A cidade é poética, trágica.
A cidade é destino, liberdade, cárcere privado, carcere a céu aberto: milhares de prisões e liberdades fugazes.
A cidade agride, afaga, assopra e machuca. A cidade tem um pôr-do-sol e uma lua que se liquefaz
a cada instante.
Imagino a lua drogada, que solta gosmas esverdeadas, nojentas.
A mesma lua que, sublime, ilumina os amores, e assassinatos furtivos em série.
A lua também ilumina um casal de amantes.
Eles correm seminus: um homem e uma mulher
ao encontro de...
Balançam a cabeça, berram em frenética alegria,
rolam pela gramado do parque da luz, do Ibirapuera. Dois corpos!
A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada,
compondo um mosaico de pontos imersos no quase nada.
A cidade-terra gira e vista de fora brilha.
Na ladeira porto geral, no largo da Batata, em noites suspeitas e suspensas...
Um casal corre descalço e seminu: um menino e mais outro menino, sem camisa.
Os pés carcomidos, sujos, esmagando o concreto. O nariz remelento, gasto pelo cheiro de cola de sapateiro.
Eles têm olhos exageradamente arregalados em frente à banca de jornal e veem apenas o vazio.
Dois meninos, mas eu reafirmo: um casal em frenética alegria.
A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada.
E o amor segue suspenso entre o ponto e o nada.
A cidade-terra gira e vista de fora, de marte, vênus, saturno, brilha.
Há muito amor nas entranhas dos corpos dos meninos de nariz remelento.
Há um tanto de ódio no amor entre o casal que rola e ri e troca promessas no parque da luz.


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