Havia uma imagem, projetada sobre mim, enorme e perfeita em sua assepsia: a grande bolha. Parece que sempre esteve no mesmo local e do mesmo tamanho. Foi um desafio lançado a mim, descobrir a sua origem. Dado que a sua origem se perde em tempos imemoriais, fui recuando no tempo e no espaço...fui recuando em meus sentimentos e minhas emoções mais recônditas.
Quem é aquele bebê que chora e esperneia? Quem é aquele bebê, forjado na imaginação, que se debate já inflamado, combustão pura, sobre o sentido de sua vida? Quem é aquele bebê tão ansiosamente aguardado, que contrai as suas faces, revelando desde o nascimento, sem qualquer dissimulação, o lado mais obscuro da ira e da destruição?
O ambiente é selvagem e incômodo. O bebê intui e dispensa mestres ante a terra espinhosa. Há uma dose de selvageria a mais neste mundo. Houve uma luta? Por vezes, acordo com a sensação de que minha cabeça e minhas mãos estão encharcadas de sangue. Eu levo as palmas das mãos até a altura de meus olhos; nelas não há sangue. Mas sei que minha pele tratou de acolher e incorporar o sangue, porque houve enfim e decididamente uma luta. Foi a luta pela sobrevivência. Eu não estava sozinho, não era uma luta interna. Lutava com o outro, ficara extenuado – meu corpo saindo de um meio aquoso para um luminoso e cheio de ar – não fosse a bolha letal e agressiva que inflou no momento exato. Surgiu como uma esfera perfeita. Essa imagem, construção geométrica, sempre me persegue. A esfera perfeita avançou e me empurrou, não podia mais recuar, não podia mais sequer parar por um instante.
Hoje eu me pergunto: valeu a pena prosseguir? Resposta: não havia escolha, ou melhor, a outra alternativa possível era a renúncia. Eu já estava tão perto da porta que me conduziria para outras dimensões, outras possibilidades: o misterioso e labiríntico medo. A ansiava no medo em saber o que me esperava, curioso para penetrar naquela luz ofuscante, cheia de cores e movimento, cheia de intensa energia, que não era uma, dividia-se em múltiplas partes em choque permanente. Desde a primeira vez, eu percebi que havia energias intensas que povoavam as beiras dos abismos; desde a primeira vez, eu fui levado à extremidade e à raiz das coisas, como se apenas elas, de fato, existissem.
Das luzes, cores e formas que pressionaram a minha visão, de modo suave e pouco profundo, passou-se à violência da luta. O bebê não tem tempo de espantar-se com as marcas que as luzes invernais lhes traziam; o bebê não tempo para receber o sopro de poesia, através da sensação do tato da mão maternal espalmada sobre a frágil mão do filho. A realidade avançou como um turbilhão, marcando corpo e alma do bebê, expressando-se como um confronto com o outro. Mãe e filho: um dos dois teria de sobreviver à luta. Melhor do que dizer: mãe e filho, um dos dois teria de sucumbir à luta.

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