Cochichos e Relaxos


12/05/2006


várias formas de dizer terra tropical

Hoje faz frio na terra tropical. inverno na terra tropical. O frio é severo na terra tropical, repete-se irregularmente na terra tropical. 
É um bom motivo para que eu feche as portas. Não consigo fechá-las por uma evidente falta de habilidade. É impossível fechar as portas e acabar com a
luminosidade que me incomoda na terra tropical.
Estou inquieto e gostaria de partir para o exílio, bem longe da terra tropical e do trópico do equador.
Sequer existe o exílio nos trópicos, pois meu corpo insiste em habitar uma terra que não é estrangeira nem familiar:é um local marcado, delimitado pelo nada.
Eu gostaria de fechar as portas e cerrar a paisagem exuberante da terra tropical. Não dá para pedir educadamente para que fechem as portas. Eu desejo fechar as portas: a solidão de lá, além das persianas cerradas é melhor que a daqui com a multidão incessante refletindo no céu tropical e aberto e azul-anil-deslumabrante. De qualquer forma não há solidão partilhada nos invernos da terra tropical. Vou me deitar e puxar
as cobertas e, com certeza, meus pés ficarão de fora.
Acho que vou rezar antes de deitar e dizer, como um bom menino: "eu não estou nessa terra tropical ou invernal." Não vou pedir resgate por puro orgulho. Quero tão somente avisar: "eu não estou nessa e me recuso a estar."
Lá vêm eles, os habitantes da terra tropical, com as suas milhares de etiquetas e juízos formados. Lá vou eu contra-atacar com falácias a estupidez cega dos que me atiram pedras. Vou hastear uma bandeira e dizer: "eu não tô nessa. vocês se engaram".
Eu sou o cara errado. não acredito em destino nem em fatalidade. Mas eu entrei no jogo por algum mecanismo secreto. eu não sei jogar. Não quero aprender o jogo que todos inalaram ludicamente quando estavam no paraíso infantil. já me machuquei bastante e digo:"agora basta!"
Já fui golpeado insistentemente e digo:"a tua felicidade não tem graça nenhuma".
Eu queria dizer "agora basta" de uma forma bela, lípida e clássica.
Eu queria dizer "agora basta" talvez como os tempestuosos alemães, Goethe
à frente, diriam em agitação frenética. Mas só consigo dizer "agora basta" do meu modo: grito rouco, vindo de alguém quase invisível, sem elegância, semescândalos, oposto da exuberância, quase decomposto, um pouco animal, outro tanto humano.
meus amigos e meus inimigos devem sumir quando eu disser "agora basta"!
devo ter pelo menos o silêncio que nunca tive e aquela paz desoladora que todos temem.

Escrito por Jiló às 14h02
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11/05/2006


Todas as boas intenções do mundo 3

Para tudo tem a sua primeira vez, disse firme e sem esconder um certo prazer. As coisas simplesmente acontecem. A culpa foi sua, a responsabilidade foi sua, mas não houve intenção, portanto a senhora está absolvida.

Voltou a pedir desculpas em tom de lamúria: “eu não quis...”

“Ninguém quer”, interrompi de pronto. “ninguém quer submeter o outro a humilhações, degenerações; ninguém quer ser superior ao outro, agir como se o outro fosse o seu capacho. Todos são tão bonzinhos! Apaziguados em seu pouco intenso complexo de culpa que os ajudam a se livrar das responsabilidades de seus atos. Ninguém quer, mas eu acabo querendo, desejando com volúpia até. Tenho a intenção, mas não tenho os meios, pelo menos os meios mais eficazes para executar Lídia, Ambrósia e as cochichentas e para empurrá-las desfiladeiro abaixo. Não tenho meios para fazer as duas pararem com o blá-blá-blá. Só tenho umas poucas palavras, que de resto, são ineficazes. Ineficazes como de resto... as cadeiras elétricas, o código civil anti-aborto, as leis anti-drogas, os livros didáticos de filosofia que nos ensinam como o consumismo é feio a alienante. Às vezes acho que só repito pensamentos dos outros, requentados, com cheiro de mofo. Mas por favor, não me peça mais desculpas, não se lamente de si mesma, porque essas coisas são tão hipócritas, num sentido involuntário. Se um gigolô te visse, diria: “pare de chorar as pitangas. Mulher chorona nem pensar, tá fora do meu esquema.”

Ela suspira em direção ao... ao vento inexistente que sopra fraco do leste. Respiro aliviado por ela não prestar atenção à minha retórica fácil, escorregadia. Mas ela continua a exteriorizar as lamúrias, porque é fácil se dramatizar o erro quando não se tem nada a perder.

Tão diferente das duas moças compulsivas cochichantes, livres e soltas e sem culpas. A irritação que sentia por elas, por contraste, tornou-se quase admiração.

“você sabe que ontem foi aniversãrio de Ambrósia?”, Lídia me faz a pergunta sob a forma de lembrete.

“Quem? Ah, Ambrósia! Não sabia, meus parabéns Ambrósia!”

Estendo a mão. Ambrósia não se mexe, nem esboça qualquer gesto amistoso. Quando começo a recolher a minha mão, Ambrósia estende a sua mão em direção à minha, mas as nossa mãos se desencontram.      

Escrito por Jiló às 16h44
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