Cochichos e Relaxos


29/07/2009


guarda-chuvas

guarda-chuvas servem para proteger da metralhadora verbal do outro

guarda-chuvas servem para nos abrigar do ranço, da mágoa de alguém que ainda diz nos

amar.

Sempre o amor. E dele devemos nos proteger com nosso impermeável.

Foi um guarda-chuva que ele pegou e abriu no meio da sala quando a mulher contra-atacou.

Uma forma de proteção, contra ela e contra sua raiva.

Guarda-chuvas servem para representar flores em cantigas de roda no teatro do Antunes

filho. Fantasia pura.

Mas não há nada de poético na situação. Ela avança sobre ele, agride-o em mínimas palavras

pontiagudas como cacos de vidros estilhaçados.

Guarda-chuvas servem para proteger de nossas chuvas internas, do nosso

sorriso nervoso,

para que não nos encharquemos em meio ao alcóol e à imensidão estonteante

do céu.

"Eu preciso sair daqui", ele repete no interior de sua imobilidade, em sua repentina imobilidade

que o faz parecer um homem empalhado. Mas ele treme por dentro.

Chove sem tréguas em São Paulo. A cidade chove.

Ela o vê saindo, desaparecendo da sua vista,

no meio da multidão encharcada.

Escrito por Jiló às 13h46
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