Ele avança a meio fio da calçada, como o equilibrista que dispensa a rede e não olha pra baixo. O trânsito é intenso e os carros passam a toda. Ele, simulacro e fantasia de rasta, com seu cabelo a bob marley, desce a pé a consolação e não se importa com os carros.
Eu tenho o impulso de alertá-lo sobre os carros, mas não sei o que se passa com ele. Só quero que saiba que nem todos os carros se desviarão, só quero te dizer, mano malaco, que há motoristas doidos pra te atingir em cheio e seguirem a sua trajetória louca e tranqüila rumo aos seus destinos incertos; só quero dizer que as pessoas não estão nem aí se você tá louco, drogado e com toneladas de fumaça de maconha na cabeça.
Mas no fundo eu sei que você não está nem aí pros meus conselhos, sei que executa uma espécie de dança, uma exibição fatal que combina tanto com essa cidade fatal e maldita. Quando você se for, exaurido de sangue ou mergulhado em seu próprio vômito, as pessoas sérias e idôneas darão graças a deus, erguerão as mãos aos céus e dirão: “mais um que se foi, pena que é mais um no meio dessa multidão que não acaba”. E não acaba mesmo nunca, enquanto a humanidade persistir em existir!


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