Cochichos e Relaxos


05/09/2008


barbantes silenciosos

Até que um dia tem uma discussão com o pai, sobre a sua mãe. A primeira vez que ela defende a mãe. Estranho e não estranho.

F: não grite com a mãe.

P: Eu não estou gritando, eu estou engasgado com ela.

F: ela não te fez nada. Pelo contrário ela sempre faz tudo para o senhor!!!

P: ela não faz tudo nem nada.

M : deixe ele minha filha. É um estúpido, não sabe o que fala.

P: ela me deixa engasgado.

F: você é quem a perturba o dia inteiro com esse maldito sino.

P: Sua mãe concorda, sempre concorda.

F: eu não entendo pai, todos esses anos...

P: você entende, você sempre entendeu.

F: eu não suporto

P: você não suporta não entender.

 

Então ela decide sair de casa para poder entender o que se passava com o pai, com a mãe, com ela mesma. Não tem namorado, rejeita qualquer relação afetiva:

uma mulher de pedra e cal e cimento.

Ela, primeiro, se debate, entra em conflito consigo própria. Até que se decide e vai comunicar ao pai. Pensa primeiro em dizer de forma mais

objetiva e protocolar possível que está de saída. Depois pensa em comunicar ao pai como um doçura, afeto. Mas no fundo também ela não é dada a essas coisas assim como o pai. Não sabe que tipo de reação terá o pai. Se tentar impedi-la, talvez ela fique

ofendida; se não se importar, talvez ela fique sentida, imaginando que ele não a ama o suficiente, irá embora amargurada.

Na mesma casa há uma mulher decidida a não abandonar o marido. Tem o laço entre eles, como se alguém de fora os tivesse unido para não se separarem mais, contra a vontade dos dois.   

F: Pai...

(silêncio)

eleva um pouco a voz, depois de titubear: Pai.

(silêncio)

A filha dirige-se à porta, ouve uma voz:

P: Que foi?

F: Vou me embora.

P: Já vai? Pegue um casaco, pode se resfriar.

F: Você nunca se preocupou comigo dessa forma.

P: Eu falei por falar, saiu assim...

F: Eu disse que eu vou embora pai.

P: Sim, eu ouvi. Pegue a sua blusa pra não se resfriar.

F: Eu quero dizer que...

P: você vai embora, muito bem! Mas a blusa é importante seja onde você for.

F: a blusa...

Eu vou sair daqui e talvez demore um tempo para voltar.

P: Não precisa se justificar. Você tem todo o tempo possível para voltar.

F; Não se importa?

P: se você fosse à farmácia, se você fosse à padaria, também estaria indo embora.

F: mas não é a mesma coisa!

P: tantas pessoas mentem, dizem que vão à esquina e desaparecem, não é mesmo?

F: mas eu não sou tantas pessoas...

P: eu sei (suspira)

F: então

P: você é crescida. Você é dona de si, das suas coisas, da sua blusa.

F: você realmente não se importa não é papai?

P: me importar... as coisas nascem e não há nada que as prenda em lugar algum. Nada!

F: não se importa com a sua vida, com o que os outros sentem!

P: com a vida (sorri amargo), com a minha vida (enrola um barbante colorido numa haste de metal semi enferrujado), com a nossa vida, com a vida de ninguém..

Levanta-se e tira de um velho baú, que teimosamente mantém no centro do quarto, uma blusa antiga, de quando a filha era menina.

P: eu disse para você levar a blusa (diz num tom repreensivo) lá fora ta frio.

F: minha blusa de menina... o senhor guardou...

P: que eu saiba é a única blusa que você tem.

F; não, não.

P: sim.

F: essa blusa é da época que eu achava que o senhor se importava comigo. Lembra-se pai, de quando eu me sentava ao seu lado e te observava, mesmo o senhor não falando quase nada...

P: vamos parar com isso. São lembranças, só lembranças descoloridas. (volta a mexer nos barbantes coloridos)

Lembranças desbotadas, sem vida.

F: Melhor eu ir...

P: Espere.

F: não me impeça

P: só mais um momento.

A filha abre a porta e sai de casa. O pai continua a repetir: só mais um momento, mais um momento, cada vez mais baixo, cansado, a voz ganhando tristeza...

Só um momento, ele diz como uma oração ao contrário. Um momento para dizer que ela a amava, que ele queria abraçá-la, sentimento tão óbvio, mas afinal a vida é feita de sentimentos óbvios, ele que fugira da obviedade...e mergulhara em seu silêncio e em seus barbantes desbotados.

Escrito por Jiló às 11h44
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