Os jovens comedores de salgadinhos, quando reunidos em ambiente fechado, prontamente identificam-se e causam tal rebuliço que o volume de suas inarticuladas falas soam como britadeiras enfurecidas da prefeitura manejadas por modorrentos funcionários públicos.
De frente aos jovens comedores de salgadinhos, bem de frente ao furacão, fixando seus olhos claros na massa algo sem forma, o jovem professor equilibrando sob o nariz o óculos protocalar tenta se contrapor aos urros que ouve...
Ele tem um discurso pronto, armado, porém fino e frágil como os aros do óculos protocolar. Ele tenta dizimar a falta de sentido do barulho que os jovens comedores de salgadinhos empapados em óleo e colesterol insistem em fazer. Tudo em vão, obviamente, como diriam os educadores tradicionais. Segundo estes: faça-os sofrer, imponha sanções, suspensões. Faça-os parecerem ridículos perante os outros, os não tão compulsivos comedores de salgadinhos empapados em gordura vegetal.
No entanto, o jovem professor portando óculos de aros finos, estratagema para esconder a timidez absoluta expondo que é tímido ao absoluto, imagina, pressupõe, intui... Intui num único lance fatal que, segundo a teoria da proporção que, quanto mais humilhações impor aos comedores de salgadinhos, empapados em óleo de gordura animal e banha lacerada, fritos 40 vezes ao dia na mesma gordura, mais eles ficarão insensíveis, adquirindo poderosa imunidade. Tal como células resistentes a tratamento. Possuem uma capa impermeável de proteção à sua identidade, cujo núcleo se localiza no óleo das coxinhas, kibes habibianos, salgadinhos fritex (mais baratos que os da elma chips).
Então o professor se rende. Maneiras e gestos amplos, antes; depois gestos encolhidos, quase como se fosse um pedido de desculpas por estar se intrometendo no estranho e familiar mundo dos compulsivos comedores de salgadinhos a caminho do infarto de uma geração empapada em óleo e colesterol fritex. Então, sempre o então, o professor pende a sua cabeça para o lado direito ou esquerdo. A direção não importa. A cabeça pende. Um filete de sangue escorre pelo canto de sua boca misturado a uma gosma. O sangue cor de vinho, sangue coágulo, sangue desmanche, sangue grosso, incompatível com a magreza do jovem professor de olhos claros que projetavam alguma luz para um canto. A luz cessou. Deu uma pane qualquer: causa não identificada. Discretamente o professor fez um último gesto na tentativa de comunicação com os jovens comedores de salgadinhos. Ponte estabelecida, comunicação concretizada quando os jovens comedores de salgadinhos empapados em óleo e agora também em sangue fresco e anêmico, constatam que o professor acaba de morrer.


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