Cochichos e Relaxos


22/02/2009


velhice e voracidade

Teve algo a ver com "contruir a minha visão de mundo", teve a ver com "achar o meu caminho", como se para isso eu devesse demarcar as minhas posições. Mas não havia a impressão de obrigação de marcar meus ideais. Antes havia a voracidade. misteriosa e voraz que, subterrrânea, alimentava a obsessão por ter "a minha visão de mundo". Até que ela se sedimentou como grandes edifícios contruídos sobre um pântano, que, no entanto, nunca se desloca.
eu escrevi teorias para dar conta das coisas, desde temas como deus
até o mais banal programa infantil, que tem a mesma importância que
os grandes temas.
muitas pessoas comprtilham das mesmas teorias, dos mesmos esquemas
explicativos.
depois, receosa e vigilante, debrucei sobre mim mesma e contrui teorias sobre a minha família, amigos. Teorias e fantasias associadas em nexo causal e casual. Algumas pessoas, como eu, partilham das mesmas convicções: fervorosos fieis. Temos orgulho de participar da mesma comunidade, da nossa carcomida comunidade onde todos compartilham, como se fosse um pão sagrado, dos mesmos valores.
As explicações, creiam, não envelheceram como móveis e utensílios que resistem ao tempo. Mas hoje eu me descobri velha e muito cansada.
Para mim as explicações envelheceram e com elas o mundo. (As rugas não denunciaram a minha velhice. Misteriosamente, nunca tive as vaidades femininas. E permanecia assim com uma idade idenfinida, quase suspensa no tempo.)
Mas hoje eu me descobri muita cansada, porque as explicações continuam
certas. Mas eu me cansei delas. E não tenho o frescor da juventude
para buscar outras explicações.
Hoje eu me descobri pálida e com poucos dentes. Sinal de que a voracidade,
mesmo aquela voracidade latente e sempre oculta em camadas de gestos polidos,
a voracidade e não um simples impulso de agredir o outro, a voracidade perdeu-se.
e só hoje me dei conta da minha velhice.
quando comecei a notar que as coisas se esvaziam dentro de mim. quando as velhas
convicções, apesar de corretas, para mim, não passam de lixo, pó e poeira.
estou muito cansado para sustentá-las, estou muito cansado para arranjar novas.
tudo isso corresponde à perda da voracidade.

Escrito por Jiló às 12h51
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