Cochichos e Relaxos


06/02/2005


O homem de espírito 2

Manhã chuvosa, meu deus mas essa cidade tá um caos... Toda vez que chove, Nora me pede com insistência
pra mudarmos de vez pra casa de praia em Ubatuba. Mas o que faria lá?
Teria de me deslocar para dar meus cursos e palestras em São Paulo. É longe de Campinas também.
Ela pede que eu diminua o ritmo e continue apenas na minha pesquisa caseira.
Agora tem e-mail, minha filha diz. É muito mais eficiente que as cartas, romances quase epistolares trocadas
entre os filósofos do séc. XVII. Mas eles não entendem que, apesar de todas as vissicitudes, eu me apego a esta cidade, como o velho cão labrador. Foi nela que comecei a minha carreira acadêmica, foi nela que conheci a vida florescer em plena dureza da ditadura militar. Será nela que irei me esconder, que forjarei meu esconderijo quando as minhas forças se esvaírem de vez. É pelas ruas do bairro da Pompéia, que eu não trocaria pelas de Paris, que eu permaneço aqui.
Hoje foi um custo muito grande convencer a minha filha que iria sozinho à Puc.
Eles vêm, se aproximam e me cumprimentam. Cronograma atrasado como sempre. Gentis como sempre. Será por causa da minha velhice?
Antes costumavam ser mais incisivos, provocadores. Hoje estão todos apaziguados com a minha presença. Ao redor há um irrante clima
de tranquilidade.
Eu, como sempre, preparei com todo o rigor a comunicação.
Vou entrar no auditório, tomar o meu assento e ver a platéia bocejante com o calor do verão e com o
assunto de minha comunicação. Mas há tempos me pergunto por que eles vêm, por que se aborrecem em me
ouvir?
É necessário a parte árida para que se possa alcançar a satisfação do conhecimento, já me disseram vários alunos.
Mas se eles não enlaçam o que eu digo com a vida, qual a utilidade de tudo isto???
Acho que estou ficando utilitarista, riso frouxo. Final de vida e no lugar do cético eles terão de aturar um
utilitarista. É perciso fazer as coisas necessárias antes que tudo se finde.
Vai começar daqui a vinte minutos? Sim, sim. Vou aproveitar e ir ao banheiro.
Meu rapaz, onde fica o banheiro? Ah sim, obrigado!
Rapaz? Por que o chamei de rapaz? Deve ter lá os seus 35 anos... Sim, comparado a mim ainda é um rapaz.
Na Roma antiga a adolescência terminava aos 33 anos! Hoje ela se prolonga a vida inteira!
Meu neto recém nascido, minha consaguinidade, espero que tenha uma educação boa.
Eu confio na minha filha e no meu genro.
Oh, mas como é desconfortável agora com essa bengala, mijar em pé. Mas é melhor dessa forma.
Não vou perder meu tempo sentando na privada em troca de um pouco de conforto.
E além disso esses cúbiculos tão apertados parecem os parisienses.
Meu neto, sim, e minha comunicação. A comunicação é deles, o neto ao mundo pertencerá. A comunicação viverá o tempo exato dela, perdurará quem sabe, no futuro, a alguma antologia de minhas obras, jazerá no fundo
de alguma biblioteca pública; virá um temporal e alagará a biblioteca, livros serão recuperados, outros
perdidos, minha obra estará literalmente mofada... Mas o que me consola é que meu neto e outros que virão, se
minha filha única assim desejar, viverão e florescerão e germinarão.
Pronto. Vamos à comunicação.   

Escrito por Jiló às 16h47
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O homem de espírito

Ele percorre os longos corredores do quarto andar do novo prédio da faculdade.
Vem em minha direção, quase não o reconheço.
Caminha com dificuldade.Está apoiado sobre uma bengala na mão direita.
Pára a minha frente. Não me reconhece, evidentemente. Espantoso se me reconhecesse,
dez anos depois do curso de pós na faculdade de filosofia.
Pergunta-me onde fica o banheiro. Mostro o caminho. Sei que não preciso amapará-lo.
Apesar da bengala, que lhe dá um ar de fragilidade, ele ainda tem a fisionomia robusta.
Uma coisa tão prosaica, ir ao banheiro, urinar. Mas por que urinar é prosaico?
Urinar é necessário, uma necessidade vindo de nosso corpo.
Ele está preso ao seu corpo, penso, o homem de espírito, como eu costumava evocar a sua figura
de pensador andante. Parecia estar sempre caminhando, de um lado a outro no campus da outra faculdade.
Bom para exercitar o pensamento tanto quanto o corpo.
Mas exercitar o pensamento tinha a sua precedência sobre os músculos.
Está em seu final de vida, ou de ciclo, se pensarmos num tempo cíclico como os gregos.
Ele que é tão apegado aos gregos, poderia evocar ciclos e postular quem sabe um novo recomeço
onde tudo seria novamente intenso!
Sim, ele é um homem de espírito e ao espírito a intensidade sempre acompanha.

O que pensa um homem de espírito quando se depara com a proximidade do fim
de sua vida?
Encara com serenidade ou sente-se presa de inquietações enquanto pousa placidademnte os seus braços
na confortável poltrona de seu apartamento.
Mas com tanta metafísica, não posso deixar de pensar na imagem do homem de espírito entrando no banheiro, imerso na nossa mais prosaica contingência: urinar! 

Escrito por Jiló às 12h25
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