Cochichos e Relaxos


21/11/2009


mundos paralelos

Como se fosse um solo que se repete ou uma fórmula gasta, eu remoo frases soltas ditas pela minha mulher a meu respeito: "O seu orgulho tolo. Tolo! A tua arrongância explícita. Explícita."

Minha filha me fala do vestido novo, meu filho narra com entusiasmo um computador consertado e um dinheiro extra que virá para a sua minguada conta bacária. Tramas bem sucedidas.

No cinema passa o Homem Aranha ou algo parecido. Ela vai de Lars Von Triers e eu de desespero existencial.

Eu ouço Miles Davis, "Walking"... walking about? Piso em terreno pantanoso, piso em camada fina de gelo: lago congelado.

Minha mulher me diz que tenho de me preocupar com o bem de todos. Eu continuo ouvindo Miles Davis e penso que faria bem para a humanidade ouvir Miles Davis.

O bem de todos passa por Miles Davis e não pelos filmes de Lars Von Triers. Minha mulher se enfurece, diz que estou em fuga, em egoísmo absoluto. Aos sábados, fazemos compra no supermercado e vejo uma senhora conduzindo o seu carrinho, lotado de coisas inúteis e úteis, comentando animada com a sua amiga que agora pode comprar mais alfaces porque o preço baixou; ouço uma outra senhora exultante por conseguir comprar uma roupa para o seu filho por uma pechincha. Minha mulher faz careta e eu de tédio infinito. Ela insiste no tal Bem da Humanidade, que faz questão de escrever com letras maiúsculas.

A Terra, penso, a velha Terra está se acabando em vícios e virtudes. Miles Davis padecia dos dois; o homem padece de vícios e virtudes. Eu pego meu velho carro, ainda um símbolo de liberdade e saio por aí sem dar satisfação a minha família. Um homem infantilizado. Entrei numa oficina desmonte, pedi para cortar o capô para sentir o vento e a chuva. Ligo o rádio, meu radinho de pilha para ouvir Miles Davis. Minha esposa diz que padeço de vício, pois só penso em mim, diz que sou infantil. Nenhuma virtude, nenhum sentimento de nação. Ela é sábia e eu sou apenas um ser humano tosco. Mas ela aforma que somos todos iguais, lembro do Geraldo e de como fui ingênuo em acreditar no Geraldo. Lembrei que não nutro mais sentimentos pela tal humanidade, embora ela me pareça simpática quando é tosca e banal. Eu mergulho na vida por obrigação, como se mergulhasse numa raia individual, como se não visse ninguém, impermeável eu que vive impermeável em sociedade. Miles Davis e eu repentinamente nos tornamos os únicos habitantes da terra. Eu dirijo o meu carro sem marcha ré, eu dirijo para nunca mais voltar ao som de todos os herois do meu bem comum.

Escrito por Jiló às 21h01
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20/11/2009


a casa 1

A visão de um filme com os móveis revirados por policiais a procura de drogas é algo tão trivial quanto a visão da mocinha e do mocinho no final feliz.

Mas quando a sua cabeça parece um filme revirado, a sensação é outra: amarga. A cena parece irreal porque é com você. Cenas reais acontecem apenas com os outros. Os móveis da sala de estar de sua casa, todos revirados. Ouve ruídos rídiculos de sirenes ao longe. Sua cabeça estava zonza. Como despertar e encontrar móveis e mentes de ponta cabeça? Cadeiras deslocadas com precisão, a estante posta de ponta cabeça. Ele balança a cabeça para colocá-la em ordem, balança mas é apenas um chocalho que faz barulho e não produz nenhuma melodia.

Escrito por Jiló às 13h58
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12/11/2009


a casa

A casa está vazia, silenciosa. Ele está sentado na cadeira, como se tivesse acabado de tentar agarrar fantasmas. Há penumbras, luzes somente as da rua. Há sombras, todas elas confusas, semi delineadas. As sombras se confundem como as imagens em sua mente: um moça bonita com olhar desbotado, uma antiga foto de um garoto com rosto ovalado, um rosto de homem sem definição precisa.

Ele respira calmo e solicito ao ritmo de sua vaga sombra. Ajeita a sua roupa: alguém acabou de gritar "ação"; alguém acabou de berrar para ele parar. Parar com o que? Parar com a maquina do tempo, parar com a polaroide antiga que tira fotos instântaneas? Alguém disse para ele recuar e refazer a cena, alguém lhe martela na cabeça para que pare e retroceda a cena.

Ele respira, pode sentir todos os seus músculos como quem se exercitou depois de longo tempo e agora tem o corpo dolorido.

Liga a televisão, Harrison Ford está sendo assassinado por uma serra elétrica empunhada por Kevin Wayne, mistura de comboy e vampiro assasino.

ele saca a seerra elétrica e em segundos estraçalha Harrison Ford, a mocinha grita e o sangue de seu amadp respinga em seu vestido imaculado.

Mas ela tem algo estranho, uma expressão perversa. O marido ri, a mocinha se parece com a sua ex-esposa. Não pode deixar de notar a perversidade em seu rosto. Ela toma a serra elétrica das mãos de Kevin Wayne e o estraçalha com requintes de crueldade. Ele assite empapado em sangue, suor. Ele ri de si, de Kevin e Harrison... Ele ri de todos os parasitas da terra, de todos os enganos.

Depois adormece.

Escrito por Jiló às 20h38
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11/11/2009


desprotegido

As luzes da casa estão apagadas: silêncio. a casa está fechada. Ele está desajeitado. A casa não é mais sua.

abre a porta, hesita em apertar o interruptor. Aparentemente não há ninguém.

a luz da sala é acesa. Ele recua como se fosse um lobo assustado que tivesse caído em uma armadilha. Até então nunca tinha se visto como um lobo, agora percebia os caninos salientes. Diante dele uma imagem projetada. É ela: sua esposa ou algo parecido.

Ela o encara como um estranho. Os estranhos que nunca se olharam como nos filmes de terror: os olhos dela quebradiços.

Ela estende a mala, aberta, com roupas sujas. Todas as roupas sujas. ele desvia o olhar.

"pegue as suas coisas e vá embora!" (silêncio)

"...para sempre."

não há mais nada há ser dito.

ele diz baixinho: eu não sou o palhaço do Harrison Ford, não sou John Wayne ou Mickey Rourke.

ela não ouve porque não há dvds para reproduzir a fala do seu marido.

ele arranca as malas de sua mão, é real. Ela sente o tom áspero da pele do agora ex-marido. Ele está sem guarda-chuva, está sem proteção.

Começa chorar, aquele choro denso e sem proteção, uma cascata desconexa mistura de tristeza rancor e insensatez. ele tira uma capa de chuva usada e suja de barro da mala e a veste para proteger de seu choro.

Escrito por Jiló às 20h17
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09/11/2009


a vida de ponta cabeças

estou sentado, observando o nada

a meia usada está sobre a mesa de jantar,

a calça largada no sofá

na cozinha, uma pilha de xícaras sujas, que nunca serão lavadas

na escrivaninha, contas a pagar ilhadas e encharacadas com a última chuva do verão

em outra ponta da escrivaninha recortes de jornal, sobre a comemoração da queda do muro de berlim,

fotos de alguma celebridade, perdida com o seu amor em uma praia dao rio,

reportagem sobre pesquisa com células tronco

o pastor berra em sua pregação na televisão. eu sempre deixo a televisão ligada ao invés do som.

o pastor sempre berra e late desafinado, irado, neurótico

minha cabeça tá uma confusão

hoje minha filha virá me visitar e só verá luminosidade, ordem e uma certa assepsia na casa de seu velho e pacato pai.

e contará à minha esposa como eu sou uma pessoa organizada,

e falará bem de mim falando mal: um pai careta, quadrado, equilibrado emocionalmente, pouco afeito a arroubos.

jamais verá guardanapos sujos no varal, nem meias, como num vendaval, sobre escrivaninhas.

o mesmo cenário que minha ex-mulher viu e que a fez se separar de mim.

Minha filha virá beijar a minha cabeça plácida, como lagos gélidos da escandinávia. Gesto carinhoso.

Minha cabeça em combustão, minha mente prestes a explodir.

Escrito por Jiló às 19h57
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09/10/2009


Encharcados de vida

Pois bem

Eles dizem que falta vida

que falta emoção

que falta o deslumbramento inicial da descoberta do mundo

Eles dizem que falta avivar as teorias

que elas estão muito distantes da realidade

E também dizem que as crianças ainda possuem o germe da descoberta e do fascínio do mundo

As crianças filosoficamente encharcadas de vida

Encharcadas pela enchurrada que inunda a cidade todo verão

Encharcadas de álcool derramado

Encharcadas pela banalidade da ética

Fascinadas pela vida que se dissmula a cada deslumbramento

Se querem ser tocadas, que entrem para um bordel

Se querem ser encharcadas que tomem todo o álcool armazendo em barris de carvalho

Mas não digam que isso é filosofia

Escrito por Jiló às 20h09
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21/09/2009


vocę sabe...

Você sabe que um dia, mais cedo ou mais tarde...

vão te julgar

vão te condenar

vão te acusar de ser um mal exemplo

de se comportar intempestivamente

Se você não sabe, um dia ficará sabendo

que vão te acusar de cometer todas as imundices do mundo

E você não terá defesa

Eles serão impiedosos

Irão jogar pedras em você, os mesmos que possuem alma enlameada, que possuem esterco até no último pensamento.

Eles que fedem e sequer desconfiam que fedem

Vão te acusar de fumar, cheirar, beber e fornicar

E depois retornarão em paz com a sua consciência vazia e seu corpo sujo para os seus lares.

Alguém disse lares?

Um dia... mais cedo ou mais tarde a última inocência será perdida

Que o céu e a lua e um pouco de vodca de arte e de vida ainda te proteja diante de lobos famintos

Fique em paz amigo!

Escrito por Jiló às 19h33
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Pedras, danos e uma morte á vista

Ela virou-se para o marido. Um homem ridículo portando um guarda chuva aberto na sala. Ela de início arrependida, atirou pedras na direção dele.

"Você mereceu. Você é a coisa mais murcha da face da terra, inssosso, que chega a ser grosseiro."

Escrito por Jiló às 19h26
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04/09/2009


confessionário

As confissões são feitas de retalhos da vida, de noites mal dormidas, de desejos reprimidos.

Deve haver uma barreira simbólica entre o confessor e quem ouve a confissão: um tapume fino e raso, mas o suficiente para abrir um abismo.

Deve haver ... deve haver... alguma brecha para o rancor, deve haver alguma brecha para a dor e a felicidade por mais estúpida e fora do tempo que ela possa parecer. Deve haver um espaço milimétrico para o ridículo... o ridículo do amor e a ridícula da desculpa-esfarrada-mas-bem-treinada-na-voz-interior. E sobretudo deve haver um espaço maior para o arrependimento, motivopara a confissão. 

E ela confessou o inesperado o insensato o impensado. Ela, prensada e combalida, musa, mulher, companheira e finalmente enfeite de bolo no dia do casamento. Ela confessou até o último limite, até a última gota de sangue e suor e desejo e esperma.

Na última noite da última semana de verão, quando chovia torrencialmente sobre são paulo, ela presa ao trânsito, trancada em um ônibus, entre a doutor arnaldo  e a paulista sentiu-se entre a solidão e um certo enfado.

Ali, no ônibus, presa do tempo e da memória. Ela já flertara com ele em um dia escuro e assustador. Pediu-lhe suplicante um amor, uma rima e uma dor. Pensou na prisão do ônibus, na impotência de fugir dali, pensou em inifnitas prisões, cárceres privados da sua vida de casada. Ele foi direto ao ponto, com um olhar direto e certeiro: você é minha. Os olhos dele diziam: "você é minha" como quem diz você é meu objeto preferido, meu brinquedo. E ela sentiu-se fascinada em ser objeto de alguém. Mas logo que ele se aproximou sentiu um calafrio. Tentou recuar. Mas ele a segurou firma em seus braços. As pessoas imersas em suas prisões, nada desconfiaram. Os edifícios estáticos e um flat a caminho.  

Ela olhava para o chão no confessionário, tentando arrancar todas as palvras sinceras e sentimentos de arrependimento.

O marido murmurou e soluçou impotente: "Mas você poderia se quisesse, podeira escapar, e não escapou."

"Eu fiquei supresa, não sabia que ele teria a coragem de me abordar daquela maneira tão trivial como quem pega a fruta de uma árvore, como se eu fosse a sua propriedade ou a extensão de meu corpo."

"Então eu não resisti, então meu corpo se deixou levar. Eu disse não, disse e repeti, mas o meu corpo naquele instante não recuou. Ele se recusou terminantemente a recuar."     

"VocÊ poderia ter escapado", o marido murmurou, quase como um protesto murcho.

Depois colérico: "Você quis se entregar a ele." Depois em autocomiseração: "Você me traiu e não se arrependeu!"

Ela disse, repetiu e insistiu que estava constrangida e arrependida, que não conseguia mais dormir, que não conseguia mais pensar no mal que havia feito ao marido. 

Ele abriu o guarda chuva no meio da sala. Ela espantou-se, depois estranhou e por fim riu.

Lá fora chovia e ele foi abrir o guarda chuva na sala. Chovia e ele chovia por dentro, encharcado.

Escrito por Jiló às 20h21
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02/09/2009


perguntas que năo se respondem

Aproxima-se da casa. Aproximar-se significa quarteirões de distância , oceanos e desertos a atravessar.

Jurou nunca mais retornar, mas estava ali e cada vez mais ali, aproximando-se e nem sabia porque dirigia-se à casa.

Podia ouvir a sua esposa pedindo compassiva um perdão, podia ouvi-la pegando band-aids inúteis para curar as feridas, podia vê-la se abaixo e se rebaixando a ele ou simplesmente lavando a louça como se nada houvesse acontecido. Mas que vergonha, para ela e para ele. Quanta falta de amor próprio, quanto desperdício de vida e afeto, quantas distorções e humilhações.

A casa cada vez mas próxima. Talvez ainda chegasse a tempo de fechar a porta escancarada por ele, talvez algum bandido ou maníaco houvesse invadido a casa de portas abertas e uma mulher de rosto apático e estranhamente convidativo o tivesse atraído. Sabe-se lá. Malucos e desviados.

Quem sabe um incêndio devstador sobre a casa apagou as lembranças e raivas? Quem sabe as fagulhas do fogo não queimaram rancores vãos de um amor traído, partido?

O mais enigmático era que ele continuava a caminhar em direção à casa e quanto mais se aproximava dela, mais decidido ficava.

E  a figura magra e quase anoréxica dela, e a doçura, e o sentido de ordem e organização? E os vulcões, e as erupções hormonais, epidérmicas que durante toda a vida ela controlou com extremo rigor de um equilibrista que nunca falha?

Mas um dia falhou. E ela e não outra, agora é outra e não ela.

Escrito por Jiló às 19h05
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30/08/2009


anoitece

é um solo de trompete, melacólico, calmo e triste. E então anoitece

Anoitece em tardes que se deixam escapar, sem pressa. simplesmente

como a água que escorre mansa por entre as mãos.

Anoitece e ela desliza entre noiteces: gata sissiante, caminhar elegante e discreto.

Não há pressa alguma em chegar ao fim da noite.

Anoitece, mas no fundo é só um solo de trompete de Miles Davis que escorre lentamente,

como a água mansa e triste.

anoitece e um tormpetista sola anoitece oculto em algum bar.

E o solo de trompete escapa por entre frestas como água corrente:

Solo de anoitece, sax e tormpete, que se mistura à tarde melancólica. Então é noite, definitivamente.

Anoitece e é como o som que escorre manso e melancólico pelo tempo.

anoitece e não há como amanhecer.

Escrito por Jiló às 15h51
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28/08/2009


Volta para a casa

Ele ruma em direção à casa e sabe que vai errar, que vai se desviar porque no fundo não vai encontrar o caminho. sabe que vai se perder pelas sinuosidades das esquinas, das ruas que fazem curvas improváveis e que continuam depois de uma ponte mal construída. E ele vai acabar se perdendo de propósito em alguma rua sem saída.

A cidade está calma, cálida e estranhamente perfeita, engarrafada dentro de um grande vasilhame, embrulhada em papel celofane.

A cidade asséptica, outrora maldita. Os gritos foram abafados, as solidões sufocadas, mas é por isso que ele reage e se move nos espaços das ruas onde parecem que as facas são riscadas contra o concreto, onde a fricção das fagulhas parecem produzir alguma forma de vida e de morte.

Ele sabe que vai errar por horas a fio. Ele tem dúvidas se a cidade o engolirá em seus arranha-céus e noites sem estrelas antes que alcansse a casa desfeita. Ele tem dúvidas se deseja ser engolido pelo concreto, a terra abrindo-se, engolindo-o...   

Escrito por Jiló às 19h45
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14/08/2009


paz, deserto e silęncio

As ruas estão desertas.

"Reina a paz, reina a paz."

Um refrão que se repete como uma música monótona em cada canto da cidade deserta e vazia, como as músicas tocadas nos elevadores impessoais dos grandes apartamentos.

Ele internaliza e torce o refrão: "eu estou deserto, minha alma está vazia. Reina a guerra e o nada."

O rosto do policial transfigurado destoa do silêncio, do vazio e da paz perpétua.

Em frente a um prédio, estilo neo-clássico, falso até a última viga, higienópolis, ele permanece sentado, estático,

como se uma aura de repentina felicidade ali baixasse: névoa densa na noite fria.

"Olha o que ele fez, esse porco, sujo e imundo!", diz o segurança particular, engradado em seu paletó de segunda mão.

O vigia particular aponta em direção a uma poça mal cheirosa.

Mijo, mijo e mais mijo.

"O senhor tem de ir para a casa", completa o policial, boquiaberto.

Ele repele a ordem, ele permanece na indiferença. "Estou torto, não posso me mover e aqui está muito confortável."

O policial vocifera, primeiro coro: "Vou prendê-lo por desacato à autoridade constituída."

O segurança clama, segundo coro: "Você tem de colocar esse cara num chiqueiro. Ele tá todo borrado, mijado, calça suja, petelecos no cabelo."

Ele é conduzido pelos policiais numa radiopatrulha até a delegacia, a poucas quadras de distâncias. Alta velocidade, sirenes ligadas. É, além das ambulâncias, o único silêncio ouvido.

O delegado bufa ao ver os policiais trazerem mais um suspeito de perturbar a ordem pública. Não há mais espaço na cadeia. Os gritos lacinantes  dos detentos, os seus lamentos, preenchem todos os espaços da delegacia. "Vocês estão de sacanagem comigo", berra o delegado desvairado.

"Mas ele parece manso", dizem os policiais. "O problema são os mijos e a insistência em ficar na rua."

Ele ouve gritos, uivos humanos não caninos. Ouve pedidos clamando respeito e liberdade. Ninguém consegue contê-los.

O delegado o expulsa da delegacia, superlotada. Ele é apenas um traço, um ponto na estatística. Um traço a menos: menos que um bandido, menos que um cidadão respeitável.

As ruas estão desertas: reina o silêncio, a paz e a ordem. Ele caminha da delegacia para a casa trazendo a recomendação de não olhar para os lados, para o alto, de não parar em lugar algum, de não falar com estranhos. "Olhe para a frente e vá em linha reta, sem desvios."

Ele ainda tentou argumentar com o delegado, algo do tipo 'fui expulso de casa, eu fugi de casa, não tenho mais casa, nem mais mais amor'. E ouviu do delegado a bronca e o conselho que ele deveria se reconciliar com a mulher, que todo casamento tem jeito, que a solidão não presta, que as ruas não foram feitas para serem habitadas. E ele foi convencido, coagido a voltar para os braços de sua mulher, mesmo porque afinal de contas não tinha para onde ir. A felicidade não é uma via cor-de-rosa. Cinza e contentamento. Sons amarelecidos e contentamento. 

A cidade tem tons amarelos e cinzas: poluição e fuligem e um som monótono. Ele procura ouvir sinais, música em casas insuspeitas. Mas é em vão. Silêncio e a imensidão do deserto do silêncio de são paulo: patagônia, atacama, saara e amazônia.

Mas para onde ela irá? Que linha reta ele seguirá?

Escrito por Jiló às 20h41
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02/08/2009


um dia concreto de fúria e de dor

Um dia de fúria ou de glórias inglórias: ele de início paralisado foi sendo tomado em cólera

até atingir picos alucinantes. Emoções em montanha russa.

Ele ainda se voltou para olhar dentro de casa,

a porta escancarada, o olhar pétreo e paralisado

da mulher, ex-mulher, talvez ex-ser-vivente. Ele precisava encontrar rápido a saída,

escapar do labirinto daquela casa, que não era a sua casa, que nunca fio o seu lar.

e ele foi saindo como quem escapa de abismos.

Escrito por Jiló às 15h29
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29/07/2009


guarda-chuvas

guarda-chuvas servem para proteger da metralhadora verbal do outro

guarda-chuvas servem para nos abrigar do ranço, da mágoa de alguém que ainda diz nos

amar.

Sempre o amor. E dele devemos nos proteger com nosso impermeável.

Foi um guarda-chuva que ele pegou e abriu no meio da sala quando a mulher contra-atacou.

Uma forma de proteção, contra ela e contra sua raiva.

Guarda-chuvas servem para representar flores em cantigas de roda no teatro do Antunes

filho. Fantasia pura.

Mas não há nada de poético na situação. Ela avança sobre ele, agride-o em mínimas palavras

pontiagudas como cacos de vidros estilhaçados.

Guarda-chuvas servem para proteger de nossas chuvas internas, do nosso

sorriso nervoso,

para que não nos encharquemos em meio ao alcóol e à imensidão estonteante

do céu.

"Eu preciso sair daqui", ele repete no interior de sua imobilidade, em sua repentina imobilidade

que o faz parecer um homem empalhado. Mas ele treme por dentro.

Chove sem tréguas em São Paulo. A cidade chove.

Ela o vê saindo, desaparecendo da sua vista,

no meio da multidão encharcada.

Escrito por Jiló às 13h46
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