Cochichos e Relaxos


23/07/2006


Aquele sou eu! parte 2

Houve um dia, no entanto, que ela o tocou. Não na alma ou em algum órgão sensitivo. Ele o tocou no braço e olhou fixamente para os seus olhos. E como ele não se mexia, ela tomou a liberdade de segurar firme com as duas mãos o antebraço esquerdo.

Mais do que com a força que ela pressionava o seu braço, ele ficou chocado com as palavras que ela dizia, ondas sonoras carregadas de emoção e disritimia. Disse como ele a havia impressionado, tornado-se importante em sua vida, a figura dele passando de uma sombra imperceptível a um homem cristalino, maravilhoso. Disse que gostava muito dele, da forma doce e delicada de se comportar, do jeito reservado que deixava entrever grandes tesouros ocultos nas profundezas... E por fim disse que também o achava gostosinho. O sacro e o profano, ele desdenhou. O carnal e o espiritual.

Ora, mas ele não tinha nada a dizer. Ele que se considerava raso e não via qualquer profundidade naquele silêncio, não segurou o riso nervoso. E soltou gargalhadas. Ela tremeu e não parou mais. Ele se tornou provocativo para afastá-la.

“Gostosinho eu? Ai, ai, como sou gostosinho e engomadinho”, foi a primeira frase que soltou depois do longo e habitual silêncio. E novamente as gargalhadas. Ela continuava tremendo e não parava mais. Em sincronia aos tremores dela, ele não conseguia mais parar com as gargalhadas agora escandalosas e soltava gases pelos poros, pelo cu.

Depois, parcialmente recomposto, disse a ela que não se achava nem um pouco gostosinho, pronunciando cada sílaba com um biquinho a fim de acentuar a pronuncia. E diante da boca escancarada dela (o que ela queria dizer com aquela boca escancarada?), despejou a sua lógica de poucas premissas: “Sou quieto. O silêncio é incorporado à minha pele. Veja com atenção a minha pele e reconhecerá nela o silêncio. É apenas silêncio, nem raso nem profundo. Não tenho nada a te oferecer, nem um poema, uma rosa, um gesto de carinho, nem o meu olhar...” virou e mirou num alvo que ela detestava: o bar das bichas.

“Esta vendo aquele bar”, disse por pura pirraça. “É o bar das bichas, lá é que é legal. Tenho a minha turminha, que está sempre à espera de aventuras carnais. Eles trocam confidências e são bem animados. Não vivem como você, com cara séria e gestos estudados! Como você notou, temos gostos opostos, personalidades separadas por oceanos, toneladas e toneladas de água...”

E ela se pôs a correr, desesperada. E ele observando aquela mulher tão sem nada no mundo a não ser uns fiapos de esperança projetadas nele. E foi dando progressivamente um nojo dele, dela e do mundo à medida que via o corpo feminino virar só um ponto sem nome, sem dono e sem dó. Um ponto sem dó, apenas um ponto.   

Escrito por Jiló às 11h10
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