Cochichos e Relaxos


13/07/2006


todas as boas intenções do mundo 4

Até que, num esforço sobre humano, as nossas mãos se encontram para um curtíssimo aperto de mão.

“Oiiii....!”, Ambrósia sinaliza para algum vendedor de peças esculpidas em gesso. Pergunta o preço, negocia, pechincha, ajoelha-se e obtém a peça por um quarto do preço original.

“Ela gosta de comprar, pechincha até umas horas, pois sabe que o vendedor-escultor tá sempre na pindaíba. Com perspicácia, sacou o estado de penúria do escultor e, com isso, negociou vantajosamente...” diz Lídia em sua descrição narrativa-futebolística-de-rádio, como quem coloca legendas para eu poder compreender o filme que se desenrolava ao meu redor.

E onde ela colocará a estátua? Grande mistério, porque no apê dela não cabe mais nada. Egídio ergue a Vênus, pegando-a pelo braço frágil.

“Mas assim vai quebrar”, diz a dona do bar.

“Ah, mas se quebrar, quebrou! Se quebrar Ambrósia compra estátua. Não tenho outro jeito de carregar esse trambolho pro apê dela né?”, esbraveja Egídio, meio bicha, meio matrona.

Penso em um antídoto, sempre penso nos remédios que nunca levo no meu bolso. Estou ficando hipocondríaco por causa da humanidade. O Iluminismo, às vezes é tão chato, mas penso ter a bula dele e os comprimidos também. É só um chacoalhão, um chacoalhão que elas precisam... penso em Vênus e no comércio que se faz com a sua imagem, cópia tão mal feita que ninguém se importa se ela se quebrar. Fabrique, Ambrósia, com a sua técnica peculiar, a própria Vênus que sai da tua mente e do teu coração. Nem que o pescoço fique torto, ou os olhos sombrios, ou as maçãs da face demasiado desproporcionais. Pois a tua Vênus será tão somente o prenúncio de tua primavera.       

Quanto discurso produzido numa única noite, meu deus! Quanto blá-blá-bla sem sentido, com sentido, blá-blá-blás tortos, bizarros. E por isso eu vou me auto-imolar esta noite. Eu me vingarei de mim por elas: Ambrósia, Lídia, as cochichentas, as relaxadas da noite que nada tem de sombria ou alegre. E também vou ser auto-indulgente; vou tomar todas e me estatelar na sarjeta. Vou ver a Lua através da poluição e dizer alguma besteira poética que todo chato metido a escritor costuma fazer. Esse sou eu!

 

 

 

 

  

Escrito por Jiló às 18h10
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico