Você viu aquela menina empapada em suor e espanto? Você viu ou apenas a olhou de viés para evitar o choque. O choque da imagem em estado bruto, sem depurações, sem qualquer reparo; o grande choque, pedra sob pedra. O rosto dela recortado contra o seu rosto, agora pálido, outrora cheio de hematomas. Então você a evitou como evitou olhar-se no espelho anos atrás. E porque você a evitou agora, te mostraram a fotografia dela. Confirma? Te perguntaram, os funcionários da zelosa instituição na qual você modorrentamente cumpria a sua jornada. Sim, é essa sou eu, você respondeu na maior naturalidade, resultado de um certo cansaço, combinado com tédio que sentia particularmente naquele dia. E todos se espantaram, porque não se tratava de uma cena surrealista. A foto é da menina, te disseram, com hematomas por várias partes do corpo. É a menina que encheu a cara, 13 anos e já totalmente alcoolizada. É a menina classe média que, do ponto de vista formal é excelente aluna, foi encontrada pela viatura policial estirada perto do posto de gasolina a três quarteirões da escola. E você não se espanta, te acusaram, olhos desafiadores e incrédulos; e você não se horroriza, te apontaram dedo em riste, levantando o velho argumento de que ela tem idade pra ser a sua filha. O que tem a ver as idades com o comportamento da menina, você pondera tão rapidamente que não percebe que houve ponderação. Você é do tipo instintivo, que pensa com o corpo e os sentidos. Você se faz passar por... um desses sujeitos que usa o corpo em escala crescente pra expressar as suas inabituais idéias. Mas agora você está encolhido, como querendo dizer que está recolhido em sua insignificância. Insignificância de quem vê a foto da menina, tão bonita, dizem, e já alcoolizada; estudiosa, e já viciada por culpa de más companhias e da família desestruturada.


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