Cochichos e Relaxos


21/07/2008


Barbantes silenciosos

Essa é a estória de um homem que desiste de tudo, tranca-se em seu quarto.

ele é casado e tem uma filha, beira os 60 anos. Essas coisas se revelaram ao longo da estória, como barbantes que se desenrolam sinuosos.

Ele guarda penduricalhos e faz longas peças, como Artur Bispo do Rosário.

Mas ele sabe disso, usa a arte para proteger o seu silêncio. Silêncio, o artista, artífice trabalha. Soa pretensioso e é pretensioso. Talvez não tenha nada de artístico a sua atitude em fechar-se no quarto, talvez (talvez?!) não tenha nada de profundo o seu silêncio. Ele mira as pessoas com o seu silêncio. De início as pessoas ficam desconfortáveis, depois há uma espécie de admiração, pois poderia se tratar de um sábio recluso, desses que não existem mais, desses sábios raros que o mundo moderno de competição extrema acaba por esmagar. Então aos olhos da filha, ele é esse sábio. Mesmo que ela nunca soubesse a palavra exata, mesmo que ela até se recussasse em pronunciá-la, o seu sentido de admiração ao pai é traduzível em sapiência. E, na infância, ela gostava de compartilhar do silêncio com o pai. Era agradável como receber raios de sol em manhãs invernais.

Eis um homem sábio, que se retirou da loucura do mundo para criar o seu mundo de sabedoria. E assim nada mais natural que o sábio submeta os outros (mãe e filha) à sua sabedoria, que no fundo pouco se diferencia com os ataques enraivecidos de uma criança mimada.

Usa pijama de flanela à noite. Durante o dia sai de casa para catar na rua barbantes coloridos, latinhas de todos os tipos.

A filha ainda tenta se comunicar com ele. Ele apita quando precisa de socorro. A esposa já desistiu faz tempo. Moram os três num quase cortiço. Ele persiste em sua fala monossilábica e agita um pequeno sino quando precisa de ajuda da esposa.

Depois de várias tentativas de convencer o pai a mudar de vida, a filha acha que

não há como muda-lo. Mas que raios, ela sempre o aceitou do modo dele. Impossível mudar uma pessoa de 60 anos...

Ela tem afeição pelo pai que sempre a defende das broncas da mãe. Ela achava que o entendia, ela quase o admira por levar a vida que leva. Ele está preso em seu quase mutismo, em seus longos períodos de silêncio exacerbado.

O tempo passa...

A filha está crescida, empregada e em idade de conhecer o mundo. Ela reluta em sair de casa, pois sempre esteve envolta em um invólucro: o seu mundo, o seu pequeno vasto do mundo...o seu imenso mundo de horizontes que vão sempre além. Ela sonha com o além, com o outro lado, dentro dela mesma, difícil de alcançar. Sonha com pés grandes, sonha com o lado selvagem da rua, com a lua que penetra em seus olhos sempre que ela os fechas. Olhos fechados e silêncio são como asas que a fazem voar e alcançar aquela liberdade só sentida em sonhos... A liberdade concêntrica, para dentro. Mas ela precisa da liberdade excêntrica, para fora.

Quando abre os olhos, agora vê o pai, como uma âncora pesada, afundando sonhos, afirmando pesadelos.

 

Escrito por Jiló às 12h22
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