“Eu sou o que sou”, ele disse sem maiores desenvolvimentos diante do imparcial analista de sistemas. Trancado, fechado a sete chaves. Engraçado que se espantaria se alguém falasse que era fechado. Precisava se convencer de que era trancado e fechado, por isso repetiu inúmeras vezes, com o máximo grau de objetividade ao analista de sistemas: “Eu sou eu; este sou eu: fechado e trancado e truncado, irredutível a mim mesmo.” Por que tão quieto e calado? Antes do nascimento deve ter feito votos, promessas para falar pouco. Imaginem, desde pequeno tem este traço, ah e o olhar também triste. No berçário do hospital já dava pra perceber um bebê quieto que quase não sorria. Eram esses os comentários a seu respeito. Imaginavam todo tipo de causa não eficiente. E por que justo ela teria se referido de forma tão pejorativa, com desdém? ”Ele é fechado, super fechado e calado como pedra pome”. Chocado, ele ficou, porque não tinha idéia do quanto as pessoas o repudiavam. Até um ano atrás parecia diferente, havia um outro clima,mais amistoso que o envolvia. Era aceito em vários ambientes. Ele se via projetando em vários locais, como a sombra que adquire autonomia e se confunde com a própria cidade, a sombra que se desdobra em várias formas. Projetar é palavra de significado mais adequado do que transitar, participar. O seu corpo, a sombra dele, parte da alma, estava com o grupo. As pessoas que participavam da confraria sempre o reconheceram e o trataram sem nenhuma diferença. À primeira vista, é como se fizesse parte da confraria, familiarizado com as suas regras e seu fluxo. Tão harmoniosamente integrado ao grupo. Harmonia, sempre que pensava em harmonia grupal, tribal, irritava-se, desgostoso consigo mesmo. Gostava do tom cordial, de camaradagem, mas a palavra harmonia, que vez por outra teimava em surgir do aparente nada, o incomodava. E então se interrogava sobre o que estava fazendo ali, naquele grupo, perdendo o seu tempo, empregando o seu esforço para manter o ambiente harmônico! Além disso, estava com um terço de alma empenhado no grupo. Conseguiu até a proeza de fragmentar a alma e emprestar temporariamente uma parte dela ao grupo, para que a alegria prosseguisse em frente. Estava tão próximo e ao mesmo tempo tão distante deles. Ele e as suas sete chaves. Isto faz parte da personalidade. Porque ele circula de um grupo a outro, eterno andarilho, ávido por descobrir novos modos de expressão. Entra, mas nunca se aprofunda o suficiente. Tem medo, provavelmente tem medos não digeridos completamente, por isso não pode senti-los. Às vezes parece que as sombras, dos outros e as múltiplas sombras dele, se voltam contra ele para esmagá-lo. O lugar seguro onde se refugia é a coxia ou na última fila da platéia, aquela fila reservada a quem deseja sair antes da peça acabar.


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