Entrevê-se uma mulher, baixinha aparentando ter 60 e poucos anos, rugas acentudas em seu rosto encardido, carcomido pela passagem da pobreza à solidão e desta ao apego a única coisa que lhe resta: João! Ela diz baixinho: João, ô João.
Bêbado: mas o que você tá fazendo aqui?
“Eu te segui João”.
Bêbado: como sempre você me segue. Já não te disse que não quero você.
“Eu vou te seguir pra sempre João”.
Bêbado: que papo doido... Eu tô cansado, queria me sentar.
“Mas não tem lugar pra sentar, o metrô tá lotado”.
Narrador: o metrô tá lotado sempre. Hora do rush. Das pessoas voltando do trabalho e indo pra faculdade. É a hora mais melancólica do dia. Empilhadas, as pessoas, empilhadas como sacos de arroz. É a hora do dia que vê a luz natural se apagando.
Bêbado: Estamos entrando no buraco.
A luz torna-se mais fraca, enquanto o metrô mergulha nas estações subterrâneas.
A voz da mulher miúda torna-se mais forte: “João, vamos descer”.
Bêbado: descer aonde?
A voz da mulher miúda voltar a ficar fraca: “Na próxima estação João”.
Narrador: João não tem para onde ir. João morava num barraco de madeira próxima à linha de trem de Pirituba. Nunca parava lá. João não tinha ponto de partida nem ponto de chegada.
Bêbado: A próxima estação tá muito perto. Vamos descer na última estação.


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