Chá com a esposa ao fim das tardes escaldantes do verão de 1996.
Ela, a minha adorável esposa, preparava chá quente nas tardes quentes que lembravam as areais escaladantes do verão carioca.
Soube que as componentes de uma banda punk feminista, que parou no tempo e no
espaço, servem-se de chá quente em xícaras de porcelana chinesa.
Então pensei na minha esposa como punk.
E nas punks como adoráveis esposas que se esforçam para agradar os seus maridos, com rituais
acenstrais.
Duas senhoras ao final da tarde tomavam chá com bolachas: as punks feministas. A barriga flácida da vocalista punk
transbordando, fumegante, sob a calça em tecido de organza. Minha esposa e duas senhoras punk.
Na vitrola Lou Reed e Velvet Underground: sons que nunca ouvimos em nossa casa, que
chanávamos de o "dulcíssimo lar".
O italiano era por conta do som, que achávamos lindo e romântico.
A minha esposa era descendente de portugueses, por parte de pai e de mãe. Uma portuguesa legítima.
Eu não descendo de nada. Está foi sempre a minha verdade inabalável. Nem de Deus, nem
dos macacos. Pronunciei furioso está frase na fase mais explosiva de minha palida adolescência,
depois de ter fantasiado sobre uma frase pichada nos muros de Paris durante o Maio de 68:
"Deus está morto, Marx também e eu também não me sinto muito."
Preservei essa estranha convicção e a conservei por anos e anos, mesmo quando tinha mudado meus
hábitos e minhas visões de mundo, mesmo quando descobri o amor e depois o enfado que tanto
amor melado e adocidado traz. "Eu não descendo de ninguém, nem de pátria Deus ou Darwin."
Se em nosso "dulcissmo lar não entrava Darwin, os punks também estavam proibidos"
Mas hoje me dei conta de como o tempo passa e faz das suas tramoias. A foto da baterista
e da vocalista punk 20 anos depois. Duas senhoras divindo o sobrado, um dos poucos sobrados
da Aclimação, obstinadas em fazer o chá quente em pleno verão.
Vamos tomar um chá?


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