Cochichos e Relaxos


21/11/2005


hesitante

Estou sempre hesitando. Uma desculpa para a imobilidade de pedra que no fundo eu tanto almejaria ou a busca pela originalidade exdrúxula da síntese de opostos?
Vida ordenada ou desregrada? vida cultural ou regada à boemia sem eira nem beira?
Eu hesito e o movimento correspondente é o pendular. Portanto, a imobilidade está descartada.
Eu tentei me aproximar, e em certas épocas toquei e me afundei, no submundo boêmio de sampa.
Era e é ainda é um mundo ligado à literatura e álcool e tabaco, pitadas de machismo, mas sem ostentação, porque os tempos são outros, e mesmo o politicamente incorreto merece um toque de verniz civilizado.
Aí em outro pólo tem o mundo dos bem organizados sobreviventes da economia desregulada. É preciso organizar as finanças domésticas,
colocar as contas em dia, se der arranjar uma diversão decente para a família:
sessão de vídeo-game caseiro nos fins de semana ou parada pra comer no Habib´s:
o máximo que se esforçam na aventura da culinária.
Há muitas outras opções tranversais, diagonais nos universos paulistas.
Mas fiquemos com isso, por enquanto.
E por que penso em todas essas coisas? Porque tudo parece sempre fora do lugar.
Fora do lugar também as ruas, que se deslocam através de meus passos incertos.
Desconheço o destino ou o fim da caminhada. Como inconsequente explorador,
desconheçço o que quero; como insensato, desconheço o que me angustia e nela mergulho.
Acabei de ver, quase meia noite, o Mário, como habitualmente
para não dizer sempre, num bar, quase centro de Sampa, bebendo sua cerveja.
Eu me aproximo e não o cumprimento.
Jamais seremos amigos, jamais seremos sequer colegas de alguma aventura fugaz
numa noite qualquer em que o alcóol jorre e nos faça aproximar um do outro.
Para dizer a verdade, ele me incomoda.
Agarra-se a um mundo em vias de desaparecer. Agarra-se e tenta reinventar novas formas de sobreviver.
No fundo ele está apegado a esquemas tanto quanto o seu pólo oposto. É metódico em sua desorganização,cita com demasiada facilidade os seus ídolos e as suas crenças. Tá sempre disposto a despejar, despejar a cólera e o desprezo pelos que tem outros valores que os seus.
Cita tanto Bukowisky que no fundo faz dele uma profissão de fé. Diz que é porque ele tem alma, que tem uma escrita que transborda a vida em cada sentença. Bukowski, enquanto leitor, tinha a mesma crença e por isso detestava os escritores que achava formais demais, que pareciam não ter tesão pela vida, que se perdiam em formalismos vazios. Amava Dotoievisky e ponto final!
Mas por que raios escrevo todas essas coisas?
Por que hesito e, às vezes, me espanto. Mas sempre hesitarei, porque amo as peças do Mário e os escritos do Bukowiski com todas as suas incômodas contradições; porque a vida, se a quisermos por inteira, estranha, meio canastrona, fugaz, feia, contraditória,
não dá espaço pra respirar e é, sobretudo, cafona.

Escrito por Jiló às 16h56
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