Cochichos e Relaxos


28/12/2007


Paraísos artificiais

Há um ruído, sons cada vez mais fortes, em minha cabeça. Lou Reed berra de algum lugar. Vejo pedaços de banana, aveia, morangos espelhados na sala.
"O que há com você amigo?"
"Amigo?"
Eu não sei, há muito tempo que não sei o que se passa comigo. Eu tenho de concordar com você, estou em estradas que não levam a lugar nenhum, percorro quilometragens todos os dias sem destino. Páro em encruzilhadas, três mulheres aparecerem, eu aceno para eles, eu sorrio delas e para elas: sorriso adequado. mas descofio que estou sendo conivente, você sabe disso. você sabe, apesar da salada de frutas, que eu deveria ajudar o daniel. anseio vingança, anseio gritar, um berro agudo, um sussuro, um grito de socorro. Daniel tá com a cabeça esmagada.
"Calma amigo, daqui a pouco passa." Os paraísos artificiais não passam. 
Daniel, eu chamo. ele não se mexe, será que me ouve? Daniel eu grito, ele se recolhe.

Escrito por Jiló às 12h25
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26/12/2007


salada de frutas

o homem de 40 anos entrou na sala dos professores.
Diários por fazer, mães berrando para os seus filhos uma nota
qualquer, um dó sustenido e gritos não suprimidos.
A diretora responde ríspida ao coordenador.
Eu me encolho na poltrona, ao fundo da sala. O vento, feito bafo quente, entra
pelas frestas da janela quebrada com vistas para o corredor polonês vazio e solencioso.
O homem de 40 anos atravessa a sala carregando um recipiente de plástico.
A professora saliva de raiva por causa do café derramado na mesa, alguém interrompe
a conversa de dois professores para informar a um deles que há um chamado
urgente de sua casa, o filho aparecera bêbado e com manchas roxas nos braços.
O homem de 40 anos senta-se ao meu lado, mas não me vê. concluo que não me vê, porque
se espreguiça numa mistura de movimento de tai chu chuan com algum simulacro
de terapia corporal. O coordenador ordena que se preencham todos os diários, os professores rosnam num dialeto próprio.
Uma voz de professora ao celular, uma voz aguda assuta-se
com a voz da mãe, do outro lado do celular, a poeira cresce com o clima seco, a poeira envolve o celular, a mãe e a professora.
É inverno e verão no brasil varonil, é verão e deserto no brasil senil.
O homem destapa o recipiente de plástico azul e saca uma colher de plástico, embrulhada,
da mochila. Destapa cuidadosamente, gestos estudados para que a colher de plástico não caia e o recipiente de plástico não vire.
Duas senhoras conversam sobre as férias em ubachuva. Três mulheres conversam sobre
complicações com a burocracia bancária.
"Está servido amigo?"
"hein? É comigo? Não, bom apetite."
O homem de 40 anos mergulha a colher de plástico transparente no recipiente azul de plástico
em direção a um pedaço de banana e farelos de nozes.
Uma das mulheres, agora ao celular, berra com o gerente do banco estatal, reclama da transferência
dos pagamentos, ameaça ir à justiça. O vice-diretor aparace com um saco de pipocas, o filho
da faxineira aparece bêbado e grita viva o corinthians no corredor que dá para o pátio. De onde estou dá para ver a poeira entrando pela janela, dá para ouvir o barulhos dos carros, buzinando no cruzamento a dois
quarteirões de distância, dá para pressentir que as coisas não iam acabar bem para
o professor Daniel, que ele ia ser chamado à delegacia de ensino, que seus vencimentos seriam
cortadas por causa de seu vício em maconha e coacína e xilocaina. Paraísos artificiais. 
O homem de 40 fecha os olhos para comer a delícia_maravilha_da_culinária, abre um sorriso, um sorriso
irreal, de beato, de santo, que transcende fronteiras, transcende o banal.
Eu me levanto, eu o encaro, ele projeta seus olhos no paraíso. Ah, isso não, penso. ele não tem o direito
de projetar seus olhos no paraíso. O safado vai ter de pagar pelo ato, o safado beato.
Ele então volta-se para mim, falta ainda metade da salada de frutas, que ele mastiga demoradamente para
a boa digestão. Continua com o olhar beato beatificado bestificado.
O diretor me deseja feliz natal. Ouço os votos vindo da porta, as minhas costas,
mas eu sei que são para mim, aproveito o embalo e desejo feliz natal e uma ótima salada de frutas em 2008
para o homem de 40 anos, agora estatelado feito uma ameba, com a salada de frutas pela espalhada pela sala.

Escrito por Jiló às 12h39
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Pessoas saudáveis

Tem pessoas e pessoas. Tem pessoas que atravessam a sala e, imperturbáveis, comem
a sua salada de fruta em meio a poeira, em meio a guerra de nervos, nas trincheiras da disputa de poder.
A sua salada de frutas, a sua e não a dos outros. Elas comem a salada de frutas que é delas, somete delas.
Elas não devoram a salada de frutas, mastigam trinta vezes cada pedaço, e a digerem lentamente para o bem estar físico.
Elas abrem um sorriso. Sim: um sorriso, o mais aberto e sincero possível, e você acredita na
verdade e no fingimento de um gesto amistoso. A saúde restaurada pela salada de frutas e a paz
de espírito reestabelecida pelo sorriso beato, beirando ao insano.  
Uma luz insana bate na cabeça delas, afinando-se com o sorriso beato e definitivamente insano, que teima em não sair do seu rosto. Acreditam que estão no paraíso, comendo calma e docemente a sua salada de frutas. Saladas de frutas colorida, e um sorriso que brota espontâneo de seus rostos. São pessoas, eu diria, iluminadas,
imunes aos jogos de azar e de poder. Pessoas imunes ao teu desespero, a tua sujeira.

 

Escrito por Jiló às 10h06
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