Cochichos e Relaxos


18/09/2008


um amor asssim (parte 4)

Mulher: cadê a enfermeira, aquela maldita, maldita.

Homem: a porta está aberta, será que não deu para perceber? Pode sair, não tem nada

que te prenda.

Mulher: mas a enfermeira? Onde ela está?

Homem: não tem enfermeira. é tudo ilusão da sua cabeça.

A mulher resmunga, sussura: a enfermeira,  a enfermeira...

O homem se aproxima da mulher. Ela mal tem tempo de se desviar dele, que a agarra
em fúria. Depos consegue desvencilhar-se, mais por concessão dele do que por força dela. Os olhos selvagens do homem brilham ao mostrar a porta: o portal do paraíso, a rota de fuga, a saída para lugar nenhum.

Homem: eu já disse que a porta tá aberta.

Ela avança em direção à porta, abre-a, depois recua com uma expressão de pavor.

o homem diz em tom ameaçador:

Nós estamos no mesmo barco. estamos foragidos! foragidos. é essa a real mocinha!
eu sei que você tá fugindo também!
Mulher: Eu? fugindo de que?

Homem: É fugindo. Eu só queria te ver, eu só queria entender como você fez aquilo...

Mulher: Você me conhece? Do que está falando?

Homem: Como você teve a manha hein? toda delicadinha, mas capaz de fazer coisas brutais com o tal do Paulo.
Agora ele solta um riso frouxo, depois ri pra valer.

Mulher: pára...Paulo, meu único amigo.

Homem: Todo mundo pensou que foram uns matadores, mas foi você não? O corpo dele tava lá,

estendido ao lado de um figueira, naquele mato sem fim, cheio de formiga.

O home  ri sem dó nem piedade; toda a sua constelação de risos sem dó nem piedade. E aponta pra mulher.

Ri tanto que soluça.

A mulher berra: Seu louco, demente!!!

Homem: você fez um trabalho melhor do que eu faria. Atirou nele sem direio a nenhuma defesa. O rosto dele apavorado, surpreso... O sangue escorrendo através da camisa...

Mulher: sai fora daqui.

Homem: o corpo dele cheio de bala, caído no chão, agonizante.

Mulher: não, não. começa a chorar.

Homem: Dizem que ele te chifrava direto.

A mulher está com olhos sem vida, o choro cessa: Ele me traiu, traiu a nossa causa. Disse que siderúgica não trazia impacto amibiental. Mas era tudo mentira, um traidor...

Homem: mas confessa, confessa. Que causa, que nada. Ele te chifrava com outra!!! E começa rir de novo.

Homem num acesso de lirismo descabido, dança mansa e mornamente começa a inventar uma música
e a cantarolar:
O teu amor se foi, perdido. O teu amor se foi e chegou ao fim, assim no pé de jasmim...

a mulher completa a canção: o meu amor se foi assim e nem disse adeus...

A mulher abre a gaveta do criado mudo, tira de dentro dela um revólver, aponta a arma para o matador:

Assim como o Paulo não disse sequer adeus, você também não terá tempo de se despedir.

Escrito por Jiló às 11h34
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um amor assim (parte 3)

A mulher começa a anotar num pedaço de papel, um pedido de socorro para o seu colega de trabalho e amantee grande ausente. O paulo, anjo salvador da vida agora em chamas.

Tempos, segundos depois um homem, meio maltrapilho, um pouco aturdido, entra na casa.

A mulher se assusta, tenta chamar a enfermeira, mas não obtém nenhuma resposta.

O homem, com ar agressivo, inicia uma fala mais agressiva.

A mulher se encolhe num canto. o homem com olhos saltados. Pouco a pouco
recobra uma certa calma: insitindo de sobrevivência. Procura dizer para si mesma que está tudo bem.

A mulher ainda tenta pedir socorro, mas ainda está horrorizada com o homem. A voz da
mulher não sai. por fim ela dá um grito quase mudo.


Homem: é, fui jogado como se aitram pedras.

Débora: eu não tenho a mínima idéia de como vim parar aqui.

Homem: não tem?

Débora: quer dizer, não me recordo de nada. MInha mãe me trouxe aqui, mas eu não me lembro

de nada.

Homem: eu fui jogado e também eu me atirei aqui.

Débora: então quer dizer que se atirou sozinho? Um suicídio.

Homem: não costumo me atirar de janelas.

Débora: então alguém deve ter te mandado pra cá. Ninguém vem a um lugar desses

por livre e espontânea vontade.

HOmem: mas isto não é uma prisão. É só um lugar pra descansar.

Débora: descanso?

Homem: não se sente relaxada?

Débora: Aflita. E ando meio nervosa e ando meio sei lá. e você?

Homem: Eu? Eu tô me recuperando da queda.

Débora: e pra recuperar-se da queda você atirou-se pra cá.

Homem: dessa vez foi nocaute sem direito a revanche. por isso vim dar um tempo aqui.

Débora: eu não entendo direito essas imagens: nocaute...

Homem: deveria entender! a vida é assim. deveria entender, porque você luta, luta e as lutas

não acabam, elas se sucedem sempre. tem de atacar... é ataque mesmo. atque físico verbal, sempre

sempre.

Débora: eu nunca ataquei nem senti necessidade de ser agressiva.

Homem: olha a agressividade é necessária. é ataque pra não ser pego no contra ataque.

tem certeza de que nunca atacou ninguém?

Débora: sim, mas eu fugi de vários ataques. 

Homem: não pode fugir, tem de atacar entendeu? atacar, atacar, mesmo que a lona esteja

próxima. se tiver caindo ainda assim atire, desfira o último golpe sem dó.

Débora: acho que é por isso que te internaram aqui. Você tem uma agressividade extrema você tem.

você aprece doido.

Homem: e por que acha que me jogaram pra cá? não, não é isso. eu só quero justiça, só quero

que no fundo as pessoas não sejam magoadas.

Débora: e por isso você vai atacando sem mais nem menos.

Homem: não pode deixar por menos.

Débora: Há meios legais para se fazer justiça.

Homem: (repete em tom jocoso) Meios legais para se fazer justiça. Não, não: ataque sempre.

a jusitiça está nas armas, no braço.

Débora: Você tá armado?! (grita) enfermeira! enfermeira! Onde ela se meteu. agora que eu preciso dela.

Homem: calma, eu não tô armado! eu não sou tão agressivo assim, só estou tentando dizer que é preciso

atacar. tem pessoas que esperam o momento certo de ser no momento certo senão o golpe perde o efeito.

Atacar é responder a altura, entende?

Débora: pra mim você não bate bem. e me dá medo. medo como aquele cidade

Homem: Você não pode demostrar medo... Mesmo que estiver morrendo de medo... ainda mais medo

da cidade.

Débora: de quase uma cidade inteira...

Homem: o que você fez pra cidade, pras pessoas ficarem com tanto ódio?

Débora: não te interessa

Homem: hum, mas então você é poderosa.

Débora: eles achavam que a usina siderúrgica era importante, que ia trazer progresso pra cidade...

HOmem: e você bancou a desmancha prazeres.

Débora: eu simplesmente fui a favor da vida, do meio ambiente.

Homem: que comovente.

débora: mas essas coisas não te interessam...

HOmem: e você não respondeu a altura?

débora: responder? eu, eu simplesmente fugi antes que uma bala perdida, bem por acaso, me

atingisse.

Homem: pra te acalmar vou dizer: eu até gosto de flores! é, se eu pudesse me enfiava no mato

e vivia lá pro resto da vida. vou pegar uma flor pra você no jardim.

Débora (irritada): não precisa, não precisa detesto jardins, plantas.

por fim, exausta e acuada, a mulher dorme.

o homem, curioso, avança sobre a mesa, pega o papel e lê em voz alta. Nele está

escrito o nome Paulo, tão comum o nome Paulo. Deduz que seja o marido ou o namorado.

cena 3
o homem olha a mulher, estendida, à sua mercê. Grande parte da agressividade

parece dissipada, mas uma parte ainda permanece, como um estranho enigma.

aparentemente não sabe o que fazer. uma mulher estendida, ainda com certo vigor da juventude,

atraente em seu medo... por que será que a maioria das mulheres parece atraente

quando estão acuadas?

ele tira um objeto do casaco: uma pequena garrafa.

é uma pequena garrafa de uísque talvez, destapa-a. toma um longo gole.

talvez permaneça assustado, agora ele, porque simplesmente não esperava que ela dormisse.

toma todo o conteúdo da garrafa num único gole.

Propositalmente ele bate com a garrafa na mesa. A mulher continua a dormir, aparentemente

desacordada.

Ele bate mais forte com a garrafa na mesa, desta vez a garrafa espatifa-se.

A mulher acorda assustada. Começa a gritar, a berrar com ele. Acuada e irada.

nervos à flor da pele (não do desejo, quem sabe onde os desejos habitam,

quem sabe onde mora a estranha flor da atração).

estranhamente, os papéis parecem se invertem. Ela avança sobre ele, como

um instinto de sobrevivência. ele recua sem se dar conta de que recua.

Quase torpeça em seus medos, seus vazios (quem sabe onde habitam os vazios e as linhas

desoladas do deserto?)

Mulher: o que você quer de mim?

HOmem: eu?

Mulher: você, eles.

Ela pede que ele vá embora. ele se recusa a ir.

Ela arrisca: Foragido da justiça?

ele balança a cabeça, negando. tem medo, um medo sem sentido, um bicho acuado e selvagem.

Ela tenta empurrá-lo, ele a segura com força, depois a solta.

Escrito por Jiló às 11h33
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Um amor assi (parte 2)

-muito bem continue. Débora é só Débora, há tantas déboras...

-Uma débora cansada e fatigada.

-e que mais?

-abra a boca. só esse comprimido senhora.

à contragosto ela abre a boca, deixa-se levar...

(silêncio, a mulher mergulhada em si mesma.)

-Ele prometeu vir se encontrar comigo...

-Minha senhora, pare de dramas.

- Não é verdade, Paulo?

- Não tem nenhum Paulo aqui.

- Paulo, meu único amigo...

- A senhora está rodeada de amigos

- Parem com isso! eu não aguento mais! se querem me matar que me matem.

E eu não sou senhora. não sou mulher, não sou bicho, eu fui uma cientista...

uma cientista ingênua, ou apenas fui... cientista e não mulher.

- a senhora é um anjo.. um anjo que precisa ser amparada.

sabe que hoje é dia de visita? sua mãe... virá

-não quero saber dela!

-Não fale assim de sua mãe. Ela quem a trouxe aqui... para que a senhora pudesse descansar.
a enfermeira vai embora do aposento.

Escrito por Jiló às 11h30
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Um amor assim (parte 1)

Uma mulher aparentando cerca de 40 anos de idade, de feições delicadas e fugidias, está em um quarto de uma casa aparentemente abandonada.
Nele há uma pequena mesa, uma cama e um grande mala ainda por se desfazer.
Assustada, ela repete, em tempos regulares, duas frases: Em algum outono, em algum inverno que nem sei mais...
Perdida naquela época, perdida eu.
Era uma chuva de gente, um zumbido de berros e caras medonhas...

uma enfermeira,que se comporta como uma mãe,
que acolhe uma filha desamparada, que não se sabe se é realidade ou delírio
tenta fazer com que ela tome um remédio, um calmante fortíssimo.


enfermeira: senhora, o seu remédio.

-remédio é veneno, não vou tomar. VocÊs querem me dopar.

-acalme-se senhora. Enfermeira dirige-se para algum ponto de fuga, desviando-se com certo nojo da paciente: mas o que deu nela? de novo? tá fazendo manha.

-laboratório. qual laboratório fabricou esses remédios? vocÊs não percebem
que eles não tem escrúpulos, que eles só estão preocupados em vender, vender
e ter cada vez mais lucro?

-vamos é pro seu bem.

-eles sempre me diziam: é o pro seu bem. bico calado. comporte-se direito.

-senhora, se a senhora não se comportar vou ter de chamar o doutor...

-ameaças, eles vêm sempre com ameaças, se eu não me comportar.
se eu não entregasse o laudo de acordo com os interesses da sociedade.

-respire fundo senhora. olhe através da janela. veja o quintal, veja como cresce o salgueiro.

- os moradores da vila vieram me visitar, estavam atordoados porque iriam pagar um preço ridículo pelas suas casas. foram expulsos como se fossem bandidos.

-senhora, a senhora não está prestando atenção. olhe que lindo salgueiro. A senhora tem de prestar atenção, tem de perceber a realidade.

-Sambucus nigra

- Hein?

-Lá de onde vim, tinha tanta variedade de vegetais, árvores, uma flora exuberante.

-senhora, a senhora tem de colaborar conosco. o Lá não existe.

A mulher ri, involuntária: - E o si, o be e o mól existem?

- O que?

-Era isso o que eles diziam: colaborar, quando na verdade estavam dizendo abaixe a
cabeça e faça o que nós dissermos.

-Eles quem? a senhora não sabe nem apontar quem são eles! isso é coisa de sua
cabeça.

-Eles não merecem ser nomeados.

-Fantasias suas. Fantasmas em sua cabeça.

-Como pode dizer o que tem dentro de mim? Você sequer sabe o meu nome, não sabe
nada da minha estória.

-Débora, esse é o seu nome.

Escrito por Jiló às 11h28
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