Cochichos e Relaxos


20/12/2008


barbantes coloridos: infância

A menina brinca. O pai chega e a afaga. A menina pára, subitamente, de
brincar. Encara o pai com respeito e uma ponta de desconfiança: o medo vence
a desconfiança. A desconfiança, por sua vez, encobre o medo. é como um ar
que cumpre movimento circular. O seu pai ainda fuma, traga e solta a fumaça
pela janela. Sempre que fuma as janelas são amplamente abertas para que
a filha não sinta os efeitos da nicotina. Fuma e seu vício é ...
A mãe não fuma e não tem paciência com a filha e com o marido. Ela chama
a sua falta de paciência de amor. Precoupa-se com os dois. O amor dela vale
por dois. Por isso implica com a filha quando ela faz malcriações, implica
com o pai quando este permanece obstinadamente em silêncio. Considera desfeita
quando discute com o marido e este, ao final, sem nenhuma palavra, acende um
king size sem filtro e observa as curvas sinuosa da sinistra fumaça. Ele considere
uma obra de arte fugas, as curvas da fumaça expelidas pelo pulmão
carcomido. Ele considera a fumaça destruidora de corpos, ele acha o fogo em brasa
obras artísticas, belas em sua aterradora beleza.

O pai leva a filha ao colo, mas raramente participa das suas brincadeiras. mesmo
em tenra idade a filha percebe que o pai torna-se cada dia mais silencioso, a ponto
de sua voz sumir para sempre, num dia de domingo.
Por que domingo? Por que a voz dele sumiu no domingo. Foi dar um passeio e sumiu
no domingo. A voz dele como que fugiu de seu corpo que se tornava mais e mais
magro. Um rapaz magro visto de perfil, envolto em meio a fumaça do cigarro, pensativo
e pensativo e pensativo.

quase não há sons na casa. Ela habita o silêncio que não vem só do mutismo do pai.
A mãe é econômica em palavras. As palavras servem apenas para intervenções precisas:
um cumprimento matutino, as broncas necessárias, ordens para que a filha conserve
a boa higiene, um telefonema precisa e correto para as tarefas burocráticas.

Não há música. Havia música, mas ela foi sumindo vagarosamente como água que escorre
pelo ralo e depois não se sente mais falta dela. A água-música escoou totalmente
pelo ralo e nunca mais entrou na casa.

Ainda assim ela sente afeto pelo pai. Ele lhe passa a mão carinhosamente pela
sua testa, dá um boa noite, a frase que lhe restou a ser dita, e mergulha na leitura
de livros, jornais e revistas. Ela nunca reclama do mutismo do pai.
Um pai sábio ela tem, pois os pais burros e ignorantes de suas colegas jamais
lêem. Todos eles obstinadamente lavam os carros nos fins de semana, todos eles tagarelam
sem parar e com que finalidade? Falam, falam e falam. É o que dizem as suas colegas:
"Papai e brincalhão e fala até pelos cotovelos. Mamãe ralha com o papai, mas
também é brincalhona, a casa vive cheia de gente. Seu pai lê? Não, ele assiste
o Fantástico, ele sonha com um carro novo; eu também sonho com um carro novo para
o papai, assim ele pode nos levar para a praia no ano novo. Mas o seu pai não lÊ
nada? Ler para que? Ele não é professor; ele diz que já lê demais no escritório
onde trabalha. Quando chega em casa diz que simplesmente quer esquecer do trabalho.
O meu pai lê! E lê muito. Mas ele não te levar para os passeios?
Aí a voz da menina some. Ela sai pela tangente, pelos corredores da escola. Escapa
para o quintal na hora do recreio e pensa sozinha: felicidade, alegria. A felicidade
e a alegria de papai pode ser a leitura de um jornal. O livro que papai lê e relê
é o seu passeio; quando ele passa a mão sobre a minha testa e deixa que eu fique
ao seu lado observsando atenta a sua leitura atenta é o nosso passeio dominical.

Escrito por Jiló às 11h49
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