A porta do teatro foi fechada
O mundo entra como um turbilhão, por mais que você erga muralhas
Não há espaço para o vazio e o silêncio
O único lugar seguro é o útero da mãe
Quente úmido e absolutamente confortável
Fora dele é só dor, rancor e amargor
Ele bebe em meio a camaradas alegres
O álcool convida à celebração
O álcool caí e corre sob a calçada
Não há horizonte
Ou melhor, o horizonte afunila a tua visão
Ou melhor, o horizonte aniquila o teu sonho
Mas ainda resta a dor, e a dor é o sonho de tua alma dilacerada
Eu o vejo sob a luz do mercúrio
O espetáculo teatral findou há pouco
E o outro espetáculo findará ao pôr-do-sol
Não é uma peça na verdade, é um recorte da vida,
feito com tesoura de pontas arredondadas em um papel
de jornal amassado.
Silêncio na platéia: o dramaturgo, artífice e demiurgo
ainda bebe.


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