir sim o serviço dele.
-Mas compreendam... é para o melhor funcionamento do bar...
-Não senhor, ele vai continuar aqui!!!, o rapaz irritado já dava mais sinais de insatisfação extrema.
Senti o tom de desprezo com que olhou para o atendente do bar. Este retirou-se para atender outros fregueses.
-Mas olha só que audácia? É muita ignorância não? Deixam um monte de gente, pedintes entrarem aqui,
deixam bêbados vagabundos ficarem sentados, enrolando numa cerveja... E o rapaz que tenta ganhar
honestamente o seu dinheiro, que teve e tem muita dificuldade de sobreviver na vida, eles vêm e impedem.
-É muita ignorância desses atendentes, disse a senhora.
-O que..? é muita audácia deles, nós gastamos aqui, e eles nos tratam dessa forma.
-Sabe..., disse o rapaz, olhando em minha direção como quem olha pra uma câmera de televisão.
-É preciso que nossos valores sejam revistos, os valores da sociedade brasileira. Esse engraxate esforça-se tanto para ter uma vida digna, ele está ganhando o seu dinheiro ho-nes-ta-men-te repito e não o deixam trabalhar! Não o respeitam, e dão espaço no bar pra um bando de vagabundos que não trabalham, que vivem pedindo dinheiro.
Aí eu me lembrei que no mesmo bar, diante de um pedinte, me disseram que dinheiro era o câncer da humanidade. Estranha associação: dinheiro e câncer. Associação válida apenas para os pedintes, of course!
A pessoa que disse essa pérola era um homem classe média, critaivo e original. Afinal são todos criativos originais e íntegros como o rapaz que está à minha frente alinhavando um discurso "social".
Crispei os olhos nele e meu silêncio denunciou desdém. Como estava diante de uma câmera imaginária de tevê, o rapaz de porte pretensamente nobre nada disse.
-E tem mais estamos numa sociedade capitalista, eis a palavra chave dita com a boca cheia pela rapaz,
se não formos bem atendidos mudamos de bar, tem inúmeros bares nessa região. Olha só como eles nos
tratam, dirigiu-se agora à senhora, que espumava de raiva e demonstrava uma inusitada teimosia infantil.
-Isto aqui é a lei da oferta e procura, olha só como nos tratam, como tratam a quem consome bem.
Então era isto, a lei suprema não pode ser violada. O nosso esgarçado pacto social será sempre
mediado pela lei da oferta e da procura.
Foi essa a intenção do discurso social.
-Meu caro rapaz, pensei e procurei algum pensamento luminoso que desse conta do meu espanto diante do incusitado discurso do rapaz, há muitas outras consequências que eu extairia de sua atitude, de seu discurso oco e vazio.
-Mas sei que isto não lhe interessa porque você só consegue se olhar no espelho, como aquela senhora,
como os milhôes de habitantes que vagam se vagloriando de suas façanhas.
Pra completar, eis a revladora intervenção da senhora.
-Só por essa desfeita, vou comprar tudo quanto é bugiganga que os meninos de rua me oferecerem no bar.


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