Cochichos e Relaxos


25/03/2006


Todas as boas intenções do mundo 2

Ora, então elas gostam de falar sobre receitas com o rosto estampado em espanto e horror. Receitas deliciosas, quentinhas, refletidas no desassego de suas faces.

Eu procurava me concentrar no silêncio de Ambrósia. Mas minhas vistas estão cansadas. Ambrósia se assemelha com tantas personagens pétreas e diretas e estranhamente sinceras que eu conheci. Minhas vistas só aprofundam o cansaço.

Senti a princípio um comichão, como se tivesse sendo provocado por alguém. Depois uma pontada interna (dor no fígado?), mau sinal, problemas de saúde à vista. Até que senti a minha garganta sufocada e minha consciência berrando como uma mulher desvairada. Ela gritava: “ é necessário que você reaja, é mais do que urgente que você espante o cansaço, caso contrário, a tua imobilidade selará a tua morte!”

Que apelo dramático” quanto pensamento ensandecido corria pela minha alma-manicômio. O que eu faria? Gritaria, berraria e subiria a mesa e diria: parem com esse blá blá blá frenético, indecente. E você Ambrósia, comece a se movimentar, comece a dançar um can-can indecente!

Eu me levantei para fazer o discurso. Tem de ser de pé e em voz nas alturas para que todo o bar me ouça. Nesse instante, preâmbulo para o meu discurso-xingamento, uma garrafa cai e rola sobre a mesa até a sua borda. Depois despenca e se espatifa no chão. Eu suspendo mecanicamente o meu discurso. A dona do bar está inconsolável. Foi a primeira vez que ela deixou uma garrafa de cerveja escapar de sua mão.

Escrito por Jiló às 18h21
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todas as boas intenções do mundo 1

 Olha lá, elas estão conversando, provavelmente há horas. Movem os lábios de um jeito frenético. Não posso evitar o frenesi frenético dos lábios delas. Torno-me presa daquela incessante bate-papo. Os temas se sucedem, eu imagino: trabalho, dificuldades com a família, amores vãos e o amigo chato. Mas a solução é sempre a mesma: a inevitável fuga pela palavra.

Estamos sentados ao redor da mesa retangular de pés irregulares. Somos em seis. Somados somos seis. Divididos somos unos, partículas indivisíveis, mundos irredutíveis.

Antes devo esclarecer que fui o último a chegar. Portanto, desconheço o arranjo inicial das pessoas ao redor da mesa. Ambrósia ao meu lado, braços cruzados, estátua com seu rosto de mármore, não me vê. Ela me assusta porque seus olhos se fixam nos meus, mas eles não se movem, não reagem aos meus gestos. Egídio agitado e histérico vê as coisas e os coisos sobre a minha cabeça. Solta comentários ácidos para Ambrósia; esta apenas acena com a cabeça. Lídia sempre à procura de um emaranhado de palavras para descrever uma situação passada por a limpo por ela. Imersa em sua sensibilidade à flor da pele, recobrindo o seu eu gigantesco.

E há aquelas duas... grilos falantes, fala intermitente, um cochicho interminável. Quase sequer param pra respirar. A emergência das palavras! Impossível saber de que falam.

Vez em quando Ambrósia desata o nó de seus braços cruzados, lança a mão direita na direção das duas e diz: oiii...! mas o oi se perde, é diluído no confuso mar de sei lá o que. Lídia arrisca um comentário, dando uma de advinhona: “elas falam sobre receitas”.

Escrito por Jiló às 18h16
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