Cochichos e Relaxos


10/12/2005


Construções geométricas: a esfera perfeita

Havia uma imagem, projetada sobre mim, enorme e perfeita em sua assepsia: a grande bolha. Parece que sempre esteve no mesmo local e do mesmo tamanho. Foi um desafio lançado a mim, descobrir a sua origem. Dado que a sua origem se perde em tempos imemoriais, fui recuando no tempo e no espaço...fui recuando em meus sentimentos e minhas emoções mais recônditas.

Quem é aquele bebê que chora e esperneia? Quem é aquele bebê, forjado na imaginação, que se debate já inflamado, combustão pura, sobre o sentido de sua vida? Quem é aquele bebê tão ansiosamente aguardado, que contrai as suas faces, revelando desde o nascimento, sem qualquer dissimulação, o lado mais obscuro da ira e da destruição?

O ambiente é selvagem e incômodo. O bebê intui e dispensa mestres ante a terra espinhosa. Há uma dose de selvageria a mais neste mundo. Houve uma luta? Por vezes, acordo com a sensação de que minha cabeça e minhas mãos estão encharcadas de sangue. Eu levo as palmas das mãos até a altura de meus olhos; nelas não há sangue. Mas sei que minha pele tratou de acolher e incorporar o sangue, porque houve enfim e decididamente uma luta. Foi a luta pela sobrevivência. Eu não estava sozinho, não era uma luta interna. Lutava com o outro, ficara extenuado – meu corpo saindo de um meio aquoso para um luminoso e cheio de ar – não fosse a bolha letal e agressiva que inflou no momento exato. Surgiu como uma esfera perfeita. Essa imagem, construção geométrica, sempre me persegue. A esfera perfeita avançou e me empurrou, não podia mais recuar, não podia mais sequer parar por um instante.

Hoje eu me pergunto: valeu a pena prosseguir? Resposta: não havia escolha, ou melhor, a outra alternativa possível era a renúncia. Eu já estava tão perto da porta que me conduziria para outras dimensões, outras possibilidades: o misterioso e labiríntico medo. A ansiava no medo em saber o que me esperava, curioso para penetrar naquela luz ofuscante, cheia de cores e movimento, cheia de intensa energia, que não era uma, dividia-se em múltiplas partes em choque permanente. Desde a primeira vez, eu percebi que havia energias intensas que povoavam as beiras dos abismos; desde a primeira vez, eu fui levado à extremidade e à raiz das coisas, como se apenas elas, de fato, existissem.

Das luzes, cores e formas que pressionaram a minha visão, de modo suave e pouco profundo, passou-se à violência da luta. O bebê não tem tempo de espantar-se com as marcas que as luzes invernais lhes traziam; o bebê não tempo para receber o sopro de poesia, através da sensação do tato da mão maternal espalmada sobre a frágil mão do filho. A realidade avançou como um turbilhão, marcando corpo e alma do bebê, expressando-se como um confronto com o outro. Mãe e filho: um dos dois teria de sobreviver à luta. Melhor do que dizer: mãe e filho, um dos dois teria de sucumbir à luta.

Escrito por Jiló às 14h26
[ ] [ envie esta mensagem ]

07/12/2005


confissões - parte 1

Estávamos sentados em lados opostos da mesa. Que fique claro: não se trata de psicoterapia. Ela, boné com abas viradas para trás e um sorriso pronto a sair tristeza, estava particularmente ela mesma. Reclamava da monotonia que havia sido as suas férias. Três dias depois voltaria a trabalhar e estava aliviada por isso. Precisava de um padrão que colocasse ordem em sua vida afetiva-econômica, e com o trabalho tudo parecia voltar novamente aos eixos.

Mas eu já disse, tudo nela ameaçava desaguar em tristeza. Como quem diz, bom dia, doa tarde, boa noite tristeza, Ela fumava e soltava, num gesto politicamente incorreto, a fumaça para qualquer lado. Mesmo assim, pensei, não deixa de ser uma imagem poética como aquela foto do Thelonius Monk impressa numa capa de CD à contra luz, soltando a pleno pulmão a fumaça espessa e cheia de arabescos.

Súbito ela interrompeu o cigarro, apagou-o num gesto nervoso e ansioso. Os assuntos dia dia-a-dia indolente das férias tediosas foram suspensos, dissolvidos na mais absoluta falta de significado.

Disse num jorro, sem inspiração nem respiração: “eu sou lésbica”.

A senhora que estava a meu lado abriu a boca em sinal de espanto e esboçou um riso amarelo. “Mas o que deu em você? Você contou a pouquíssimas pessoas. Impressionante, mal acabou de conhecer o moço e já está revelando tudo!”

  

Escrito por Jiló às 13h14
[ ] [ envie esta mensagem ]

04/12/2005


confissões - parte 2

Uma vez fui menina, outras vezes, tão óbvio por conta dos hormônios, fui mulher.
Não necessariamente nessa ordem, nem exatamente fui inteira.
Já fui metade menina e um terço mulher.
Já explodi, já encolhi, já espichei; espichei tanto os olhos de moleca quando adolescente, na direção da professora desleixadamente sensual, que ela encarou o meu olhar como ato de rebeldia. Mas era ela quem não entendia nada.
A única sensação que mantive e nunca cultivei foi a de prisão; sou prisioneira de meu corpo. Eu não queria, não aceitava mas tive de aceitá-lo aos trancos e barrancos.
Hoje a garganta tá me apertando. Esse calor de sampa! Calor úmido misturado a poluição. Cidade maluca, parece que ajuda a sufocar a minha garganta.
-Dá licença Lúcia, será que posso pedir mais uma cerveja por sua conta? É, amanhã eu te pago...
-Não, não Lúcia eu tô bem, tô lúcida...De vez em quando uma cervejinha a mais não vai fazer mal né?
Eu sei a cerveja não cessa a minha sede. Mas essa Lúcia, apesar de legal tá meio que parecendo a minha mãe, quer me proteger sob as asas dela.
-Oi, muito prazer! nossa é assim que se diz? Ó, tamos aí, tudo bem, esqueça o prazer sim?
Até que é um homem simpático. Gostei, taí gostei dele. Papo firme e sem frescuras.
Nossa acho que tô meio alta, não tô acostumada a beber. Será que eu tô ficando meio ridícula.
-Ô tia Lúcia, acho que hoje bebi demais, pois é a senhora me disse. Ai, ai, ainda bem que quarta-feira que vem volto a trabalhar né tia Lúcia, férias mais chatas essas não? Nem ir à praia deu!
-A senhora viu? aquela viagem ao ceará gorou, mas também esperar a fernandona se decidir é fogo não?
-Olha só que foto horrível tia Lúcia, aqui no verso do cigarro. Putz, tenho que parar com esse vício.
-Sabe moço, é o único vício que eu tenho. Tá cheio de gente da facul aqui perto sabe moço... que puxa uns fumos, cê tá ligado né moço. Mas eu não, fico só no oficial. Nem beber eu bebo, só tô bebendo hoje...
-Bebendo por causa de dores de amores, amores partidos, amores vãos, afinal todo mundo leva fora né?! Nossa, que música é essa mesmo? Do Luís Melodia, isso! Eu morro de amoresss, eu preciso aprendeerr. 
-Ei tia Lúcia teu amigo tem bom gosto hein? Essa música combina bem com o meu estado,estado arrasa-quarteirão.
-Mas cá entre nós, vou te dizer aqui só entre mim e você: sou lésbica.
Pronto saiu, nem sei se era pra sair, mas saiu. Tinha de sair de qualquer jeito.

Escrito por Jiló às 14h37
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico