-Pirou de vez é? O que aconteceu? Tá estressado? Tá pancada? Cadê o teu senso de humanidade?
-Ah, não me venha com grandes palavras. Humanidade, cultura, a construção da dignidade humana! Essas palavras, eu as lanço, lavadas e desgastadas, algumas vezes aos meus alunos para impressioná-los.
Faz 3 anos que eu to nessa, faz malditos 3 anos que eu uso essas malditas palavras que saem tão fáceis de minha boca. E é por isso que eu me sinto mal, péssimo, um merda! Eu tenho vontade de vomitar palavras, de explodir literalmente com tudo. De explodir com aquele mundo de polidez e trejeitos supostamente civilizados que querem impor aos bárbaros adolescentes. Eu to cansado de fazer aquele ar blasé, eu to cansado de ser um professor íntegro e cultivado. Eu não sou cultivado, sou uma máscara que envelheceu rapidamente. Não consigo ver o tamanho do buraco no qual me meti. Eu quero encher a cara da cerveja e ver a vida passar. O resto me entedia pro-fun-da-men-te.
-E o que você vai fazer da vida?
-Nada. Nada vezes nada. Ah, vivem me dizendo que o prazer não compensa, e eu vivo repetindo aos 4 cantos que ele não compensa. O prazer desenfreado desregula até anular o desejo. Sem o desejo e o amor não há encontro. Sem o encontro com o outro - ó que outro magnífico - não há felicidade! Isto eu também ecôo... Felicidade... mas que porra de felicidade eu quero? Ademais não sou nenhum hedonista. Um prazer, vez em quando, tá mais que bom. Eu só não quero fazer tanto esforço inútil.
-Eu não acredito no que eu estou ouvindo. Tanta merda entrando pelos meus ouvidos!
-Deviam entrar pelo seu cu. Devia sentir o cheiro fedorento da merda. A merda tá aí, bem debaixo do seu nariz. No lugar da merda, você sente o cheiro da flor. Flores nascem do esterco. Porém, merda é merda, flores são flores.
-Eu não estou entendendo onde você quer chegar? Que papo é esse? Hoje eu vim recuperar sensações, retalhos do meu passado... E só encontro escombros e gritos histéricos. E você me vem com essa escatologia: vomitar palavras, soltar merdas. O que é isso? Perdeu o senso, perdeu qualquer pudor?
-Eu tenho senso até em demasia, e tenho senso das coisas que eu faço.
-Pode até ter, mas falta o sentimento. Falta aquela faísca, fagulha pra gerar uma beleza...
-Eu tenho a fagulha pra provocar um grande incêndio.
Fecha os olhos, como que atraído por imagens internas. As vilas francesas pegando fogo na primeira guerra mundial.
-Que espetáculo! Céline soltando as faíscas para depois descrevê-las como monumentais incêndios. Este sim, grande escritor.
-Céline era um fascista. E de estilo duvidoso. Supervalorizado. Um escritor meia boca que cairá no esquecimento.
-Não fale desse jeito, Céline é meu ídolo!
-Oh, não sabia que tem ídolos. E posso saber quais são os outros? Nero com certeza...
-Ah, eu gosto muito daqueles que escrevem com suor, que transpiram e aspiram sangue. Bukowisky, Heminguay, Dostoievisky.
-Que papo mais antiquado! Transpirar a vida, escrever visceralmente... Você não tem vida própria então imagina a vida que eles descrevem como sendo a VIDA.
-Você é que não tem vida, sua bichona, que nem bicha é. Mal sabe o que tem entre as pernas.
X, num acesso de fúria e fúria, acerta um direto no rosto. O soco explode seco. Y caí no chão, raspa a face direita em algum caco de vidro. Corta-se superficialmente.
-Repete, repete se for homem!
-Putz, tá sangrando. Não sabia que doía tanto assim tomar um soco. Olhe, sangue...sangue.
Os dois, olhos estáticos, maravilhados com o sangue.


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