Cochichos e Relaxos


08/08/2007


Uma menina

Você viu aquela menina empapada em suor e espanto? Você viu ou apenas a olhou de viés para evitar o choque. O choque da imagem em estado bruto, sem depurações, sem qualquer reparo; o grande choque, pedra sob pedra. O rosto dela recortado contra o seu rosto, agora pálido, outrora cheio de hematomas. Então você a evitou como evitou olhar-se no espelho anos atrás. E porque você a evitou agora, te mostraram a fotografia dela. Confirma? Te perguntaram, os funcionários da zelosa instituição na qual você modorrentamente cumpria a sua jornada. Sim, é essa sou eu, você respondeu na maior naturalidade, resultado de um certo cansaço, combinado com tédio que sentia particularmente naquele dia. E todos se espantaram, porque não se tratava de uma cena surrealista. A foto é da menina, te disseram, com hematomas por várias partes do corpo. É a menina que encheu a cara, 13 anos e já totalmente alcoolizada. É a menina classe média que, do ponto de vista formal é excelente aluna, foi encontrada pela viatura policial estirada perto do posto de gasolina a três quarteirões da escola. E você não se espanta, te acusaram, olhos desafiadores e incrédulos; e você não se horroriza, te apontaram dedo em riste, levantando o velho argumento de que ela tem idade pra ser a sua filha. O que tem a ver as idades com o comportamento da menina, você pondera tão rapidamente que não percebe que houve ponderação. Você é do tipo instintivo, que pensa com o corpo e os sentidos. Você se faz passar por... um desses sujeitos que usa o corpo em escala crescente pra expressar as suas inabituais idéias. Mas agora você está encolhido, como querendo dizer que está recolhido em sua insignificância. Insignificância de quem vê a foto da menina, tão bonita, dizem, e já alcoolizada; estudiosa, e já viciada por culpa de más companhias e da família desestruturada.

Eles continuam a te olhar, como se quisessem extrair uma confissão derradeira, como se esperassem por um pedido de desculpas diante de sua passividade, de sua não indignação. A menina sou eu e um outro tanto de punhado de pessoas, você diz. Mais cedo ou mais tarde, nós começaremos voluntariamente a apodrecer, como maçãs estragadas apodrecem orgulhosas; mais cedo ou mais tarde, eu repito, as pessoas começam a apodrecer, as pessoas desasjustadas ou as normais e equlibradas. Desconfio que todos, sem exceção, começam a apodrecer: os pais, os filhos, os executivos, as donas de boutiques chiques e os donos de bares decadentes. Cada um, em seu tempo e a seu modo, acionará o relógio; acenderá o incenso, mergulhará nas drogas, caminho tão banal e repetitivo como músicas no carnaval baiano; outros ainda atravessaram os portais dos templos apocalípticos. Mais cedo ou mais tarde, mais cedo como no caso da menina... A tua voz ainda está segura e sonora e potente. Mas você não ouve os protestos esperados. Talvez não tenha dito, será possível que tenha apenas pensando, delirado? Os funcionários, antes com olhares acusadores, agora trocam receitas de bolos de aniversário e depois discutem sobre a melhor forma de fritar pedaços de frango empapados em óleo e nenhum horror.

Escrito por Jiló às 09h31
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