As confissões são feitas de retalhos da vida, de noites mal dormidas, de desejos reprimidos.
Deve haver uma barreira simbólica entre o confessor e quem ouve a confissão: um tapume fino e raso, mas o suficiente para abrir um abismo.
Deve haver ... deve haver... alguma brecha para o rancor, deve haver alguma brecha para a dor e a felicidade por mais estúpida e fora do tempo que ela possa parecer. Deve haver um espaço milimétrico para o ridículo... o ridículo do amor e a ridícula da desculpa-esfarrada-mas-bem-treinada-na-voz-interior. E sobretudo deve haver um espaço maior para o arrependimento, motivopara a confissão.
E ela confessou o inesperado o insensato o impensado. Ela, prensada e combalida, musa, mulher, companheira e finalmente enfeite de bolo no dia do casamento. Ela confessou até o último limite, até a última gota de sangue e suor e desejo e esperma.
Na última noite da última semana de verão, quando chovia torrencialmente sobre são paulo, ela presa ao trânsito, trancada em um ônibus, entre a doutor arnaldo e a paulista sentiu-se entre a solidão e um certo enfado.
Ali, no ônibus, presa do tempo e da memória. Ela já flertara com ele em um dia escuro e assustador. Pediu-lhe suplicante um amor, uma rima e uma dor. Pensou na prisão do ônibus, na impotência de fugir dali, pensou em inifnitas prisões, cárceres privados da sua vida de casada. Ele foi direto ao ponto, com um olhar direto e certeiro: você é minha. Os olhos dele diziam: "você é minha" como quem diz você é meu objeto preferido, meu brinquedo. E ela sentiu-se fascinada em ser objeto de alguém. Mas logo que ele se aproximou sentiu um calafrio. Tentou recuar. Mas ele a segurou firma em seus braços. As pessoas imersas em suas prisões, nada desconfiaram. Os edifícios estáticos e um flat a caminho.
Ela olhava para o chão no confessionário, tentando arrancar todas as palvras sinceras e sentimentos de arrependimento.
O marido murmurou e soluçou impotente: "Mas você poderia se quisesse, podeira escapar, e não escapou."
"Eu fiquei supresa, não sabia que ele teria a coragem de me abordar daquela maneira tão trivial como quem pega a fruta de uma árvore, como se eu fosse a sua propriedade ou a extensão de meu corpo."
"Então eu não resisti, então meu corpo se deixou levar. Eu disse não, disse e repeti, mas o meu corpo naquele instante não recuou. Ele se recusou terminantemente a recuar."
"VocÊ poderia ter escapado", o marido murmurou, quase como um protesto murcho.
Depois colérico: "Você quis se entregar a ele." Depois em autocomiseração: "Você me traiu e não se arrependeu!"
Ela disse, repetiu e insistiu que estava constrangida e arrependida, que não conseguia mais dormir, que não conseguia mais pensar no mal que havia feito ao marido.
Ele abriu o guarda chuva no meio da sala. Ela espantou-se, depois estranhou e por fim riu.
Lá fora chovia e ele foi abrir o guarda chuva na sala. Chovia e ele chovia por dentro, encharcado.


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