Cochichos e Relaxos


13/06/2009


um poema de concreto

A cidade é poética, trágica.

A cidade é destino, liberdade, cárcere privado, carcere a céu aberto: milhares de prisões e liberdades fugazes.

A cidade agride, afaga, assopra e machuca. A cidade tem um pôr-do-sol e uma lua que se liquefaz

a cada instante.

Imagino a lua drogada, que solta gosmas esverdeadas, nojentas.

A mesma lua que, sublime, ilumina os amores, e assassinatos furtivos em série. 

A lua também ilumina um casal de amantes.

Eles correm seminus: um homem e uma mulher

ao encontro de...

Balançam a cabeça, berram em frenética alegria,

rolam pela gramado do parque da luz, do Ibirapuera. Dois corpos!

A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada,

compondo um mosaico de pontos imersos no quase nada. 

A cidade-terra gira e vista de fora brilha.

Na ladeira porto geral, no largo da Batata, em noites suspeitas e suspensas...

Um casal corre descalço e seminu: um menino e mais outro menino, sem camisa.

Os pés carcomidos, sujos, esmagando o concreto. O nariz remelento, gasto pelo cheiro de cola de sapateiro.

Eles têm olhos exageradamente arregalados em frente à banca de jornal e veem apenas o vazio.

Dois meninos, mas eu reafirmo: um casal em frenética alegria.

A cidade vista de fora da órbita terrestre é um ponto no nada.

E o amor segue suspenso entre o ponto e o nada.

A cidade-terra gira e vista de fora, de marte, vênus, saturno, brilha.

Há muito amor nas entranhas dos corpos dos meninos de nariz remelento.

Há um tanto de ódio no amor entre o casal que rola e ri e troca promessas no parque da luz.

Escrito por Jiló às 06h14
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