Cochichos e Relaxos


09/04/2006


eu não sou eles

não vou ser como eles, não terei a doença deles. a minha será pior que a deles, mas pelo menos não vou me chafurdar no lixo da hipocrisia, embora eu
pense que seja igualmente hipócrita e calhorda. não como eles, sou calhorda e chafurdo na minha própria lama. não há inocentes, é mais que sabido. não posso me
esconder.
meu luto será um luto negro, oficial: deserto sobre deserto. minha doença, chaga que não se esgota nem se cura com pomada; minha doença não dá tréguas, mas
repito não serei como eles. morrerei estrangulado?
talvez! mas não beberei de meu próprio veneno da impessoalidade. sei muito bem quem não sou e também sei muito bem que não sei o que sou.
devo agradecer aos senhores e senhoras honrados de meu círculo de convivência por me darem refências, ainda que toscas, do que não sou. não sou como eles, e se chagas eles tiverem não serão dignas delas. terei o meu sofrimento
que não será maior ou menor do que os deles. será apenas o meu sofrimento: definhar de significados, a dor batendo fundo no osso: omoplata ramerame.
não obstante tudo, haverá um dia ainda que eu divisarei a beleza, substância imprópria, no horizonte longínquo. haverá uma manhã, cálida e calma em que
tudo se resolverá. mas..., para desespero deles, jamais haverá horizonte em suas janelas.
porque as janelas foram fechadas e emperraram; agora fazem questão de mantê-las
cerradas a fim de melhor respeirar o ar viciado.
eu, sobre a minha cama fria e monótona, respiro mais gás carbônico que eles. é só um dado quantitativo, mas pode ser a chave para a fuga definitiva. a fuga que eles jamais tentarão, pois estão demasiado presos em suas idéias antiquadas, feitas de ângulos retos, presos em seus móveis caducos, em seu ar viciado, beirando cheiro de
morfina. morfina que todos inalam, cada qual em seu canto: os meus e os deles, sentidos amortecidos.

Escrito por Jiló às 19h23
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