guarda-chuvas servem para proteger da metralhadora verbal do outro
guarda-chuvas servem para nos abrigar do ranço, da mágoa de alguém que ainda diz nos
amar.
Sempre o amor. E dele devemos nos proteger com nosso impermeável.
Foi um guarda-chuva que ele pegou e abriu no meio da sala quando a mulher contra-atacou.
Uma forma de proteção, contra ela e contra sua raiva.
Guarda-chuvas servem para representar flores em cantigas de roda no teatro do Antunes
filho. Fantasia pura.
Mas não há nada de poético na situação. Ela avança sobre ele, agride-o em mínimas palavras
pontiagudas como cacos de vidros estilhaçados.
Guarda-chuvas servem para proteger de nossas chuvas internas, do nosso
sorriso nervoso,
para que não nos encharquemos em meio ao alcóol e à imensidão estonteante
do céu.
"Eu preciso sair daqui", ele repete no interior de sua imobilidade, em sua repentina imobilidade
que o faz parecer um homem empalhado. Mas ele treme por dentro.
Chove sem tréguas em São Paulo. A cidade chove.
Ela o vê saindo, desaparecendo da sua vista,
no meio da multidão encharcada.


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