Manhã chuvosa, meu deus mas essa cidade tá um caos... Toda vez que chove, Nora me pede com insistência
pra mudarmos de vez pra casa de praia em Ubatuba. Mas o que faria lá?
Teria de me deslocar para dar meus cursos e palestras em São Paulo. É longe de Campinas também.
Ela pede que eu diminua o ritmo e continue apenas na minha pesquisa caseira.
Agora tem e-mail, minha filha diz. É muito mais eficiente que as cartas, romances quase epistolares trocadas
entre os filósofos do séc. XVII. Mas eles não entendem que, apesar de todas as vissicitudes, eu me apego a esta cidade, como o velho cão labrador. Foi nela que comecei a minha carreira acadêmica, foi nela que conheci a vida florescer em plena dureza da ditadura militar. Será nela que irei me esconder, que forjarei meu esconderijo quando as minhas forças se esvaírem de vez. É pelas ruas do bairro da Pompéia, que eu não trocaria pelas de Paris, que eu permaneço aqui.
Hoje foi um custo muito grande convencer a minha filha que iria sozinho à Puc.
Eles vêm, se aproximam e me cumprimentam. Cronograma atrasado como sempre. Gentis como sempre. Será por causa da minha velhice?
Antes costumavam ser mais incisivos, provocadores. Hoje estão todos apaziguados com a minha presença. Ao redor há um irrante clima
de tranquilidade.
Eu, como sempre, preparei com todo o rigor a comunicação.
Vou entrar no auditório, tomar o meu assento e ver a platéia bocejante com o calor do verão e com o
assunto de minha comunicação. Mas há tempos me pergunto por que eles vêm, por que se aborrecem em me
ouvir?
É necessário a parte árida para que se possa alcançar a satisfação do conhecimento, já me disseram vários alunos.
Mas se eles não enlaçam o que eu digo com a vida, qual a utilidade de tudo isto???
Acho que estou ficando utilitarista, riso frouxo. Final de vida e no lugar do cético eles terão de aturar um
utilitarista. É perciso fazer as coisas necessárias antes que tudo se finde.
Vai começar daqui a vinte minutos? Sim, sim. Vou aproveitar e ir ao banheiro.
Meu rapaz, onde fica o banheiro? Ah sim, obrigado!
Rapaz? Por que o chamei de rapaz? Deve ter lá os seus 35 anos... Sim, comparado a mim ainda é um rapaz.
Na Roma antiga a adolescência terminava aos 33 anos! Hoje ela se prolonga a vida inteira!
Meu neto recém nascido, minha consaguinidade, espero que tenha uma educação boa.
Eu confio na minha filha e no meu genro.
Oh, mas como é desconfortável agora com essa bengala, mijar em pé. Mas é melhor dessa forma.
Não vou perder meu tempo sentando na privada em troca de um pouco de conforto.
E além disso esses cúbiculos tão apertados parecem os parisienses.
Meu neto, sim, e minha comunicação. A comunicação é deles, o neto ao mundo pertencerá. A comunicação viverá o tempo exato dela, perdurará quem sabe, no futuro, a alguma antologia de minhas obras, jazerá no fundo
de alguma biblioteca pública; virá um temporal e alagará a biblioteca, livros serão recuperados, outros
perdidos, minha obra estará literalmente mofada... Mas o que me consola é que meu neto e outros que virão, se
minha filha única assim desejar, viverão e florescerão e germinarão.
Pronto. Vamos à comunicação.


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