Cochichos e Relaxos


27/12/2008


barbantes cioloridos: projeção

Depois que saiu de casa, de uns meses para cá, tempo elástico que ela não pode divisar, vê o seu pai em vários lugares. Vê o pai real, mais real do que o pai que estava na casa onde morava. Certa vez, quando estava com um amigo em alguma boate barata, o ambiente na semipenumbra, divisa num canto semi iluminado, onde não se pode ver inteiramente os detalhes de um homem velho e fatigado, ela o viu: velho, bêbado, silencioso. Ela tem certeza de que é seu pai. O amigo, que já vira a foto do pai, uma foto meio amarelecida, carcomida pelo tempo, mostrada pela amiga quando teve uma crise de insônia e choro compulsivo; o amigo, enfim mostrou-se cético. O que aquele homem, na descrição da amiga, calado e absorto em suas profundezas e esquisitices estaria fazendo num bar, solitário, fumando um cigarro. O cigarro, aliás, era o único ponto de convergência que unia as duas figuras: o velho pai da amiga e o velho solitário, sentado à procura de algo que ninguém sabia ao certo o que era, o que viria a ser. A dúvida foi dissipada através do riso dela, um riso de deboche, irônico. É claro que não é o meu pai, ela diz, depois de abrir um amplo sorriso de vitória. Sorriso que indicava que ela tinha ganhado, que ela tinha mostrado o quanto ele era ingênuo a ponto de acreditar que o pai dela, uma pessoa circunspeta, avesso a qualquer badalação,pudesse encontrar-se ali. Foi uma brincadeira, é claro que não é o meu pai.

Volta a olhar para o canto semi iluminado, mas dessa vez tem um arrepio. Ele é o seu pai. Não é possível desviar-se do olhar severo, do silêncio de chumbo que emerge daquele canto semi iluminado. E, no entanto, ela sabe - de um modo intuitivo, como um mecanismo contra a loucura - desde o início também que não é o seu pai, que é só uma crença ou um tipo de projeção. E sabe também que essa projeção não corresponde exatamente ao seu pai.   

Tudo se tornou mais claro quando o velho, sem que se desse conta, não mais se encontrava no ponto semi iluminado; somente depois que o ponto semi iluminado não existe mais  e a luz intensa do sol o ilumina impiedosamente foi que a fugura do pái se dissolveu. A luz do sol torna tudo uniforme e monótono como se alguma luz sobrenatural projetasse a sua monotonia a todos os seres e os nivelassem por igual. Então, mais claramente, ela percebe que a projeção é apenas uma luz cansada, que ela faz de um pai cansado e atormentado, que só existiu em sua mente e sensibilidade cansada e atormentada.  

Escrito por Jiló às 16h40
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