Cochichos e Relaxos


12/11/2009


a casa

A casa está vazia, silenciosa. Ele está sentado na cadeira, como se tivesse acabado de tentar agarrar fantasmas. Há penumbras, luzes somente as da rua. Há sombras, todas elas confusas, semi delineadas. As sombras se confundem como as imagens em sua mente: um moça bonita com olhar desbotado, uma antiga foto de um garoto com rosto ovalado, um rosto de homem sem definição precisa.

Ele respira calmo e solicito ao ritmo de sua vaga sombra. Ajeita a sua roupa: alguém acabou de gritar "ação"; alguém acabou de berrar para ele parar. Parar com o que? Parar com a maquina do tempo, parar com a polaroide antiga que tira fotos instântaneas? Alguém disse para ele recuar e refazer a cena, alguém lhe martela na cabeça para que pare e retroceda a cena.

Ele respira, pode sentir todos os seus músculos como quem se exercitou depois de longo tempo e agora tem o corpo dolorido.

Liga a televisão, Harrison Ford está sendo assassinado por uma serra elétrica empunhada por Kevin Wayne, mistura de comboy e vampiro assasino.

ele saca a seerra elétrica e em segundos estraçalha Harrison Ford, a mocinha grita e o sangue de seu amadp respinga em seu vestido imaculado.

Mas ela tem algo estranho, uma expressão perversa. O marido ri, a mocinha se parece com a sua ex-esposa. Não pode deixar de notar a perversidade em seu rosto. Ela toma a serra elétrica das mãos de Kevin Wayne e o estraçalha com requintes de crueldade. Ele assite empapado em sangue, suor. Ele ri de si, de Kevin e Harrison... Ele ri de todos os parasitas da terra, de todos os enganos.

Depois adormece.

Escrito por Jiló às 20h38
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11/11/2009


desprotegido

As luzes da casa estão apagadas: silêncio. a casa está fechada. Ele está desajeitado. A casa não é mais sua.

abre a porta, hesita em apertar o interruptor. Aparentemente não há ninguém.

a luz da sala é acesa. Ele recua como se fosse um lobo assustado que tivesse caído em uma armadilha. Até então nunca tinha se visto como um lobo, agora percebia os caninos salientes. Diante dele uma imagem projetada. É ela: sua esposa ou algo parecido.

Ela o encara como um estranho. Os estranhos que nunca se olharam como nos filmes de terror: os olhos dela quebradiços.

Ela estende a mala, aberta, com roupas sujas. Todas as roupas sujas. ele desvia o olhar.

"pegue as suas coisas e vá embora!" (silêncio)

"...para sempre."

não há mais nada há ser dito.

ele diz baixinho: eu não sou o palhaço do Harrison Ford, não sou John Wayne ou Mickey Rourke.

ela não ouve porque não há dvds para reproduzir a fala do seu marido.

ele arranca as malas de sua mão, é real. Ela sente o tom áspero da pele do agora ex-marido. Ele está sem guarda-chuva, está sem proteção.

Começa chorar, aquele choro denso e sem proteção, uma cascata desconexa mistura de tristeza rancor e insensatez. ele tira uma capa de chuva usada e suja de barro da mala e a veste para proteger de seu choro.

Escrito por Jiló às 20h17
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09/11/2009


a vida de ponta cabeças

estou sentado, observando o nada

a meia usada está sobre a mesa de jantar,

a calça largada no sofá

na cozinha, uma pilha de xícaras sujas, que nunca serão lavadas

na escrivaninha, contas a pagar ilhadas e encharacadas com a última chuva do verão

em outra ponta da escrivaninha recortes de jornal, sobre a comemoração da queda do muro de berlim,

fotos de alguma celebridade, perdida com o seu amor em uma praia dao rio,

reportagem sobre pesquisa com células tronco

o pastor berra em sua pregação na televisão. eu sempre deixo a televisão ligada ao invés do som.

o pastor sempre berra e late desafinado, irado, neurótico

minha cabeça tá uma confusão

hoje minha filha virá me visitar e só verá luminosidade, ordem e uma certa assepsia na casa de seu velho e pacato pai.

e contará à minha esposa como eu sou uma pessoa organizada,

e falará bem de mim falando mal: um pai careta, quadrado, equilibrado emocionalmente, pouco afeito a arroubos.

jamais verá guardanapos sujos no varal, nem meias, como num vendaval, sobre escrivaninhas.

o mesmo cenário que minha ex-mulher viu e que a fez se separar de mim.

Minha filha virá beijar a minha cabeça plácida, como lagos gélidos da escandinávia. Gesto carinhoso.

Minha cabeça em combustão, minha mente prestes a explodir.

Escrito por Jiló às 19h57
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