Cochichos e Relaxos


03/03/2007


Bêbado parte 3

Entrevê-se uma mulher, baixinha aparentando ter 60 e poucos anos, rugas acentudas em seu rosto encardido, carcomido pela passagem da pobreza à solidão e desta ao apego a única coisa que lhe resta: João! Ela diz baixinho: João, ô João.

 

Bêbado: mas o que você tá fazendo aqui?

 

“Eu te segui João”.

 

Bêbado: como sempre você me segue. Já não te disse que não quero você.

 

“Eu vou te seguir pra sempre João”.

 

Bêbado: que papo doido... Eu tô cansado, queria me sentar.

 

“Mas não tem lugar pra sentar, o metrô tá lotado”.

 

Narrador: o metrô tá lotado sempre. Hora do rush. Das pessoas voltando do trabalho e indo pra faculdade. É a hora mais melancólica do dia. Empilhadas, as pessoas, empilhadas como sacos de arroz. É a hora do dia que vê a luz natural se apagando.

 

Bêbado: Estamos entrando no buraco.

 

A luz torna-se mais fraca, enquanto o metrô mergulha nas estações subterrâneas.

 

A voz da mulher miúda torna-se mais forte: “João, vamos descer”.

 

Bêbado: descer aonde?

 

A voz da mulher miúda voltar a ficar fraca: “Na próxima estação João”.

 

Narrador: João não tem para onde ir. João morava num barraco de madeira próxima à linha de trem de Pirituba. Nunca parava lá. João não tinha ponto de partida nem ponto de chegada.

 

Bêbado: A próxima estação tá muito perto. Vamos descer na última estação.

Escrito por Jiló às 10h26
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Bêbado (parte 2)

Narrador: ficha limpa. Ele é um cara ficha limpa. Não tem nada na polícia. Atestado de bom comportamento. Um cara pobre e com a ficha limpa até o dia em que...

 

Bêbado tira uma garrafa de pinga da sacola destampa-a e bebe um longo gole.

Bem vindo senhoras e senhores ao meu mundo, que é o meu inferno. Aceitam um gole? A pinga é pouca mas é honesta. Este é o meu lar! Sejam bem vindos a minha paisagem preferida. Atrás de mim está o rio Pinheiros. Ou melhor, me desculpem. Atrás de mim está o rio Tietê! Sintam o belo visual.

 

Narrador: Evidentemente que João não estava muito preocupado com a sua ficha policial. Ele simplesmente queria um pouco de atenção. Justamente nesse dia ele queria atenção. Não queria ficar sozinho. Separado, sem amigos.

 

Uma voz no metrô, uma voz fraca e tímida, chama: João, João...

 

Bêbado andando de um lado para o outro do vagão. “Sejam bem vindos, mas se conhecerem melhor o meu mundo certamente não vai querer viver nele. Aqui é muito quente sabe? Cheiro desagradável. O cheiro é muito forte! O meu cheiro é igual ao do rio Tietê.”

 

Passageiro: Agora tá querendo se exibir.

 

Passageiro exaltado: Deixa que eu mesmo vou tirar satisfação com esse cara.

 

Passageiro: Não se mete, deixe que os seguranças cuidem dele.

 

Passageiro exaltado: Mas não há seguranças. Quando mais precisamos, os seguranças somem. Serviço do Estado é tudo igual.

Escrito por Jiló às 10h22
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Bêbado (parte 1)

Coro sussurra: Esse cara é um lixo.

 

Coro mais alto: Esse cara é um babaca.

 

Coro: Esse cara é um chato, tentando ser engraçado.

 

Coro feminino: Cada louco com a sua loucura.

 

Coro: Cidade de loucos a nossa...

 

Coro: Esse cara é um otário, dando mole no metrô. Daqui a pouco, vêm os seguranças e o pegam.

 

Minutos antes, um bêbado entrava no metrô segurando uma sacola: Hoje acordei com vontade de... pegar o metrô. Eu preciso me deslocar, eu preciso partir daqui e ir a outro lugar. O metrô é bem mais prático até quando não se tem dinheiro pra pagar a passagem.

 

Narrador: Ele entra no metrô. Mas antes de entrar no metrô, estava sentado como todos os dias em frente ao banco de Boston. Esta manhã não estava bem, uma nuvem negra paira sobre a sua cabeça.

 

Bêbado: O metrô é ótima oportunidade pra conhecer as pessoas que atravessam de um lado para o outro de um lado para o outro a cidade. De um lado para o outro. De um lado para o outro. De um lado para o outro. As pessoas atravessem tanto a cidade de um lado para o outro a ponto de não saberem mais o motivo, a causa de atravessarem a cidade... de uma lado para o outro. Tic, tac. Da sala de estar para o banheiro, do banheiro para a sala de estar.

 

Passageiro comenta: Ele tá falando sozinho, como todos os doidos. Finge que fala sozinho, nos provoca e aí quando a coisa esquenta volta a falar sozinho.

 

Outro passageiro: Sim. Ele está querendo nos provocar. Cadê os seguranças? A Políciaaaaa

Escrito por Jiló às 10h21
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