É meu filho, o senhor não compreende? O Pedro Almeida!
Compreendo, mas veja minha senhora aqui estão os fatos. Todo o processo já ocorreu. Nada mais pode ser feito.
A senhora mostra a foto numa tentativa de convencer o burocrata. O que o senhor acha da foto?
Eu penso que é um rapaz simpático, com uma ponta de tristeza profunda no olhar, como se tivesse um brilho às avessas.
Feita esta observação, a senhora se anima. Pensa: consegui extrair a simpatia e a compaixão do burocrata. O senhor tem de fazer alguma coisa por ele.
Mas o que eu posso fazer? Todos pensam eu sou uma espécie de deus! Todos pensam que eu posso colocar uma marquinha, dar um clique e interromper o processo.
O senhor não compreende, tem de reverter o processo. Eu não tenho poderes minha senhora, sou apenas um burocrata cumprindo ordens estritas. Cadê a sua imaginação, a sua invenção? Ficou para trás, sufocada no meio de um monte de nãos, perdida no parque infantil da escola, quando fui ridicularizado por espalhar areia daquela forma que eu achava tão original e criativa.
Ele vai se desmanchar como castelos de areia, o meu filho. Ele não tem estrutura para suportar.
Eu me desmancho a cada dia minha senhora, O meu filho já está trabalhando, aprendendo novas coisas. Eu comecei a trabalhar muito tarde, depois dos 30 anos e não vi nenhum malefício nisso. Mamei nas tetas dos meus pais, depois mamei nas tetas do governo até quando pude e não me arrependo disso.
O meu filho cometeu um erro, eu sei. Ele vai ficar desolado quando souber da notícia. E eu que me desolo a cada pôr-do-sol porque sei que é um dia insignificante a menos. E fico perdido, por não saber se fico aliviado ou apavorado pelo dia a menos que tenho na vida.
Senhor, meu filho sofreu muito uma época da vida com a perda prematura do pai.
Nisso somos idênticos minha senhora. Quem sabe ele não descubra o prazer no sofrimento; quem sabe o sofrimento não vire um vício?
É por isso que o senhor não liga o ventilador com todo esse calor e ar abafado? Exatamente. E uso gravata com nó italiano, apesar de ser totalmente desnecessária a gravata. O senhor é um louco desvairado... Sou esquizofrênico às vezes, mas não posso sofrer pelo seu filho. O meu filho é um anjo, nasceu para ser feliz. Ela torna a mostrar a foto do filho. Os anjos e os não anjos tem aparências próximas. Certamente o meu filho jamais se parecerá com o senhor. Não creia tantos nos sentidos minha senhora, nem na sua fé vacilante. O senhor está enganado, minha fé é inabalável, sólida. A senhora ilude-se em vão e sabe disso. A fé da senhora é pendular. Só está aqui pelo desespero. Até ontem achava o seu filho a desolação em pessoa; até ontem quase o chateava. A senhora berra com a voz rouca: é mentira seu maníaco!!! O seu filho se escondia no meios das sombras dos outros, abria as tampas dos bueiros, a senhora sabia, tanto sabia que até cogitou em abandoná-lo distraidamente no meio da avenida paulista; cogitou em esquecê-lo como se nunca tivesse tido um filho. É mentiraaaaa, a senhora em desespero se contorce e berra! Pare com isso meu senhor. Quanta ironia a vida pode nos reservar não é minha senhora? Ironia? Sim, para alguém que se escondia nos bueiros infestados de ratazanas, baratas e água imunda, atirar-se do décimo andar não deixa de ser um gesto irônico.