Cochichos e Relaxos


17/07/2009


um poema de concreto 2 (casal)

Há uma alegria secreta e inconstante no casal. Ela se chama Rita, ele se chama Mário.

Eles riem constantemente: dois jovens à beira de um ataque histérico.

Há algum amor e há, também, alguma dor. Mas, na juventude, há a sensação de que o amor ultrapassa a dor.

Há lamentos, mas isso faz parte da vida de um casal em estado de graça e misericórdia. 

Ela é romântica, sonha e suspira pelos cantos. Ele é romântico pelas circunstâncias, forçado pela paixão.

Ela gosta de rever as cenas românticas dos filmes de Harrison Ford uma duas... infinitas vezes.

Ela rebobinava as fitas vezes e vezes, depois ela apertava a tecla que retrocedia o dvd. Mas a lógica

era sempre a mesma: voltar e repetir as cenas recheadas de promessas de amor, a conversão de Harrinson Ford diante

do sentimento maior.

O filme não avança, ela para a imagem e retorna a mesma cena.

Ele é condescendente e revê as cenas infnitas vezes com o seu amor.

Mas ele desconfia que os filmes de Harrison Ford, vistos daquela forma tão heterodoxa, se

parecem com a sua vida. 

A mesma cena sempre retornando. Harrisonn Ford revelando o seu amor pela mocinha.

Mário repetindo as mesmas cenas românticas com Rita.

De início, ele apenas suspeitava da repetição. E mesmo que chegasse à conclusão de que as cenas

se repetiam, isso não era um fator negativo. O amor é um hábito que se pratica também pela repetição.

Mas o peso do tempo deixou à mostra a suspeita que Mário temia: a sua vida era uma repetição, como

na edição capenga que Rita fazia dos filmes de Harrison Ford. O amor também é mofo, musgo nascendo

na parede pela infiltração cada vez maior do tédio. O amor são outras paisagens: esgoto a céu aberto.

A vida de Mário não avança, como se Rita rebobinasse a fita e ele fosse obrigado a repetir a mesma cena, ano

após ano.

O tempo, óbvio, não tem peso. Mas o tempo modifica e esmaga o que antes era frescor.

O tempo de Mário e o tempo de Rita: duas vozes dissonantes, dois tempos dentro de um mesmo espaço.

O amor e a dor, o amor e o tédio, o amor e a languidês desfeita.

E Rita s põs do lado de fora do tempo. O seu tempo foi congelado no dia que conhecera e se apaixonara por Mário.

O tempo corrói os grandes edifícios da Paulista e da Berrini. As lojas abrem e fecham, a cidade muda o seu eixo, o ponto das drogas não é mais

o mesmo, as placas de trânsito invertem as direções, mas o amor de Rita está fora da cidade e do tempo.   

Escrito por Jiló às 11h19
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