Hoje faz frio na terra tropical. inverno na terra tropical. O frio é severo na terra tropical, repete-se irregularmente na terra tropical.
É um bom motivo para que eu feche as portas. Não consigo fechá-las por uma evidente falta de habilidade. É impossível fechar as portas e acabar com a
luminosidade que me incomoda na terra tropical.
Estou inquieto e gostaria de partir para o exílio, bem longe da terra tropical e do trópico do equador.
Sequer existe o exílio nos trópicos, pois meu corpo insiste em habitar uma terra que não é estrangeira nem familiar:é um local marcado, delimitado pelo nada.
Eu gostaria de fechar as portas e cerrar a paisagem exuberante da terra tropical. Não dá para pedir educadamente para que fechem as portas. Eu desejo fechar as portas: a solidão de lá, além das persianas cerradas é melhor que a daqui com a multidão incessante refletindo no céu tropical e aberto e azul-anil-deslumabrante. De qualquer forma não há solidão partilhada nos invernos da terra tropical. Vou me deitar e puxar
as cobertas e, com certeza, meus pés ficarão de fora.
Acho que vou rezar antes de deitar e dizer, como um bom menino: "eu não estou nessa terra tropical ou invernal." Não vou pedir resgate por puro orgulho. Quero tão somente avisar: "eu não estou nessa e me recuso a estar."
Lá vêm eles, os habitantes da terra tropical, com as suas milhares de etiquetas e juízos formados. Lá vou eu contra-atacar com falácias a estupidez cega dos que me atiram pedras. Vou hastear uma bandeira e dizer: "eu não tô nessa. vocês se engaram".
Eu sou o cara errado. não acredito em destino nem em fatalidade. Mas eu entrei no jogo por algum mecanismo secreto. eu não sei jogar. Não quero aprender o jogo que todos inalaram ludicamente quando estavam no paraíso infantil. já me machuquei bastante e digo:"agora basta!"
Já fui golpeado insistentemente e digo:"a tua felicidade não tem graça nenhuma".
Eu queria dizer "agora basta" de uma forma bela, lípida e clássica.
Eu queria dizer "agora basta" talvez como os tempestuosos alemães, Goethe
à frente, diriam em agitação frenética. Mas só consigo dizer "agora basta" do meu modo: grito rouco, vindo de alguém quase invisível, sem elegância, semescândalos, oposto da exuberância, quase decomposto, um pouco animal, outro tanto humano.
meus amigos e meus inimigos devem sumir quando eu disser "agora basta"!
devo ter pelo menos o silêncio que nunca tive e aquela paz desoladora que todos temem.


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