Ora, então elas gostam de falar sobre receitas com o rosto estampado em espanto e horror. Receitas deliciosas, quentinhas, refletidas no desassego de suas faces.
Eu procurava me concentrar no silêncio de Ambrósia. Mas minhas vistas estão cansadas. Ambrósia se assemelha com tantas personagens pétreas e diretas e estranhamente sinceras que eu conheci. Minhas vistas só aprofundam o cansaço.
Senti a princípio um comichão, como se tivesse sendo provocado por alguém. Depois uma pontada interna (dor no fígado?), mau sinal, problemas de saúde à vista. Até que senti a minha garganta sufocada e minha consciência berrando como uma mulher desvairada. Ela gritava: “ é necessário que você reaja, é mais do que urgente que você espante o cansaço, caso contrário, a tua imobilidade selará a tua morte!”
Que apelo dramático” quanto pensamento ensandecido corria pela minha alma-manicômio. O que eu faria? Gritaria, berraria e subiria a mesa e diria: parem com esse blá blá blá frenético, indecente. E você Ambrósia, comece a se movimentar, comece a dançar um can-can indecente!
Eu me levantei para fazer o discurso. Tem de ser de pé e em voz nas alturas para que todo o bar me ouça. Nesse instante, preâmbulo para o meu discurso-xingamento, uma garrafa cai e rola sobre a mesa até a sua borda. Depois despenca e se espatifa no chão. Eu suspendo mecanicamente o meu discurso. A dona do bar está inconsolável. Foi a primeira vez que ela deixou uma garrafa de cerveja escapar de sua mão.

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