Cochichos e Relaxos


07/02/2009


Livros e poentes

Meu pai lia, mas o que lia? Eu não fazia a minima idéia, ou melhor, pensava que era algo solene, misterioso. Livros, nunca jornais. Os jornais minha mãe lia-os com parcimônia: uma vez por semana, inevitavemente aos domingos. Ela lia e procurava na seção de empregos. Ela que jamais trabalhou, mas procurava ávida por notícias dos empergos, como que querendo dizer a meu pai que era a seção de empregos que ele deveria ler. A mim só eram dados livros infantis, naquela época quase cartilhas de bom comportamento, como que querendo dizer "você tem de se comportar melhor, deixar de levantar a saia que soa ... soa indecente!!! E quando mamãe disser indecente, você tem de ruborizar a sua face. Eu não ruborizava, ficava pálida e não desmontrava nada. minha cara lavada, mas eu não estava feliz, eu engolia os desenhos, as figuras com tristeza. Hoje ainda restam as cartilhas, hoje mais que no passado.

O que papai lia, com certeza, não eram cartilhas. Livros, apenas livros. Com certeza descreviam paisagens de fuga. Quando fechava o livro papai estava com uma expressão de alívio. Os livros e os silêncios trazidos por eles. às vezes eu fantasiava que os livros estavam em branco. Nenhuma letra, Assim, livros eram apenas uma forma de escapar da aporrinhação, era apenas um jeito estranho de dizer paa mim: "não me aborreça com as suas perguntas sem pé nem cabeça."
OUtras vezes, pensava que papai estivessem fuga, imaginava poentes projetando-se nos livros. Uma página, um poente, página virada, outro poente. Poentes desiguais e irregulares para o livro fazer sentido.

mas se papai quisesse escapar da rotina de casa, dos seus aborrecimentos, a forma que ele escolheu era bem estranha. O livro, ele quase que o escondia completamente sob os braços fortes, alongados. Jamais me lembraria das capas dos livros, somente a imagem de meu pai lendo o seu universo, fixando a sua figura quase petrificada, em seu rosto de mármore, nariz arredondado e expressão de idiotice. Eu disse idiotice? Eu nunca disse idiotice, mas agora digo e redigo, idiotice e cheiro de mofo e água parada: combinação perfeita.    

Escrito por Jiló às 16h47
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