Cochichos e Relaxos


20/02/2007


Eu não sou eu

“Eu sou o que sou”, ele disse sem maiores desenvolvimentos diante do imparcial analista de sistemas. Trancado, fechado a sete chaves. Engraçado que se espantaria se alguém falasse que era fechado. Precisava se convencer de que era trancado e fechado, por isso repetiu inúmeras vezes com o máximo grau de objetividade ao analista de sistemas: “Eu sou eu; este sou eu: fechado e trancado e truncado, irredutível a mim mesmo.”

Por que tão quieto e calado? Antes do nascimento deve ter feito votos, promessas para falar pouco. Imaginem, desde pequeno tem este traço, ah e o olhar também triste. No berçário do hospital já dava pra perceber um bebê quieto que quase não sorria.

Eram esses os comentários a seu respeito. Imaginavam todo tipo de causa não eficiente. E por que justo ela teria se referido de forma tão pejorativa, com desdém? ”Ele é fechado, super fechado e calado como pedra pome”. Chocado, ele ficou, porque não tinha idéia do quanto as pessoas o repudiavam. Até um ano atrás parecia diferente, havia um outro clima,mais amistoso que o envolvia. Era aceito em vários ambientes.

Ele se via projetando em vários locais, como a sombra que adquire autonomia e se confunde com a própria cidade. Projetar é palavra de significado mais adequado do que transitar, participar. O seu corpo, a sombra dele, parte da alma, estava com o grupo. As pessoas que participavam da confraria sempre o reconheceram e o trataram sem nenhuma diferença. À primeira vista, é como se fizesse parte da confraria, familiarizado com as suas regras e seu fluxo. Tão harmoniosamente integrado ao grupo. Harmonia, sempre que pensava em harmonia grupal, tribal, irritava-se, desgostoso consigo mesmo. Gostava do tom cordial, de camaradagem, mas a palavra harmonia, que vez por outra teimava em surgir do aparente nada, o incomodava. E então se interrogava sobre o que estava fazendo ali, naquele grupo, perdendo o seu tempo, empregando o seu esforço para manter o ambiente harmônico!

Além disso, estava com um terço de alma empenhado no grupo. Conseguiu até a proeza de fragmentar a alma e emprestar temporariamente uma parte dela ao grupo, para que a alegria prosseguisse em frente. Estava tão próximo e ao mesmo tempo tão distante deles. Ele e as suas sete chaves. Isto faz parte da personalidade. Porque ele circula de um grupo a outro, eterno andarilho, ávido por descobrir novos modos de expressão. Entra, mas nunca se aprofunda o suficiente.  Tem medo, provavelmente tem medos não digeridos completamente, por isso não pode senti-los. Às vezes parece que as sombras, dos outros e as múltiplas sombras dele, estão prestes a esmagá-lo. O lugar seguro onde se refugia é a coxia ou na última fila da platéia, aquela fila reservada a quem deseja sair antes da peça acabar.

Houve um dia, no entanto, que ela o tocou. Não na alma ou em algum órgão sensitivo. Ele o tocou no braço e olhou fixamente para os seus olhos. E como ele não se mexia, ela tomou a liberdade de segurar firme com as duas mãos o antebraço esquerdo.

Mais do que com a força que ela pressionava o seu braço, ficou chocado com as palavras que ela dizia, ondas sonoras carregadas de emoção e disritmia. Disse como ele a havia impressionado, tornado importante em sua vida, a figura dele passando de uma sombra imperceptível a um homem cristalino, maravilhoso. Disse que gostava muito dele, da forma doce e delicada de se comportar, do jeito reservado que deixava entrever grandes tesouros ocultos nas profundezas... E por fim disse que também o achava gostosinho. O sacro e o profano, ele desdenhou. O carnal e o espiritual.

Ora, mas ele não tinha nada a dizer. Ele que se considerava raso e não via qualquer profundidade naquele silêncio, não segurou o riso nervoso. E soltou gargalhadas. Ela tremeu e não parou mais. Ele se tornou provocativo para afastá-la.

“Gostosinho eu? Ai, ai, como sou gostosinho e engomadinho”, foi a primeira frase que soltou depois do longo e habitual silêncio. E novamente as gargalhadas. Ela continuava tremendo e não parava mais. Em sincronia aos tremores dela, ele não conseguia mais parar com as gargalhadas agora escandalosas e soltava gases pelos poros, pelo cu.

Depois, parcialmente recomposto, disse a ela que não se achava nem um pouco gostosinho, pronunciando cada sílaba com um biquinho a fim de acentuar a pronuncia. E diante da boca escancarada dela (o que ela queria dizer com aquela boca escancarada?), despejou a sua lógica de poucas premissas: “Sou quieto. O silêncio é incorporado à minha pele. Veja com atenção a minha pele e reconhecerá nela o silêncio. É apenas silêncio, nem raso nem profundo. Não tenho nada a te oferecer, nem um poema, uma rosa, um gesto de carinho, nem o meu olhar...” virou e mirou num alvo que ela detestava: o bar das bichas.

“Esta vendo aquele bar”, disse por pura pirraça. “É o bar das bichas, lá é que é legal. Tenho a minha turminha, que está sempre à espera de aventuras carnais. Eles trocam confidências e são bem animados. Não vivem como você, com cara séria e gestos estudados! Como você notou, temos gostos opostos, personalidades separadas por oceanos, toneladas e toneladas de água...”

E ela se pôs a correr, desesperada. E ele observando aquela mulher tão sem nada no mundo a não ser uns fiapos de esperança projetadas nele. E foi dando progressivamente um nojo dele, dela e do mundo à medida que via o corpo feminino virar só um ponto sem nome, sem dono e sem dó. Um ponto sem dó, apenas um ponto.   

Escrito por Jiló às 11h20
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18/02/2007


E

E o garoto brutalmente assassinado
E a chacina na periferia de sampa
E a miséria sem fim
E o rio poluído de mercúrio
E o não peixes.
AS negações, todas as negações de que eles são capazes. 
A mãe que berra.
O filho que berra.
O gemido de dor, este meu, por ainda estar aqui.
E a pobreza no interior do ceará.
E a exploração no interior das chinas, onde habitamos.
Todas as recusas que eles nos dão.
E a violência surda mais a morte consentida, mais a cabeça a prêmio
dos terroristas, mais a felicidade escancarada no rosto da passista,
mais a proteção da mãe ao bebê de colo, mais carros bombas no Iraque.
Jerusalém, Istambul, Nova Iorque, Nova Deli, Cairo, Managuá.
cada qual carrega o seu crime, os seus rastros de sangue. 

Escrito por Jiló às 18h06
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