Cochichos e Relaxos


04/02/2006


absimos 4 - um diálogo

-Posso me sentar?... Não me sentar sobre o seu colo evidentemente. Me sentar aí ao seu lado. Não responde então consente... Calor não?

-Calor nada, tá frio isso sim.

-Mas então você tá doente.

-Doente eu não sou. Doente é você

-E posso perguntar sem mais rodeios por que o senhor insista tanto em me olhar?

-Olha aqui ô rapaz...

-Já sou um senhor, quase quarentão.

-Senhor, moço, ou seja, lá quem for, eu não gosto de bo-io-la!

-Ah, ah, mas que termo mais arcaico e sem um pingo de consideração. Boiola, onde já se viu? Eu observei como o senhor agia com o outro rapaz. Parecia um pregador, levando o seu rebanho até as virtudes do leito...

-Escuta aqui ô meu, se você não parar com esse papo, vou ter de te colocar á força pra fora do bar. Conheço tipos assim como você.

-Por onde você andou esse tempo todo?

-Hein, tá tirando uma com a minha cara? Chispa daqui.

-Você é que parece que tá tirando umas com as minhas infinitas e oblíquas caras. Me explique de uma vez por todas, de onde tirou essa palavra horrível: boiola!

-Boiola, bicha, homossechual, é tudo a mesma raça, um bando de vagabundos.

-Você cheirou quantas hoje hein?Pra falar tanto delírio, só pode ter cheirado várias carreiras de coca...

-E além de vagabundo é drogado, o que não me surpreende. O seu nóia, se você não sair daqui agora mesmo, vou te dar uma surra daquelas que seu pai devida ter lhe dado. Vou te moer que nem carne de terceira.

-O senhor é um infame e deve ter o pau todo torto!

-O ... o ... o que? Como se atreve seu malandro?

-Mas eu amo o mundo, amo as tartaruguinhas, as florestas. Minha terapia me levou a amar o próximo, portanto amo até filhos da puta como o senhor.

Ante a expressão atônita do outro, deposita o dinheiro de cerveja sobre a mesa e sai rapidamente do bar antes que apanhe.

“Cada qual ergue a sua couraça, fica difícil penetrar além dela. Não porque a couraça seja sólida, Só que não tem nada depois dela. Não tem personam não tem sequer um esboço de homem. Tudo o que sobrou daquele monte de banha foi um punhado de desejo desordenado, sem nexo...”

“E quando a morte dele se aproximar (mas que mania hoje só to pensando na morte), ele com certeza irá vacilar, vai pensar que o enganaram a vida inteira. Então o desespero soará com as suas doze badaladas. Vai implorar, quase no fim, pela mão de algum jovem musculoso; só vai encontrar a mão sem energia e desleixada de sua esposa, torcendo em vão para que ele se vá o quanto antes.”

Olha para trás, tentando visualizar algum rastro do insano senhor de olheiras roxas como sacos escrotais doentios. Eles não se mostram, os tais rastros, porque afinal de contas são sutis: aprecem aqui e ali. Porém há os outros quase infinitos rastros que se aprecem tanto com os dele: lesma lerda se decompondo.

“Engraçado-trágico pensar no senhor insano, e dele pensar em você, meu amigo invisível, e de você pensar em mim como uma espécie de xerox invertido. Como se eu fosse um avesso tão próximo ao ser escroto, que eu me confundisse com o próprio fascista mor em ação.”

Escrito por Jiló às 15h32
[ ] [ envie esta mensagem ]

02/02/2006


Abismos 3 (monólogo com fantasmas)

Alguma coisa me chamava àquelas ruas perdidas, adjacentes ao velho TBC. Um sentimento talvez, sensações esparsas, permeadas por muito tédio. São Paulo está como sempre esteve: cidade fantasma. Hoje é feriado, plena quarta-feira, meio da semana.  As pessoas trancafiadas nas suas casas; passe em frente a um sobrado aos pedaços. Para surpresa minha o morador ouve Billie Holiday. Será um ex-ator que ali habita com os seus fantasmas e sua glórias vãs e fugazes. Ou uma atriz fascinada por Adolfo Celli? Mas que hora mais imprópria para ouvir Billie Holiday! TrÊs da tarde, sol à pino, sol rachando a minha cabeça...e Billie Holiday soletrando todas as sílabas: ‘in my solitude... you haunt me... with dreadful ease... of days gone by.’ Essa melancolia tá própria da voz dela me evoca ambientes noturnos. O sol tá mais pra axé com os corpos rebolantes.

As ruas parecem mais envelhecidas ainda. Eu me lembro que naquela época as ruas já eram bem velhas. De uma velhice que recendia a história. Hoje, a outra época, a velhice  se acentuou de uma tal forma até virar um acúmulo de lixo.

Eu saía das peças de teatro e ia tomar um conhaque com o Caio no bar K. Nós queríamos fugir dos guetos caricatos dos homosseuxiais. Havia bares simples que tinham a sua história particular e peculiar, pareciam-se com organismos vivos. Corria muito álcool e derramava-se muito sangue. Mas tinha uma humanidade, tinham valores por trás até dos atos insanos. Não é mesmo meu amigo invisível? É certo que os valores, em sua maioria, eram os decadente-burgueses. Assim que os punks nos chamavam... Pó cara eles também tinham um sentido. E nós queríamos fazer mais sentido que todos os babacas juntos, nós queríamos provocar não uma revolução, mas provocar uma espécie de bolha enorme que tornasse a vida mais notável! É essa a palavra: notável! Lembra-se quando a gente fez o dono do bar levar as cadeiras pro depósito para que o povo pudesse dançar? Eu tinha uma gravação de trechos da Sagração da Primavera numa fita k-7. Nem existia CD ainda, quer dizer o cd tava começando e era um luxo dispensável. Nós tínhamos o som na cabeça. O som do k-7 era o chiado mais lindo e melódico que eu já ouvi. E o povo começou a dançar, mistura de dança de salão com simulacro de Nijinski. Que noite! Inesquecível. Que venha a primavera, queríamos dizer, que venha a primavera e desabroche em nós a preciosa flor que cada um carrega dentro de si.

Vamos tomar uma cerveja? É, nesse bar mesmo! Acho que to me acostumando com os lugares despedaçados, arte despedaçada, amores em cacos”, ri um pouco nervoso.

“É meu sétimo sentido, um terceiro olho que diz pra pararmos nesse bar. Sei que você não acredita nisso... No fundo eu também não acredito, mas uma ficção útil no momento. Preciso acreditar que tenho um terceiro olho, bem aqui ó!”, ri alto e extravagante, os outros freqüentadores cerram os olhos sobre ele. “Pensou que o terceiro olho estivesse onde? No cu?”

“Esse bar me parece o bar do Lucas definhando, dez anos depois. Você não soube do Lucas, você partiu antes eu sei. Pois é, o Lucas foi morto de maneira estúpida, 17 anos atrás! Morto por uma discussão besta com um pivete. A faca do pivete tocou de raspão na região do coração. Atingiu uma única veia, suficiente pra matá-lo. Morte e vida na Paulicéia desvairada! Nem Mário de Andrade, nem João Cabral de Mello Neto. Apenas a morte, o cadáver em sua fala precisa e exata.”

Toma um longo gole, praticamente esvaziando o copo de cerveja. “Sabe meu amigo, me desculpe a indiscrição, mas vou ‘elevar’ meu pensamento pra você, vou rezar um padre nosso aqui baixinho, esteja onde estiver.”

Mas não conseguia rezar porque do outro lado do balcão olhavam com insistência. Um velho gordo o encarava agitando as sobrancelhas. “Quanta decadência! Que figura patética e ainda por cima não pára de me olhar. Monte de banha nojenta!”

“Eu acho que errei vindo até essa região. Eu pensei que existisse um destino, uma conexão necessária entre as coisas... e intui (meu terceiro olho foi pro ralo abaixo rs) que iria reencontrar vestígios de antigas sensações. E tudo o que vejo é um achaque de pessoa. Ah, se ele dirigir aquele olhar de nojo novamente vai ter! A cidade piorou tanto assim? A cidade tá tão mais fascista assim? Com cerveja!”   

Escrito por Jiló às 15h18
[ ] [ envie esta mensagem ]

Abismos 2 (monólogo sem intermezzo)

“Ah, mas aqueles vagabundos, eu não suporto sabe? [porque eu sou trabalhador e dou um puta de um duro na praça]. Ainda por cima ficam mostrando a tatuagem [ eu não tenho e minha esposa, dissimulada como ela só, fica olhando pro vizinho tatuado no bíceps]  e vagabundeiam pra lá e pra cá [eu dou duro dia inteiro, trabalho feito burro velho!, ah se eu não tivesse que sustentar aquela vaca, ficava de papo pro ar esses dias de movimento fraco]. Os pais deles deveriam dar uma surra [um dia desses eu mesmo vou surrá-lo sem dó nem piedade, vou surrar até deixá-los todos roxos!], porque depois que crescem [lixos fedorentos] fazem cara de besta, te desafiando.”

“Cada um na sua sabe [cada um se fudendo em seu canto fedorento], a vida é deles [a vida não é minha], mas que não me apareçam para pedir um copo de cerveja [o álcool é meu e ninguém tasca!]”

“Graças a deus rapaz, os meus filhos foram bem criados [porque se dependesse de mim, eles estavam fudidos]. Escuta aqui, você tá me gozando? Vai tirar a camisa aqui não, nós estamos num botecão de respeito. Tatuagem? Ah, tá arrependido. Bom, pelo menos reconheceu o erro. Já disse! Cada um na sua, cada um faz aquilo que quiser da vida, mas a maioria que usa tatuagem não presta [eu presto porque só tenho uma marca de navalha na cara, e isso é coisa pra macho que não tem medo de enfrentar vagabundo!].”

“Meus filhos não tem tatuagem e o mais velho virou crente. Não fui eu quem o encaminhei. Tenho as minhas convicções e ele as dele [ah, como ele me torra o saco chamando a atenção pelas cervejas a mais!]. Mas não posso colocar defeito nele. Sei, sei, religião é muito bom, melhor que perder o filho pra droga. E quando meu filho morrer [tomara que não viva muito] todos sentirão falta dele. Não é como esses vagabundos [desregrados que vivem fornicando com as meninas folgadas] cujos pais darão graças a deus quando morrerem.“

“Você tá certo ô rapaz. Não tem de ficar conversando com pessoas de sua idade. Tem de conversar com pessoas vividas, mais velhas, honradas e trabalhadoras como eu! Tá vendo aqui? Quantos anos você me dá? Pois é, tenho muito mais que quarenta; vou fazer 57 anos mês que vem [minha esposa, a maldita, acha que devo descansar mais; tá me achando com cara de velho, logo ela com a pança enorme de tanto comer pão e torrone as minhas custas]. Nem parece não é mesmo? Trabalho faz bem à saúde trabalho só honra o homem, trabalho nunca é demais; trabalho só é demais pros vagabundos.”

Ergue o décimo copo de cerveja, brinde aos louros de sua vitória. Brinde ao trabalho, idéia fixa que nunca se extingue juntamente com uma outra: punir fisicamente os vagabundos. Algo como um estranho prazer toma conta do seu corpo e sua mente: trabalhar como um sinal de sacrifício e sofrimento, punir os vagabundos, com um sintoma de inegável prazer.

Escrito por Jiló às 13h23
[ ] [ envie esta mensagem ]

29/01/2006


abismos 1

Então é assim e não de outra forma. É assim porque tem de ser.
Foi assim, perceptivel e sensorialmente, a vida inteira. Quando do pai,
recebeu severas surras de cinto de couro, o medo e o olhar
imperativo do mundo entraram pelos seus poros.
Um desejo secreto e não confessado nele brotou:"Quero ser como meu pai".
Agora, várias gerações se passaram. A rua anda decadente, as casas antigas jazem com suas tintas descascadas e uma arquitetura que lembrava a época onde o bairro florescia.
O sol a pino, São Paulo nunca esteve tão quente num verão, as ruas nunca estiveram tão desertas e abrasivas.
Mas para ele é como se tudo estivesse no lugar.
Pára o táxi, mas não é o táxi que se movimenta, são os outros incômodos da são paulo século XXI. Estático está ele e o decadente bar da decadente rua, mas é a molecada agora convertida em deliquentes juvenis que se movimenta e aguça o olhar
em direção àquele careta da zona leste metido a fazer um barulho imenso na Bela Vista. Um barulho inofensivo, porque o tio velho só rosna, não morde, não pode morder, porque sequer aguenta correr com aquele barrigão enorme e, além disso, se corresse todos ririam de seus peitos de puta velha que ficavam à mostra por causa da camisa de jérsei semi-aberta e aquele monte de banha gritando impropérios com 3 dentes que sobraram na frente.
"Ô josias, me vê aquela cerveja gelada. Que calor não? O que tá havendo?
Muitos policiais hoje nas ruas adjacentes. Ah não sabe? Assalto será?
Sim, só isso Josias, muito obrigado." As suas pálpebras estão como sempre roxas, as bochechas pesadas demais com a gravidade pendem de acordo com a direção na qual ele se volta.
"Hein o que você disse? Ah, vieram aqui em busca de um malandro? Um foragido. Mas você vê a facilidade com que o pessoal foge das prisões hoje em dia não? POis é, lamentável. As coisas nessa nossa regiao pioraram muito sabe ô rapaz. Ha vinte anos atrás as coisas não eram assim. também vagabundo não tinha vez. Hoje em dia
tá cheio de vagabundo e ninguém fala nada. São os tais dos direitos humanos! Direito pra bandido, mas também pra vagabundo.
Mas essa área venhamos e convenhamos sempre foi assim...
mal cheirosa! cheira a esgoto, esgoto de gente que nem é gente sabe?
é! a maladragem era outra na década de 70,mas malandro no final é tudo
a mesma coisa.

Escrito por Jiló às 11h29
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico