-Posso me sentar?... Não me sentar sobre o seu colo evidentemente. Me sentar aí ao seu lado. Não responde então consente... Calor não?
-Calor nada, tá frio isso sim.
-Mas então você tá doente.
-Doente eu não sou. Doente é você
-E posso perguntar sem mais rodeios por que o senhor insista tanto em me olhar?
-Olha aqui ô rapaz...
-Já sou um senhor, quase quarentão.
-Senhor, moço, ou seja, lá quem for, eu não gosto de bo-io-la!
-Ah, ah, mas que termo mais arcaico e sem um pingo de consideração. Boiola, onde já se viu? Eu observei como o senhor agia com o outro rapaz. Parecia um pregador, levando o seu rebanho até as virtudes do leito...
-Escuta aqui ô meu, se você não parar com esse papo, vou ter de te colocar á força pra fora do bar. Conheço tipos assim como você.
-Por onde você andou esse tempo todo?
-Hein, tá tirando uma com a minha cara? Chispa daqui.
-Você é que parece que tá tirando umas com as minhas infinitas e oblíquas caras. Me explique de uma vez por todas, de onde tirou essa palavra horrível: boiola!
-Boiola, bicha, homossechual, é tudo a mesma raça, um bando de vagabundos.
-Você cheirou quantas hoje hein?Pra falar tanto delírio, só pode ter cheirado várias carreiras de coca...
-E além de vagabundo é drogado, o que não me surpreende. O seu nóia, se você não sair daqui agora mesmo, vou te dar uma surra daquelas que seu pai devida ter lhe dado. Vou te moer que nem carne de terceira.
-O senhor é um infame e deve ter o pau todo torto!
-O ... o ... o que? Como se atreve seu malandro?
-Mas eu amo o mundo, amo as tartaruguinhas, as florestas. Minha terapia me levou a amar o próximo, portanto amo até filhos da puta como o senhor.
Ante a expressão atônita do outro, deposita o dinheiro de cerveja sobre a mesa e sai rapidamente do bar antes que apanhe.
“Cada qual ergue a sua couraça, fica difícil penetrar além dela. Não porque a couraça seja sólida, Só que não tem nada depois dela. Não tem personam não tem sequer um esboço de homem. Tudo o que sobrou daquele monte de banha foi um punhado de desejo desordenado, sem nexo...”
“E quando a morte dele se aproximar (mas que mania hoje só to pensando na morte), ele com certeza irá vacilar, vai pensar que o enganaram a vida inteira. Então o desespero soará com as suas doze badaladas. Vai implorar, quase no fim, pela mão de algum jovem musculoso; só vai encontrar a mão sem energia e desleixada de sua esposa, torcendo em vão para que ele se vá o quanto antes.”
Olha para trás, tentando visualizar algum rastro do insano senhor de olheiras roxas como sacos escrotais doentios. Eles não se mostram, os tais rastros, porque afinal de contas são sutis: aprecem aqui e ali. Porém há os outros quase infinitos rastros que se aprecem tanto com os dele: lesma lerda se decompondo.


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