Até que um dia tem uma discussão com o pai, sobre a sua mãe. A primeira vez que ela defende a mãe. Estranho e não estranho.
F: não grite com a mãe.
P: Eu não estou gritando, eu estou engasgado com ela.
F: ela não te fez nada. Pelo contrário ela sempre faz tudo para o senhor!!!
P: ela não faz tudo nem nada.
M : deixe ele minha filha. É um estúpido, não sabe o que fala.
P: ela me deixa engasgado.
F: você é quem a perturba o dia inteiro com esse maldito sino.
P: Sua mãe concorda, sempre concorda.
F: eu não entendo pai, todos esses anos...
P: você entende, você sempre entendeu.
F: eu não suporto
P: você não suporta não entender.
Então ela decide sair de casa para poder entender o que se passava com o pai, com a mãe, com ela mesma. Não tem namorado, rejeita qualquer relação afetiva:
uma mulher de pedra e cal e cimento.
Ela, primeiro, se debate, entra em conflito consigo própria. Até que se decide e vai comunicar ao pai. Pensa primeiro em dizer de forma mais
objetiva e protocolar possível que está de saída. Depois pensa em comunicar ao pai como um doçura, afeto. Mas no fundo também ela não é dada a essas coisas assim como o pai. Não sabe que tipo de reação terá o pai. Se tentar impedi-la, talvez ela fique
ofendida; se não se importar, talvez ela fique sentida, imaginando que ele não a ama o suficiente, irá embora amargurada.
Na mesma casa há uma mulher decidida a não abandonar o marido. Tem o laço entre eles, como se alguém de fora os tivesse unido para não se separarem mais, contra a vontade dos dois.
F: Pai...
(silêncio)
eleva um pouco a voz, depois de titubear: Pai.
(silêncio)
A filha dirige-se à porta, ouve uma voz:
P: Que foi?
F: Vou me embora.
P: Já vai? Pegue um casaco, pode se resfriar.
F: Você nunca se preocupou comigo dessa forma.
P: Eu falei por falar, saiu assim...
F: Eu disse que eu vou embora pai.
P: Sim, eu ouvi. Pegue a sua blusa pra não se resfriar.
F: Eu quero dizer que...
P: você vai embora, muito bem! Mas a blusa é importante seja onde você for.
F: a blusa...
Eu vou sair daqui e talvez demore um tempo para voltar.
P: Não precisa se justificar. Você tem todo o tempo possível para voltar.
F; Não se importa?
P: se você fosse à farmácia, se você fosse à padaria, também estaria indo embora.
F: mas não é a mesma coisa!
P: tantas pessoas mentem, dizem que vão à esquina e desaparecem, não é mesmo?
F: mas eu não sou tantas pessoas...
P: eu sei (suspira)
F: então
P: você é crescida. Você é dona de si, das suas coisas, da sua blusa.
F: você realmente não se importa não é papai?
P: me importar... as coisas nascem e não há nada que as prenda em lugar algum. Nada!
F: não se importa com a sua vida, com o que os outros sentem!
P: com a vida (sorri amargo), com a minha vida (enrola um barbante colorido numa haste de metal semi enferrujado), com a nossa vida, com a vida de ninguém..
Levanta-se e tira de um velho baú, que teimosamente mantém no centro do quarto, uma blusa antiga, de quando a filha era menina.
P: eu disse para você levar a blusa (diz num tom repreensivo) lá fora ta frio.
F: minha blusa de menina... o senhor guardou...
P: que eu saiba é a única blusa que você tem.
F; não, não.
P: sim.
F: essa blusa é da época que eu achava que o senhor se importava comigo. Lembra-se pai, de quando eu me sentava ao seu lado e te observava, mesmo o senhor não falando quase nada...
P: vamos parar com isso. São lembranças, só lembranças descoloridas. (volta a mexer nos barbantes coloridos)
Lembranças desbotadas, sem vida.
F: Melhor eu ir...
P: Espere.
F: não me impeça
P: só mais um momento.
A filha abre a porta e sai de casa. O pai continua a repetir: só mais um momento, mais um momento, cada vez mais baixo, cansado, a voz ganhando tristeza...
Só um momento, ele diz como uma oração ao contrário. Um momento para dizer que ela a amava, que ele queria abraçá-la, sentimento tão óbvio, mas afinal a vida é feita de sentimentos óbvios, ele que fugira da obviedade...e mergulhara em seu silêncio e em seus barbantes desbotados.


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