Cochichos e Relaxos


04/09/2009


confessionário

As confissões são feitas de retalhos da vida, de noites mal dormidas, de desejos reprimidos.

Deve haver uma barreira simbólica entre o confessor e quem ouve a confissão: um tapume fino e raso, mas o suficiente para abrir um abismo.

Deve haver ... deve haver... alguma brecha para o rancor, deve haver alguma brecha para a dor e a felicidade por mais estúpida e fora do tempo que ela possa parecer. Deve haver um espaço milimétrico para o ridículo... o ridículo do amor e a ridícula da desculpa-esfarrada-mas-bem-treinada-na-voz-interior. E sobretudo deve haver um espaço maior para o arrependimento, motivopara a confissão. 

E ela confessou o inesperado o insensato o impensado. Ela, prensada e combalida, musa, mulher, companheira e finalmente enfeite de bolo no dia do casamento. Ela confessou até o último limite, até a última gota de sangue e suor e desejo e esperma.

Na última noite da última semana de verão, quando chovia torrencialmente sobre são paulo, ela presa ao trânsito, trancada em um ônibus, entre a doutor arnaldo  e a paulista sentiu-se entre a solidão e um certo enfado.

Ali, no ônibus, presa do tempo e da memória. Ela já flertara com ele em um dia escuro e assustador. Pediu-lhe suplicante um amor, uma rima e uma dor. Pensou na prisão do ônibus, na impotência de fugir dali, pensou em inifnitas prisões, cárceres privados da sua vida de casada. Ele foi direto ao ponto, com um olhar direto e certeiro: você é minha. Os olhos dele diziam: "você é minha" como quem diz você é meu objeto preferido, meu brinquedo. E ela sentiu-se fascinada em ser objeto de alguém. Mas logo que ele se aproximou sentiu um calafrio. Tentou recuar. Mas ele a segurou firma em seus braços. As pessoas imersas em suas prisões, nada desconfiaram. Os edifícios estáticos e um flat a caminho.  

Ela olhava para o chão no confessionário, tentando arrancar todas as palvras sinceras e sentimentos de arrependimento.

O marido murmurou e soluçou impotente: "Mas você poderia se quisesse, podeira escapar, e não escapou."

"Eu fiquei supresa, não sabia que ele teria a coragem de me abordar daquela maneira tão trivial como quem pega a fruta de uma árvore, como se eu fosse a sua propriedade ou a extensão de meu corpo."

"Então eu não resisti, então meu corpo se deixou levar. Eu disse não, disse e repeti, mas o meu corpo naquele instante não recuou. Ele se recusou terminantemente a recuar."     

"VocÊ poderia ter escapado", o marido murmurou, quase como um protesto murcho.

Depois colérico: "Você quis se entregar a ele." Depois em autocomiseração: "Você me traiu e não se arrependeu!"

Ela disse, repetiu e insistiu que estava constrangida e arrependida, que não conseguia mais dormir, que não conseguia mais pensar no mal que havia feito ao marido. 

Ele abriu o guarda chuva no meio da sala. Ela espantou-se, depois estranhou e por fim riu.

Lá fora chovia e ele foi abrir o guarda chuva na sala. Chovia e ele chovia por dentro, encharcado.

Escrito por Jiló às 20h21
[ ] [ envie esta mensagem ]

02/09/2009


perguntas que não se respondem

Aproxima-se da casa. Aproximar-se significa quarteirões de distância , oceanos e desertos a atravessar.

Jurou nunca mais retornar, mas estava ali e cada vez mais ali, aproximando-se e nem sabia porque dirigia-se à casa.

Podia ouvir a sua esposa pedindo compassiva um perdão, podia ouvi-la pegando band-aids inúteis para curar as feridas, podia vê-la se abaixo e se rebaixando a ele ou simplesmente lavando a louça como se nada houvesse acontecido. Mas que vergonha, para ela e para ele. Quanta falta de amor próprio, quanto desperdício de vida e afeto, quantas distorções e humilhações.

A casa cada vez mas próxima. Talvez ainda chegasse a tempo de fechar a porta escancarada por ele, talvez algum bandido ou maníaco houvesse invadido a casa de portas abertas e uma mulher de rosto apático e estranhamente convidativo o tivesse atraído. Sabe-se lá. Malucos e desviados.

Quem sabe um incêndio devstador sobre a casa apagou as lembranças e raivas? Quem sabe as fagulhas do fogo não queimaram rancores vãos de um amor traído, partido?

O mais enigmático era que ele continuava a caminhar em direção à casa e quanto mais se aproximava dela, mais decidido ficava.

E  a figura magra e quase anoréxica dela, e a doçura, e o sentido de ordem e organização? E os vulcões, e as erupções hormonais, epidérmicas que durante toda a vida ela controlou com extremo rigor de um equilibrista que nunca falha?

Mas um dia falhou. E ela e não outra, agora é outra e não ela.

Escrito por Jiló às 19h05
[ ] [ envie esta mensagem ]

30/08/2009


anoitece

é um solo de trompete, melacólico, calmo e triste. E então anoitece

Anoitece em tardes que se deixam escapar, sem pressa. simplesmente

como a água que escorre mansa por entre as mãos.

Anoitece e ela desliza entre noiteces: gata sissiante, caminhar elegante e discreto.

Não há pressa alguma em chegar ao fim da noite.

Anoitece, mas no fundo é só um solo de trompete de Miles Davis que escorre lentamente,

como a água mansa e triste.

anoitece e um tormpetista sola anoitece oculto em algum bar.

E o solo de trompete escapa por entre frestas como água corrente:

Solo de anoitece, sax e tormpete, que se mistura à tarde melancólica. Então é noite, definitivamente.

Anoitece e é como o som que escorre manso e melancólico pelo tempo.

anoitece e não há como amanhecer.

Escrito por Jiló às 15h51
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web:

Perfil

Histórico