A mulher começa a anotar num pedaço de papel, um pedido de socorro para o seu colega de trabalho e amantee grande ausente. O paulo, anjo salvador da vida agora em chamas.
Tempos, segundos depois um homem, meio maltrapilho, um pouco aturdido, entra na casa.
A mulher se assusta, tenta chamar a enfermeira, mas não obtém nenhuma resposta.
O homem, com ar agressivo, inicia uma fala mais agressiva.
A mulher se encolhe num canto. o homem com olhos saltados. Pouco a pouco
recobra uma certa calma: insitindo de sobrevivência. Procura dizer para si mesma que está tudo bem.
A mulher ainda tenta pedir socorro, mas ainda está horrorizada com o homem. A voz da
mulher não sai. por fim ela dá um grito quase mudo.
Homem: é, fui jogado como se aitram pedras.
Débora: eu não tenho a mínima idéia de como vim parar aqui.
Homem: não tem?
Débora: quer dizer, não me recordo de nada. MInha mãe me trouxe aqui, mas eu não me lembro
de nada.
Homem: eu fui jogado e também eu me atirei aqui.
Débora: então quer dizer que se atirou sozinho? Um suicídio.
Homem: não costumo me atirar de janelas.
Débora: então alguém deve ter te mandado pra cá. Ninguém vem a um lugar desses
por livre e espontânea vontade.
HOmem: mas isto não é uma prisão. É só um lugar pra descansar.
Débora: descanso?
Homem: não se sente relaxada?
Débora: Aflita. E ando meio nervosa e ando meio sei lá. e você?
Homem: Eu? Eu tô me recuperando da queda.
Débora: e pra recuperar-se da queda você atirou-se pra cá.
Homem: dessa vez foi nocaute sem direito a revanche. por isso vim dar um tempo aqui.
Débora: eu não entendo direito essas imagens: nocaute...
Homem: deveria entender! a vida é assim. deveria entender, porque você luta, luta e as lutas
não acabam, elas se sucedem sempre. tem de atacar... é ataque mesmo. atque físico verbal, sempre
sempre.
Débora: eu nunca ataquei nem senti necessidade de ser agressiva.
Homem: olha a agressividade é necessária. é ataque pra não ser pego no contra ataque.
tem certeza de que nunca atacou ninguém?
Débora: sim, mas eu fugi de vários ataques.
Homem: não pode fugir, tem de atacar entendeu? atacar, atacar, mesmo que a lona esteja
próxima. se tiver caindo ainda assim atire, desfira o último golpe sem dó.
Débora: acho que é por isso que te internaram aqui. Você tem uma agressividade extrema você tem.
você aprece doido.
Homem: e por que acha que me jogaram pra cá? não, não é isso. eu só quero justiça, só quero
que no fundo as pessoas não sejam magoadas.
Débora: e por isso você vai atacando sem mais nem menos.
Homem: não pode deixar por menos.
Débora: Há meios legais para se fazer justiça.
Homem: (repete em tom jocoso) Meios legais para se fazer justiça. Não, não: ataque sempre.
a jusitiça está nas armas, no braço.
Débora: Você tá armado?! (grita) enfermeira! enfermeira! Onde ela se meteu. agora que eu preciso dela.
Homem: calma, eu não tô armado! eu não sou tão agressivo assim, só estou tentando dizer que é preciso
atacar. tem pessoas que esperam o momento certo de ser no momento certo senão o golpe perde o efeito.
Atacar é responder a altura, entende?
Débora: pra mim você não bate bem. e me dá medo. medo como aquele cidade
Homem: Você não pode demostrar medo... Mesmo que estiver morrendo de medo... ainda mais medo
da cidade.
Débora: de quase uma cidade inteira...
Homem: o que você fez pra cidade, pras pessoas ficarem com tanto ódio?
Débora: não te interessa
Homem: hum, mas então você é poderosa.
Débora: eles achavam que a usina siderúrgica era importante, que ia trazer progresso pra cidade...
HOmem: e você bancou a desmancha prazeres.
Débora: eu simplesmente fui a favor da vida, do meio ambiente.
Homem: que comovente.
débora: mas essas coisas não te interessam...
HOmem: e você não respondeu a altura?
débora: responder? eu, eu simplesmente fugi antes que uma bala perdida, bem por acaso, me
atingisse.
Homem: pra te acalmar vou dizer: eu até gosto de flores! é, se eu pudesse me enfiava no mato
e vivia lá pro resto da vida. vou pegar uma flor pra você no jardim.
Débora (irritada): não precisa, não precisa detesto jardins, plantas.
por fim, exausta e acuada, a mulher dorme.
o homem, curioso, avança sobre a mesa, pega o papel e lê em voz alta. Nele está
escrito o nome Paulo, tão comum o nome Paulo. Deduz que seja o marido ou o namorado.
cena 3
o homem olha a mulher, estendida, à sua mercê. Grande parte da agressividade
parece dissipada, mas uma parte ainda permanece, como um estranho enigma.
aparentemente não sabe o que fazer. uma mulher estendida, ainda com certo vigor da juventude,
atraente em seu medo... por que será que a maioria das mulheres parece atraente
quando estão acuadas?
ele tira um objeto do casaco: uma pequena garrafa.
é uma pequena garrafa de uísque talvez, destapa-a. toma um longo gole.
talvez permaneça assustado, agora ele, porque simplesmente não esperava que ela dormisse.
toma todo o conteúdo da garrafa num único gole.
Propositalmente ele bate com a garrafa na mesa. A mulher continua a dormir, aparentemente
desacordada.
Ele bate mais forte com a garrafa na mesa, desta vez a garrafa espatifa-se.
A mulher acorda assustada. Começa a gritar, a berrar com ele. Acuada e irada.
nervos à flor da pele (não do desejo, quem sabe onde os desejos habitam,
quem sabe onde mora a estranha flor da atração).
estranhamente, os papéis parecem se invertem. Ela avança sobre ele, como
um instinto de sobrevivência. ele recua sem se dar conta de que recua.
Quase torpeça em seus medos, seus vazios (quem sabe onde habitam os vazios e as linhas
desoladas do deserto?)
Mulher: o que você quer de mim?
HOmem: eu?
Mulher: você, eles.
Ela pede que ele vá embora. ele se recusa a ir.
Ela arrisca: Foragido da justiça?
ele balança a cabeça, negando. tem medo, um medo sem sentido, um bicho acuado e selvagem.
Ela tenta empurrá-lo, ele a segura com força, depois a solta.