Cochichos e Relaxos


27/06/2006


sala contígua

Na sala contígua ao quarto, ouvem-se sussurros cada vez mais intensos até se transformarem em gritos. Ele está ali, e a aperta violentamente contra o sofá, até parece homem desesperado depois de anos sem sexo. E ainda assim há delicadeza, e há os braços vertiginosos que nadam de encontro a ela; há contentamento, alegria, mesmo que estas sejam palavras aproximadas e que o alvo nunca seja atingido. Porque o que se passa ali é algo sempre maior e menor que as palavras. Há aromas de jasmins, superados pelo cheiro do suor dele, tão desejado; suor que escorre pelo corpo dele e passa para o corpo dela. O corpo seu e o corpo dela entregue sem tréguas.

Há um abajur, no canto oposto ao canto em que eles se encontram, cuja cor desastrosamente lilás, pouco ilumina a sala em conveniente penumbra. Na penumbra há o anúncio da vasta escuridão, prestes a vir. Com a escuridão virá a dor, sem tréguas. Peigas mesmo, piegas a cena até doer de tanto amor.

Alguém a sacode. Na realidade sem significados, alguém a desperta. Não há ninguém ao seu lado, nem fantasmas sequer. O sangue ta ali, um borrão vermelho, no quarto contíguo à sala. Há dor e um certo nojo. Pavor daquele homem de nariz arredondado e narinas com dois tufos de pêlos. No quarto contíguo à sala, ao lado da cama, o corpo dele foi deixado na horizontal, como um enorme saco de batatas. Ela o repudiou e cometeu uma ação simples: matou-o com um golpe certeiro de faca enferrujada de cozinha.   

Escrito por Jiló às 08h56
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