Cochichos e Relaxos


16/02/2006


Abismos 5. A sombra. continuação

-Pirou de vez é? O que aconteceu? Tá estressado? Tá pancada? Cadê o teu senso de humanidade?

-Ah, não me venha com grandes palavras. Humanidade, cultura, a construção da dignidade humana! Essas palavras, eu as lanço, lavadas e desgastadas, algumas vezes aos meus alunos para impressioná-los.

Faz 3 anos que eu to nessa, faz malditos 3 anos que eu uso essas malditas palavras que saem tão fáceis de minha boca. E é por isso que eu me sinto mal, péssimo, um merda! Eu tenho vontade de vomitar palavras, de explodir literalmente com tudo. De explodir com aquele mundo de polidez e trejeitos supostamente civilizados que querem impor aos bárbaros adolescentes. Eu to cansado de fazer aquele ar blasé, eu to cansado de ser um professor íntegro e cultivado. Eu não sou cultivado, sou uma máscara que envelheceu rapidamente. Não consigo ver o tamanho do buraco no qual me meti. Eu quero encher a cara da cerveja e ver a vida passar. O resto me entedia pro-fun-da-men-te.

-E o que você vai fazer da vida?

-Nada. Nada vezes nada. Ah, vivem me dizendo que o prazer não compensa, e eu vivo repetindo aos 4 cantos que ele não compensa. O prazer desenfreado desregula até anular o desejo. Sem o desejo e o amor não há encontro. Sem o encontro com o outro - ó que outro magnífico - não há felicidade! Isto eu também ecôo...  Felicidade... mas que porra de felicidade eu quero? Ademais não sou nenhum hedonista. Um prazer, vez em quando, tá mais que bom. Eu só não quero fazer tanto esforço inútil.

-Eu não acredito no que eu estou ouvindo. Tanta merda entrando pelos meus ouvidos!

-Deviam entrar pelo seu cu. Devia sentir o cheiro fedorento da merda. A merda tá aí, bem debaixo do seu nariz. No lugar da merda, você sente o cheiro da flor. Flores nascem do esterco. Porém, merda é merda, flores são flores.

-Eu não estou entendendo onde você quer chegar? Que papo é esse? Hoje eu vim recuperar sensações, retalhos do meu passado... E só encontro escombros e gritos histéricos. E você me vem com essa escatologia: vomitar palavras, soltar merdas. O que é isso? Perdeu o senso, perdeu qualquer pudor?

-Eu tenho senso até em demasia, e tenho senso das coisas que eu faço.

-Pode até ter, mas falta o sentimento. Falta aquela faísca, fagulha pra gerar uma beleza...

-Eu tenho a fagulha pra provocar um grande incêndio.

Fecha os olhos, como que atraído por imagens internas. As vilas francesas pegando fogo na primeira guerra mundial.

-Que espetáculo! Céline soltando as faíscas para depois descrevê-las como monumentais incêndios. Este sim, grande escritor.

-Céline era um fascista. E de estilo duvidoso. Supervalorizado. Um escritor meia boca que cairá no esquecimento.

-Não fale desse jeito, Céline é meu ídolo!

-Oh, não sabia que tem ídolos. E posso saber quais são os outros? Nero com certeza...

-Ah, eu gosto muito daqueles que escrevem com suor, que transpiram e aspiram sangue. Bukowisky, Heminguay, Dostoievisky.

-Que papo mais antiquado! Transpirar a vida, escrever visceralmente... Você não tem vida própria então imagina a vida que eles descrevem como sendo a VIDA.

-Você é que não tem vida, sua bichona, que nem bicha é. Mal sabe o que tem entre as pernas.

X, num acesso de fúria e fúria, acerta um direto no rosto. O soco explode seco. Y caí no chão, raspa a face direita em algum caco de vidro. Corta-se superficialmente.

-Repete, repete se for homem!

-Putz, tá sangrando. Não sabia que doía tanto assim tomar um soco. Olhe, sangue...sangue.

Os dois, olhos estáticos, maravilhados com o sangue.

Escrito por Jiló às 14h13
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Abismos 5. A sombra

Diante daquele emaranhado de vias expressas, pistas vicinais, ruas interrompidas por grandes avenidas, becos sem saída... e sobretudo um interminável conflito entre vontades, delitos, virtudes das mais variadas espécies e, sobretudo... Diante do espanto de si mesmo, diante da sombra alongada e projetada discretamente sobre a calçada, resolve descrever-se; circunstâncias, imanência e transcendência.

“Estou num descampado (na verdade trata-se de uma rua erma, que em sua dimensão também é um descampado na noite, imperceptivelmente silenciosa de sampa). A lua em seu imenso brilho, naturalmente se descobre. Neste ato revela-se a sua absoluta falta de capricho. Deixa-se contemplar e eu deixo que a sua luz penetre em meus olhos. Se, com o Sol, a luz impõe, quando olhada diretamente a cegueira, a lua impacta corpo e alma de pura e transcendente luz.”

 

Uma sombra, de codinome Y, desloca-se de X.

-Há uma imperfeição na tua visão. Você não percebe. A lua vista daqui é apenas uma mancha imperfeita, um quase borrão.

-Você é um estraga-prazer. Não consegue ver, assimilar as coisas além da superfície.

-Mas que catzo. A lua de sampa é igual a de paris, de mogi mirim, do interior de minas. É só a Lua, um objeto celeste redondo e branco, quando cheia, de aspecto leitoso visto da terra, mas árida, seca quando vista através do telescópio.

-Objetividade exemplar! Tal qual médico dissecando um cadáver.

-Mas no fundo é só uma porra de um brilho, pedido lá no céu.

-Desencanto exemplar! Vamos, continue!

-E que graça tem a emoção de ficar olhando lá pro céu. Dá até torcicolo.

-amargor singular. Como você está amargo, desgostoso. Não há motivos para isso. Eu é quem tenho motivos para abrigar um gosto estranho, desolador na boca. Mas deve haver poesia na vida, como uma forma de resistência. É isso que eu procuro... para quê mesmo? Para não sucumbir.

-Pra mim você tá fudido faz tempo. Eu to ainda mais. Fui o seu pára raio esse tempo todo. Ah, cara eu agüentei pancada pra caramba daqueles imbecis. Enquanto isso, o que você fazia? Se resguardava. Resguardava de que? Procurava fôlego.pro seu lirismo errante, algum lugar perdido entre a sua alma penada! Ah, ah, ah!

Por isso que você é fraco cara. Você me criou pra que eu pudesse dar a cara pra bater no seu lugar. No entanto, isso te desespera, pois acabou espiando a vida pelo buraco da fechadura. 

-Chega, chega! O que você quer afinal? Se quiser sair a porta está aberta. Aliás ela nunca esteve trancada. Achava-se prisioneiro, mas nunca foi.

-engraçado, convivemos esse tempo todo e você me é completamente estranho! Será que não percebeu?

-perceber o que? E que história é essa de não me conhecer? Você é minha criação.

-Você não entende e jamais compreenderá! Eu não agüento mais.

-Não agüenta o que? Olhe pra mim! Você quer a liberdade não é isso? Pronto, tá aqui a tua alforria, pode ir pra onde quiser.

-Que porra de liberdade é essa? Fui criado a sua sombra. É que, desde sempre, eu tenho um peso na consciência, sei lá... dilemas, problemas morais, desvios sexuais e, principalmente, crise de identidade.

Você não sabe como é duro ter de encarar os alunos. E incentivá-los a terem autodomínio e convencê-los, implicitamente com a minha filosofia barata, o valor da vida. E me fica um grito sufocado, uma vontade doida de berrar que a vida não vale a pena, que no fundo tudo é uma grande besteira. Me dá uma vontade, vez em quando, de pegar aquela corda de nylon vagabunda, na qual você pendura as suas roupas gastas, e me enforcar na sala dos professores. Ou melhor, me enforcar na frente dos alunos. Seria a melhor eloqüência didática pela qual eles passariam. A experiência radical da vida.

Escrito por Jiló às 14h11
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