Cochichos e Relaxos


03/08/2006


action painting

uma imagem: o silêncio. um som: os jardins ingleses burgueses.
os jardins em frêmito: sopro lunar do ano de 1939, como na foto preto e branco do calendário de 1933.

a pincelada trêmula: o zunir das abelhas.
cena estática: polém que deixa rastros; pólem no cravo; pólem fecundando jasmim.

cena em movimento constante: flores vistas até o fim da planície. flores vistas ao longo da planície até o lugar onde estou.
flores sem cores na diagonal. flores cinzentas e outras amarelecidas cruzando outra diagonal em meio a plantas rasteiras.

a pincelada desliza num único gesto: besouros zunem perto das bétulas em uníssono desafinado.

fileira de orquídeas da esquerda para a direita.
fileira de girassóis da direita para a esquerda.
girassóis-orquídeas

espátula: cores berrantes em rosas escandalosamente abertas

gotas caindo do pincel formam gerâneos esmaecidos; conta-gotas caindo do céu. tinta seca e água rás: girassóis-orquídeas misturam os seus limites em água solvente.

temporal e marcha fúnebre.gotas torrenciais e Brahms. aos primeiros acordes, rastro de lama arroxeada. girassóis-orquídeas sob temporal e marcha fúnebre: odor, bolor e nova cor.

atá o último gesto... até o último gesto borrar o jardim inglês burguês.

Escrito por Jiló às 17h37
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31/07/2006


eu tenho o que vocês querem

eu tenho o que vocês querem.
mas o que eu tenho não pertence a mim, não é uma parte de mim. Coincidiu; uma posse ao acaso. Uma posse
por desdobramento processual. Sabe... tantas pessoas que trafegam por esta rua poderiam ter a mesma coisa que eu. Não é raro e vc sabe disso.
Tantas pessoas poderiam ter as coisas com mais charme. Porém em algo elas coincidiriam: a coisa não pertence a elas, é circunstancial. Amanhã acaba e mesmo que não acabe de que adianta? No fim acaba entrando na rotina e entendiando; no fim todo esse sucesso soará como uma estupidez: o desejo
das pessoas por algo que vc tem, que nem é seu.
eu tenho agora.
amanhã não valerá mais um centavo furado.
amanhã o caminho natural será a lata de lixo.
mas hoje eu tenho, e sei que é mercadoria de valor, por isso negocio por um preço bem alto
por exemplo,...
vc parece atraída pelos meus olhos azuis. eles não são azuis, são cinza natimortos. por que finge então querer a mim? eu tenho o que vocês querem. eis o meu trunfo de hoje! 

Escrito por Jiló às 09h39
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30/07/2006


desejos 2

Olha, eu sei que você nasceu aqui moço, mas seus pais vieram depois. Sim, eu sei. Nasceu aqui, tem os documentos daqui, mas chegou depois. Chegar depois faz uma grande diferença moço. Quem chega depois já encontra a casa mais ou menos arrumada. Tá certo que isso mais parece a casa da Maria sem Joana e uma deus-nos-acuda. Quem chega depois moço, tem de se adaptar. Não pode ir entrando sem mais nem menos; não pode ir modificando as coisas. E depois tem outra: quem chega depois pode muito bem sair. Pegar os trapos e voltar praquele lugar, lá onde seus pais perderam o juízo.

Eu não posso voltar moço. Não posso voltar nem partir. Tenho de agüentar esse lugar. Não reclamo da minha vida. Tenho a minha mulher, meu filho e minha filha. Tenho um neto que é um capeta. E eu tô conservado não é moço? Porque a vida foi boa comigo. Tomo os meus gorós e também ralei pra cacete.

Enfim, tenho a minha mulher e ela não me tem. Não se pode dar moleza a elas moço. Aliás nem sei se você chegado. Sabe que você é feio pra cacete? Não me leve a mal não.

Agora que eu falei sobre a minha vida, me conte um pouco sobre a sua... Como não tem nada a dizer? Escuta aqui ô moço, eu só atravessei o bar porque você estava me encarando. Tá achando que o negão é bonito é? Sei lá moço. Cada um em seu canto. Eu só vim te dar umas boas vindas porque aqui todo mundo é do bem.

Agora no bar do Naldinho o esquema é diferente, sabe moço? Hoje eu não vou lá, vou dar um rolê na praia. Minha mulher? Ah, moço, tá muito preocupado com a minha mulher hein? Deixa ela pra lá. Ninguém me segura aqui, vou onde me der na telha. Que é isso moço? Tá parecendo o meu pai ralhando comigo, quando era criança. E não folga comigo, hein moço? Eu te conheço. Conheço tipos como você. Olhando nos teus olhos é como seu eu tivesse convivido durante muitos anos com tipos como você.

Qual é moço? O teu lance é com o Naldinho. Mas se eu fosse você, trocaria de blusa e iria sem ela. Tá frio, mas é melhor ir sem essa blusa. Essa blusa não é daqui, essa blusa é de fora. Eu conheço, esa blusa é da terra dos teus pais e avós. Não interessa se é barata ou cara moço! Tênis Nike, original ou paraguaio, tem aqui e tem lá. Essa blusa só tem lá moço. Como vai ao bar do Naldinho com essa blusa, moço? Como podem os seus pais atravessarem o mundo com uma blusa dessas na bagagem?

E se quiser um conselho: não volte mais com essa blusa aqui. Não pise na grama, moço, se você insistir com essa blusa vai dar confusão. E se quiser um novo conselho: não ponha mais os pés neste bar. E se insistir em voltar a este bairro vai ser queimado. E se insistir em estragar as hortas e os canteiros vai ser morto dia desses. E se fizer uma bobagem maior será linchado e cuspido no lixão da Vila Alpina. Agora é uma ordem, agora eu tô te tocando daqui. A tua blusa me deixa nervoso. Ela é tua cara, combina com você. Nojenta como o dono.

Aqui tem as melhores coisas que deseja, mas não vamos entregar de mão beijada o que você quer. Não vamos dar de mão beijada aquilo que você só desconfia que deseja.

Escrito por Jiló às 14h15
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Desejos

Eu não tenho o que você quer, mas eu sei onde tem... mesmo que você não saiba o que quer, eu sei exatamente o que você quer. Eu não produzo, já deu pra notar.

Nem compro, depois revendo o que você quer. Se você quisesse não estaria aqui. Sempre saímos de casa por algum motivo específico. Você sai pelo motivo. O grande motivo, o pequeno motivo. Você sai de casa pra matar a sede, pra estraçalhar a vontade que tem. Porque não consegue ficar enjaulado em casa.

Escute, eu sei até acredito que você não saiba o porquê veio para aqui, num buraco desses. Se eu quisesse me gabar, diria que eu sou um bom anfitrião para ter guiar noite afora.

Moço, eu posso te apresentar às pessoas certas. Mas por favor não me envolva em seus desejos. Eu só gosto de cachaça e mulher.

Falando em mulher, vou ser sincero com você. Ô coisa feia você é! Coisa feia à procura de...

Ta vendo a cor da minha pele? Claro né? Só um cego não veria. Você não é cego, suponho! Vê, enxerga e, quietamente, fica sacando o ambiente. Então, sou um negro de 58 anos. Me dou com todo mundo. Não precisa se assustar comigo. Somos todos pertencentes a esse imenso país. Não é isso? Hein? Você diz que somos terráqueos? É isso mesmo, gostei da palavra. Terráqueo igual a comedor de terra. Comer terra dá lombriga, lombriga é um falso desejo por...

Acho que vou pedir mais um conhque. Você paga mais um domec? De onde você veio? Como se nega a pagar? Tá tudo bem. Logo agora que eu ia te apresentar ao pessoal do bar do Naldinho. Já ouviu falar no Naldinho?

Lá tem o que você quer! Como eu sei? Ora, sabendo. Foi identificação à primeira vista. O Naldinho é um cara discreto. Quer que eu negocie com ele? Como assim? Desejos custam dinheiro e, dependendo do caso, muito dinheiro.

Eu to fora. Fico só com o meu conhaque fim de semana e o ouvido inchado de tanto ouvir minha esposa me enchendo o saco quando chego bêbado em casa.

Aqui só tem uma coisa que eu quero: cachaça! Vou repetir e repetir moço: aqui não tem o que você quer. E não adianta ficar com cara de espantado-dissimulado.

Você é casado? Sabia! Quem se consome no desejo não pode ter relacionamento estável. Eu, por exemplo, sou um cara do equilíbrio. Ta sabendo né? Mas geralmente os que tem o mesmo desejo que o seu não são casados. Não é interpretação moço, é a realidade purinha feito caninha.

Você ta vendo a cor do Domec? É produzido na Espanha. O melhor conhaque. Agora aquele outro só dá dor de cabeça, parece que tem até um iodo dentro. No cheiro já se percebe. Saquei que bebida não é o seu forte. Fica aí nessa cerveja chocha.

Escute aqui, vamos abrir o jogo. Você gosta de mulher? Não me leve a mal moço, mas é que você ficou me encarando do outro lado do balcão e por isso eu vim aqui, só pra conferir e dizer que é bem vindo. Não sou bicha hein. Vim aqui por amizade, afinal sou nascido e criado neste país e todos são bem vindos; todos, até os ladrões ordinários do país vizinho são bem recebidos. Você leu as últimas notícias moço? Como os cretinos dos nossos governantes fizeram encarecer o nosso produto? Apesar dos apesares somos um povo que recebe a todos de braços abertos. 

Escrito por Jiló às 14h11
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