Cochichos e Relaxos


30/05/2006


um retrato feliz 2

Ela deixou que o gorrinho caísse. Era uma tortura. Ela deixou ou não deixou? Ela deixou o bebê ao relento e este chorou de raiva.Será choro de frio ou de pura raiva? Afinal os bebês choram tanto, choram por qualquer coisa. Ela não se lembra exatamente se o bebê chorou. Tem um palpite, que não chega  a ser intuição: apesar da queda do gorrinho da cabeça do bebê, ele não chorou. É isso! Mas será que o bebê crispou o rosto em sinal de protesto? Será que os olhos fechados da foto seria sinal de contrariedade do filho? A mãe não consegue ver direito os olhos do filho no retrato amarelecido. Porém, ela pôde ver os seus olhos no retrato. São olhos maternais e despreocupados. Sim, ela estava relaxada com o bebê no colo. Os olhos dela em direção aos olhos dele. Olhos maternais que não deixavam de aparecer como formais. Olhos formalmente maternais. Olhos que encarnam todas as convenções de mãe: júbilo e recato. Mas não havia emoção? Claro que havia. Talvez houvesse emoção até demais represada dentro daquele olhar formal de mãe. E os olhos formais poderiam ter servido de anteparo, de pára-raios para que ela não observasse a raiva primordial que o bebê experimentou quando ela propositalmente, e não há outro modo de justificar a sua atitude, deixou que o gorro caísse e desprotegesse o bebê na noite de frio intenso. Devia ser a noite de frio intenso e os olhos fechados do bebê e a mão em desleixo maternal e o choro seco e alguém que gritou um palavrão do outro lado da rua onde a mãe e o bebê estavam estáticos e em cerimonioso silêncio. Devia ser noite ou não.

Devia ser a roupa úmida, blusa de festa da mãe umedecida pelo xixi morno do bebê, lançado quando ela se preparava para protegê-lo do frio. 

Há tantos devias e há as nuvens de formas diversas que surgem para encobrir o mal estar que tomava conta da mãe, agora revirando os olhos diante da foto. A raiva devia ter tomado conta dela quando sentiu o líquido morno vazar através da fralda de segunda linha, recauchutada, molhando, algumas gotas, a sua blusa. Mas será possível o sentimento de raiva diante da frágil figura do filho? Ou haveria uma raiva oculta que circula livre nos subterrâneos de sua alma sensitiva. E se a raiva se espalhasse e fosse o único sentimento compartilhado pelos dois naquele momento? E se...

Naquela manhã em que o filho, gestos nervosos como sempre, pegou as suas coisas e disse: “Mãe eu vou embora para sempre e não me procure mais. Vou sumir do mapa, não vou deixar pegadas”; naquela manhã que ela disse com surpreendente naturalidade:”Tudo bem filho, siga o seu caminho e não me procure mais”; naquela manhã tão estranhamente calma em que mãe e filho permaneceram lúcidos e serenos quando olharam-se sem mágoas, quase com um certo alívio. E sequer uma lágrima de arrependimento foi brotada; naquela manhã.... estranhamente uma manhã que não se parecia com as atmosferas aterrorizantes de Dante nem com a paz eterna celestial; naquela manhã, minutos depois que a mãe achou a foto embaixo da escrivaninha em desleixo do filho, foi que ela compreendeu o quanto de verdade e sinceridade havia na foto.   

Escrito por Jiló às 13h49
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Um retrato feliz

O bebê nasce depois de uma gestação complicada. O parto não foi prematuro, mas as ameaças de perde-lo foram várias. O bebê, dois meses de vida, está no colo da mãe, gorrinho preto para se proteger do frio, e tem o rosto rosado e as demais partes do corpo cobertas. É noite e faz frio. Ela olha para o bebê com preocupação e carinho. As cobertas do bebê são da cor azul claro. Trata-se de um menino saudável e feliz. Seus olhos mantém-se fechados.

O bebê cresce, o bebê...

O interior do pequeno quarto está em penumbra. Silêncio que não se interpreta. Silêncio e é só. A mãe vagueia pelo quarto como se estivesse investigando um problema e desejasse chegar logo à sua conclusão.

A mãe, revirando papéis ao acaso, revê o retrato do filho vinte e tantos anos antes. Depois de tantos anos, de voltas e reviravoltas, encruzilhadas percorridas com o filho...

“Aonde estão os olhos do bebê?” Ela não os reconhece. E por que a mãe parece tão imóvel, de uma imobilidade que beira o descuido. Na foto, a mão direita dela faz um movimento em direção a cabeça do bebê, a fim de ajeitar o gorrinho que escapava da cabeça... mas o gesto não se completa na foto. A mãe tem dúvidas. Será que ela ajeitou o gorrinho ou deixou que ele acabasse por cair? E se deixou que o gorrinho caísse, será que não se importou em apanhá-lo?

Escrito por Jiló às 13h48
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