Houve um ruído opaco, um choque térmico, elétrico ou algo parecido. Não, houve sim um choque de impacto enorme, duro, seco. Seu corpo fora lançado por alguns metros de distância. Uma distância que não se mede em números. Ela que nunca havia sido empurrada, recebera o impacto de um objeto sólido em alta velocidade.
Mas antes disso houve uma fuga, a fuga de uma rua semi-deserta. Ela fugia de sombras antes que de um homem concreto, ela fugia de olhares vazios, olhares que a acusavam de algo que ela não sabia ao certo. A fuga que ao fim das contas resultava de uma sensação de impermanência no mundo. De quem fugia? De quem se escondia? As sombras: ela pensou apenas nas sombras depois da fuga.
Um homem a perseguia e durante a fuga houve o choque.
Seu corpo estava inerte no hospital, ela mal podia virar a cabeça. Seus olhos se abriram dias depois do choque. Alguém a chama, mas e alguém distante, alguém que fala gentilmente, que pontua os silêncios. É uma voz melodiosa que lhe diz coisas que ela não entende, uma voz que se torna só uma voz porque ela fecha deliberadamente os olhos, e então a voz invade seu corpo como uma melodia ao cair da tarde, uma melodia que a acalma. Seria o céu e seu misterioso tédio?
Mas antes disso e antes do choque com um caminhão em alta velocidade, houve uma fuga de um homem que ela desconhecia. Primeiro fora uma sombra que lhe deu calafrios: maus presságios. Mas ela que nunca acreditara em absolutamente nada, em outras ocasiões riria dos tais maus presságios. Agora os maus presságios em relação à sombra eram reais, tão reais como objetos concretos; maus presságios pontiaguados como pontas de faca prestes a rasgar a sua pele. Mesmo assim ela desviou os olhos da sombra e o encarou. Mas como se fosse um dia de sol escaldante de um verão tardio qualquer, uma espécie de luminosidade intensa a impedia de ver o rosto do homem. A verdade é que chovia ou acabara de chover, fato óbvio porque ela, sem guarda-chuva, estava com a roupa colada ao corpo, e as sombras das poucas pessoas que passavam pelas ruas semi-desertas projetavam-se mais alongadamente indicando o pôr-do-sol.
Desistindo de encarar o rosto do homem, ela começa a caminha. A princípio passos lentos, depois mais rápidos, mas não tão mais rápidos a ponto de caracterizar uma fuga. Ela decidira tomar o caminho oposto da sombra que lhe trouxera maus presságios, mas sabia que a sombra tomara a mesma direção e que a perseguia. Quando ela tomou a consciência da perseguição seus pés começaram a voar. Ouvia vozes, ouviu gritos e palavras que a angustiaram. Mas por que tanta angústia?
Voltou a ouvir vozes de sonoridade cada vez mais forte, mas não causavam mais angústia, era a voz melodiosa que se fundia a imagem de um fim de tarde morno. Conseguiu, dessa vez, distinguir algumas palavras, algo como “acorde minha querida, você precisa tomar o remédio”.


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