
A bicleta cai do céu, rasgando-o, como finas gotas de chuva, A bicicleta liquefeita traça sinuoso percurso. A arte rupestre registra na parede da caverna a bicicleta que cai do céu, cruzando o atlântico, o pacífico e o índico. O livro imprime a reprodução da foto da arte rupestre da bicicleta que cai do céu e pousa na livraria. Meu pai compra o livro e depois atravessa os faróis da avenida paulista, pega a consolação até a sua casa. Ele abre o livro com a bicleta que cai do céu. Olha a foto: tenso, rígido e maravilhado. A biclicleta que cai do céu impressa na pintura da caverna, projeta-se nos olhos do meu pai. Ele tem a face imóvel e sinuosamente pensa no percurso feito pela bicicleta: Vinte e oito séculos atrás houve algo parecido com uma bicicleta caindo do céu no arquipélago perdido do mar Egeu, resgistrada na parede da caverna, num momento de tensão e deslumbramento, fotografada ano passado pela Taschen, impressa em livro na Alemanha, distribuído agora no Brasil. A bicicleta continua a cair aos olhos do meu pai.


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