Como se fosse um solo que se repete ou uma fórmula gasta, eu remoo frases soltas ditas pela minha mulher a meu respeito: "O seu orgulho tolo. Tolo! A tua arrongância explícita. Explícita."
Minha filha me fala do vestido novo, meu filho narra com entusiasmo um computador consertado e um dinheiro extra que virá para a sua minguada conta bacária. Tramas bem sucedidas.
No cinema passa o Homem Aranha ou algo parecido. Ela vai de Lars Von Triers e eu de desespero existencial.
Eu ouço Miles Davis, "Walking"... walking about? Piso em terreno pantanoso, piso em camada fina de gelo: lago congelado.
Minha mulher me diz que tenho de me preocupar com o bem de todos. Eu continuo ouvindo Miles Davis e penso que faria bem para a humanidade ouvir Miles Davis.
O bem de todos passa por Miles Davis e não pelos filmes de Lars Von Triers. Minha mulher se enfurece, diz que estou em fuga, em egoísmo absoluto. Aos sábados, fazemos compra no supermercado e vejo uma senhora conduzindo o seu carrinho, lotado de coisas inúteis e úteis, comentando animada com a sua amiga que agora pode comprar mais alfaces porque o preço baixou; ouço uma outra senhora exultante por conseguir comprar uma roupa para o seu filho por uma pechincha. Minha mulher faz careta e eu de tédio infinito. Ela insiste no tal Bem da Humanidade, que faz questão de escrever com letras maiúsculas.
A Terra, penso, a velha Terra está se acabando em vícios e virtudes. Miles Davis padecia dos dois; o homem padece de vícios e virtudes. Eu pego meu velho carro, ainda um símbolo de liberdade e saio por aí sem dar satisfação a minha família. Um homem infantilizado. Entrei numa oficina desmonte, pedi para cortar o capô para sentir o vento e a chuva. Ligo o rádio, meu radinho de pilha para ouvir Miles Davis. Minha esposa diz que padeço de vício, pois só penso em mim, diz que sou infantil. Nenhuma virtude, nenhum sentimento de nação. Ela é sábia e eu sou apenas um ser humano tosco. Mas ela aforma que somos todos iguais, lembro do Geraldo e de como fui ingênuo em acreditar no Geraldo. Lembrei que não nutro mais sentimentos pela tal humanidade, embora ela me pareça simpática quando é tosca e banal. Eu mergulho na vida por obrigação, como se mergulhasse numa raia individual, como se não visse ninguém, impermeável eu que vive impermeável em sociedade. Miles Davis e eu repentinamente nos tornamos os únicos habitantes da terra. Eu dirijo o meu carro sem marcha ré, eu dirijo para nunca mais voltar ao som de todos os herois do meu bem comum.


Leia este blog no seu celular