o homem de 40 anos entrou na sala dos professores.
Diários por fazer, mães berrando para os seus filhos uma nota
qualquer, um dó sustenido e gritos não suprimidos.
A diretora responde ríspida ao coordenador.
Eu me encolho na poltrona, ao fundo da sala. O vento, feito bafo quente, entra
pelas frestas da janela quebrada com vistas para o corredor polonês vazio e solencioso.
O homem de 40 anos atravessa a sala carregando um recipiente de plástico.
A professora saliva de raiva por causa do café derramado na mesa, alguém interrompe
a conversa de dois professores para informar a um deles que há um chamado
urgente de sua casa, o filho aparecera bêbado e com manchas roxas nos braços.
O homem de 40 anos senta-se ao meu lado, mas não me vê. concluo que não me vê, porque
se espreguiça numa mistura de movimento de tai chu chuan com algum simulacro
de terapia corporal. O coordenador ordena que se preencham todos os diários, os professores rosnam num dialeto próprio.
Uma voz de professora ao celular, uma voz aguda assuta-se
com a voz da mãe, do outro lado do celular, a poeira cresce com o clima seco, a poeira envolve o celular, a mãe e a professora.
É inverno e verão no brasil varonil, é verão e deserto no brasil senil.
O homem destapa o recipiente de plástico azul e saca uma colher de plástico, embrulhada,
da mochila. Destapa cuidadosamente, gestos estudados para que a colher de plástico não caia e o recipiente de plástico não vire.
Duas senhoras conversam sobre as férias em ubachuva. Três mulheres conversam sobre
complicações com a burocracia bancária.
"Está servido amigo?"
"hein? É comigo? Não, bom apetite."
O homem de 40 anos mergulha a colher de plástico transparente no recipiente azul de plástico
em direção a um pedaço de banana e farelos de nozes.
Uma das mulheres, agora ao celular, berra com o gerente do banco estatal, reclama da transferência
dos pagamentos, ameaça ir à justiça. O vice-diretor aparace com um saco de pipocas, o filho
da faxineira aparece bêbado e grita viva o corinthians no corredor que dá para o pátio. De onde estou dá para ver a poeira entrando pela janela, dá para ouvir o barulhos dos carros, buzinando no cruzamento a dois
quarteirões de distância, dá para pressentir que as coisas não iam acabar bem para
o professor Daniel, que ele ia ser chamado à delegacia de ensino, que seus vencimentos seriam
cortadas por causa de seu vício em maconha e coacína e xilocaina. Paraísos artificiais.
O homem de 40 fecha os olhos para comer a delícia_maravilha_da_culinária, abre um sorriso, um sorriso
irreal, de beato, de santo, que transcende fronteiras, transcende o banal.
Eu me levanto, eu o encaro, ele projeta seus olhos no paraíso. Ah, isso não, penso. ele não tem o direito
de projetar seus olhos no paraíso. O safado vai ter de pagar pelo ato, o safado beato.
Ele então volta-se para mim, falta ainda metade da salada de frutas, que ele mastiga demoradamente para
a boa digestão. Continua com o olhar beato beatificado bestificado.
O diretor me deseja feliz natal. Ouço os votos vindo da porta, as minhas costas,
mas eu sei que são para mim, aproveito o embalo e desejo feliz natal e uma ótima salada de frutas em 2008
para o homem de 40 anos, agora estatelado feito uma ameba, com a salada de frutas pela espalhada pela sala.